Empresas Pó dos Livros fecha devido a rendas "altíssimas" e concorrência das grandes cadeias

Pó dos Livros fecha devido a rendas "altíssimas" e concorrência das grandes cadeias

As "rendas altíssimas" e a "concorrência desleal" das grandes cadeias são os principais motivos que ditaram o fim da Pó dos Livros, que fecha portas no final de Março, disse à agência Lusa Jaime Bulhosa, sócio-gerente daquela livraria independente.
Pó dos Livros fecha devido a rendas "altíssimas" e concorrência das grandes cadeias
Lusa 28 de fevereiro de 2018 às 18:22

Numa nota publicada na terça-feira, no blogue da livraria, Jaime Bulhosa escreveu que "chegou a hora de a livraria Pó dos Livros 'celebrar o dia da liquidação total'", pois, "no dia 31 de Março de 2018, mais esta livraria passará a ser uma mera recordação, um pedaço de pó na memória de poucos".

 

"Os motivos são os mesmos de sempre, de todas as outras livrarias que já fecharam. Em primeiro lugar, rendas altíssimas que não permitem ao negócio dos livros sobreviver, depois uma concorrência que é completamente desleal, porque é impossível concorrer com as grandes cadeias, com os descontos que eles fazem, e com as margens que nós temos, portanto as livrarias independentes estão em extinção", afirmou Jaime Bulhosa, à agência Lusa.

 

Para Jaime Bulhosa, porém, a situação é ainda "mais complicada do que parece", devido à concorrência da Internet: os livros técnicos, os que não são de ficção e que não são para ser lidos por inteiro, deixaram de ser vendidos, porque estão na Internet.

 

Nestes dez anos e meio de existência da Pó dos Livros (abriu em Setembro de 2007), Jaime Bulhosa já tinha antevisto, por mais de uma vez, o encerramento eminente da livraria, o que testemunhou por escrito em 2011.

 

Naquela altura, como agora "os motivos são os mesmos, há muitos anos, desde que apareceu a grande concorrência", afirmou, considerando que "hoje em dia vivemos um oligopólio no mercado do livro".

 

"A verdade é que as margens que nós tempos, às vezes, são inferiores aos descontos que eles fazem. É impossível concorrer. Nós compramos mais caro do que eles vendem ao público, é quase impossível sobreviver", desabafou.

 

O responsável ainda tentou diferenciar-se, fazer outro tipo de ações ligadas à cultura, tentou a internet, tentou "de tudo", mas com a renda que tinha, era "impossível".

 

Procurou espaços com rendas que lhe permitissem sobreviver, mas os que encontrou não tinham movimento, nos sítios que têm movimento - e uma livraria precisa de movimento de rua - as rendas são "caríssimas".

 

"É uma pena para a diversidade, as alternativas de escolha, cada vez temos menos escolha, vamos todos ficar com dois ou três pontos de venda que vendem todos o mesmo, portanto a diversidade vai diminuir e é isso que me preocupa, nisto tudo", disse à Lusa.

 

Desde a fundação, a livraria gerida por Jaime Bulhosa e Isabel Nogueira foi distinguida como Melhor Livraria Independente, pela Revista Ler e a Booktailors, recebeu o prémio de Melhor Blogue de Livraria ou Editora da Blibie, e foi eleita a segunda Livraria Preferida de Lisboa, na votação promovida pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, com as Bibliotecas Municipais de Lisboa, em 2013.

 

No seu blogue, a Pó dos Livros define-se como "uma livraria de bairro, independente, alternativa, com livreiros experientes".

 

Situada, originalmente, na avenida Marquês de Tomar, transferiu-se, mais tarde, para a actual localização, no n.º 58A da avenida Duque de Ávila, na esquina com a Conde de Valbom.

 

Num local e no outro, Jaime Bulhosa procurou criar um ambiente próximo das "antigas e tradicionais livrarias de Londres, com estantes altas, negras, de madeira trabalhada, e com as paredes coloridas", dirigindo-se a "um público diferenciado do das livrarias de grande superfície, clientes mais exigentes, mais selectivos".

 

"Oferecemos um largo conjunto de livros, que passa pelas novidades editoriais dos autores mais valorizados, pelo fundo de catálogo, livros raros e usados, pelos clássicos da literatura que, cada vez mais, são difíceis de encontrar nas livrarias de centro comercial. Tentamos dar o máximo de visibilidade aos catálogos das pequenas editoras, a edições de autor e a textos esquecidos", lê-se no blogue da loja.

 

"Privilegiamos, sem nenhum pudor (...), as editoras e chancelas de qualidade", escreve Jaime Bulhosa, destacando a exigência na selecção dos livros infantis e juvenis, por ser "quase sempre nestas faixas etárias que se ganha o apetite, ou não, pela leitura", e a disponibilidade para "satisfazer aqueles pedidos que ninguém quer aceitar, porque dão muito trabalho e pouco retorno financeiro", que impõem "périplos pelos alfarrabistas, feiras de usados (...), em busca de um só livro que há muito se encontra esgotado".

 

O nome da livraria tem origem numa passagem de "A Sombra do Vento", de Carlos Ruis Zafón, sobre "um cemitério de livros esquecidos", cheios de pó, que recordou a Jaime Bulhosa uma história com seu pai, em que este lhe explicou que os livros com pó são os mais importantes, por serem aqueles que "resistiram ao tempo".




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