Diretora-geral do comércio da UE demite-se após desacordo sobre entendimento com Trump
Sabine Weyand, que ocupava o cargo há sete anos, defendeu que o acordo comercial alcançado entre UE e EUA no verão do ano passado não respeita as regras da OMC. Será substituída a partir de 1 de junho por Ditte Juul Jorgensen, diretora-geral da Energia na Comissão Europeia.
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A principal responsável pelo comércio da União Europeia (UE) vai deixar o cargo após um desentendimento com superiores sobre o acordo comercial celebrado entre o bloco e os Estados Unidos (EUA) no verão de 2025.
Sabine Weyand, diretora-geral do Comércio e da Segurança Económica da Comissão Europeia, que liderou o departamento durante sete anos, contradisse publicamente a opinião dos seus superiores de que o acordo assinado por Ursula Von der Leyen e Donald Trump no ano passado na Escócia era compatível com as regras do comércio mundial.
Nos termos do acordo alcançado entre a maior economia mundial e os 27 - aprovado pelo Parlamento Europeu há cerca de um mês -, a UE concordou em pagar tarifas de 15% sobre a maioria dos produtos exportados para os EUA, reduzindo simultaneamente a zero as suas taxas sobre a maioria dos bens norte-americanos importados pelo bloco.
Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, tem defendido repetidamente que o acordo está em conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e resumiu que se tratava do primeiro passo para um entendimento de comércio livre mais abrangente entre as duas potências, cita o jornal britânico.
Mas Weyand contradisse a compatriota alemã, e num discurso ao Parlamento Europeu em setembro disse que o acordo não “cumpria as condições [da OMC]”. “Se fôssemos aos EUA e disséssemos ‘concordam connosco que o objetivo é transformar isto num acordo de comércio livre totalmente compatível com a OMC?’, penso que a resposta seria um sonoro não”, acrescentou nessa altura.
Mais tarde, num evento público decorrido ainda no ano passado, Weyand defendeu que a UE hesitou em retaliar contra as tarifas unilaterais de Trump devido ao receio de que o republicano deixasse de defender a Europa e a Ucrânia contra a Rússia. “A parte europeia estava sob enorme pressão para encontrar uma solução rápida que estabilizasse as relações transatlânticas — especialmente no que diz respeito às garantias de segurança”, afirmou.
Um alto funcionário da UE negou qualquer desentendimento entre Weyand e von Der Leyen: “Ela [Weyand] teve sete anos impressionantes à frente da direção-geral do Comércio. Nos últimos meses, concretizou os acordos com o Mercosul, a Índia e a Austrália, e em breve com o México. É um momento lógico para seguir em frente”, revelou o responsável ao FT.
Weyand será substituída a partir de 1 de junho por Ditte Juul Jorgensen, outra responsável experiente em comércio que atualmente lidera o departamento da energia, informou a Comissão.
Karl von Falkenberg, antigo vice-diretor-geral para o Comércio na Comissão Europeia, disse ao FT que a relação entre Weyand e Maros Sefcovic - comissário responsável pela pasta do Comércio na UE - estava “completamente rompida”. Von Falkenberg alinhou-se ainda com Weyand e explicou que “a ideia de um acordo de comércio livre em que um lado aumenta as tarifas e o outro as reduz é um disparate.”
Sabine Weyand, formada em Cambridge, ganhou destaque depois de ter assumido o papel de negociadora-chave no acordo de saída do Reino Unido da UE (Brexit).