Empresas Presidente um dia, vendedor toda a vida

Presidente um dia, vendedor toda a vida

Chegou a hora da “ascensão natural ao topo”. Para trás ficam estórias de um miúdo vendedor de biscoitos e calças de ganga. Hoje faz-se presidente, o mais novo das operadoras incumbentes europeias. Quem é Zeinal Bava? Um vendedor, “of course”.

"Não há ‘povo’ no condomínio, nem animais domésticos. Uma das vizinhas é aquela senhora da televisão, das manhãs da TVI, e outro um advogado que trabalha com o Júdice". No bairro de Zeinal Bava a vida é, de facto, um carrossel, mas a vizinhança pouco ou nada sabe sobre o próximo presidente executivo da PT. "Natural", diz quem conhece o homem que gosta de "passar entre os pingos da chuva", ainda que para vender não se importe de andar "no porta-a-porta".

O senhor Francisco Nobre, anfitrião das tiras de picanha mais famosas do bairro, não reconhece a cara do vizinho à primeira. A dona "Maria Adelina Domingos da Cruz aqui-e-em-todo-lado" também não, ainda que depois de namorar a fotografia deixe soltar, entre sorrisos marotos, um "parece-me muito bem...". Nas populares ruelas lisboetas de Santos, como quem segue pela Rua das Janelas Verdes, Zeinal Bava é quase um desconhecido. Por opção. Nas redondezas, apenas António Cândido sorri ao desafio do "sabe quem é?". O empregado do "Chá da Lapa" reconhece a silhueta do cliente de fim-de-semana, o mesmo que passeia pela Fnac do Chiado e compra CDs de Michael Bolton, acompanhado pelos filhos. Aos 42 anos, tem já três. Não abdica de levá-los aos Salesianos todas as manhãs e de acompanhar a empreitada dos trabalhos de casa. Reflexos de um pai que saiu de casa aos 14 anos, vendeu café, biscoitos e até roupa – numas férias de Verão – na Benetton da Av. de Roma. Talvez por isso não troca a mochila pela pasta de executivo. Mas não precisa disso para o ar miúdo – será o mais jovem CEO das empresas de telecomunicações ‘incumbentes’ da Europa.

Da costa à contra-costa

Zeinal Abedin Mahomed Bava nasce em 1965 em Maputo (antigo Lourenço Marques), Moçambique. Chega a Lisboa com 10 anos, depois do 25 de Abril de 1974, passa pelo Liceu Camões, mas é no St. Julians – em Carcavelos – que começa a sentir "o peso" da tradição anglo-saxónica. Adolescente, parte para Londres, onde ingressa num colégio interno. Na capital britânica fascina-o a medicina. Desiste. Guarda o gosto pelo detalhe, a "obsessão pela perfeição" e o horror ao erro. Quem com ele trabalha há já vários anos pinta um homem que "sabe de cor os tarifários, os números das vendas e quer estar em cima das estratégias de marketing".

Do colégio interno londrino guarda, entre outras coisas, o sentido de exigência. Os colaboradores falam em "obstinação pelos resultados". Os críticos, na "insensibilidade" de um "líder numérico que tem dificuldade em lidar com as suas limitações – humanas" – e cuja "ambição pessoal assusta". Quem com ele trabalha "vende" um "chefe" de "porta aberta", quase sempre sem gravata, com uma "capacidade de argumentação fora do normal" e apaixonado pelo contraditório, "nem que seja para no fim sublinhar a sua razão". Visão simétrica tem Jorge Félix, presidente do Sindicato de Trabalhadores da Portugal Telecom (STPT): "Infelizmente, o engenheiro sempre fugiu ao contacto directo com o sindicato, embora fale directamente com os trabalhadores. Já solicitámos alguns encontros e nunca nos respondeu". Em tempo de mudança de líder, as comparações são inevitáveis. "É um homem inteligente, mas a sua formação é de cariz meramente economicista. Isso assusta-nos. A sua preocupação social é limitada, ao contrário de Henrique Granadeiro", diz Jorge Félix.

Um "wake-up call"

A alegada "insensibilidade" esbarra em exemplos contraditórios. É quase "secreto", mas Zeinal Bava colabora neste momento com um programa de combate à Sida em África, respondendo a um desafio da "Fundação Clinton". Isto depois de ter sido responsável pela criação do programa de bolsas de estudo para os filhos dos trabalhadores da PT mais carenciados. A título pessoal, "nunca se esquece de enviar uma SMS aos colaboradores no dia de anos", lembra um deles. Aliás, é viciado nas mensagens. Escreve e recebe centenas por dia. Muitas delas em inglês. Veja-se, por exemplo, a sua última entrevista, uma longa conversa com o Jornal de Negócios publicada em plena OPA. A manchete desse dia foi "A OPA foi um toque de despertar na PT". Na verdade, Zeinal não disse a frase assim. Disse "It was a wake-up call". É costume, aliás, dizer frases inteiras em inglês, sobretudo se está cansado. O próprio já explicou que raciocina em inglês e traduz para português.

Do 8 ao 80

Zeinal Bava licencia-se em Engenharia Electrotécnica na "University College of London" e com apenas 24 anos já uma das "estrelas" do banco britânico Warburg Dillon Read, onde fica até 1996. Um ano antes, lembra Miguel Horta e Costa, "entusiasma-se" com a privatização da PT e faz questão de associar o banco onde trabalha ao consórcio vencedor, juntamente com o ESSI, UBS e Merrill Lynch. Começa aqui a paixão. Segue-se a passagem pelo Deutsche Morgan Grenfell, banco contratado pela PT para vários trabalhos de aconselhamento. Assume, nessa altura, "papel decisivo" no maior investimento de uma empresa portuguesa no estrangeiro: a compra da Telesp Celular numa operação que a PT venceu num leilão bolsa do Rio de Janeiro.

Aos 33 anos regressa definitivamente a Portugal, depois de passar pela Merrill Lynch. Traz dois filhos pequenos, uma mulher portuguesa e a ambição – que alguns consideram "desmedida e egoísta" – de deixar a sua marca no gigante das telecomunicações. Daí que Miguel Horta e Costa, um dos responsáveis pelo seu regresso, diga hoje que "esta é a chegada natural ao topo da pirâmide" de um homem "com a idade certa, os conhecimentos e uma vocação natural para gerir e motivar equipas". Elogios semelhantes ouvem-se de um dos concorrentes. Luís Reis, administrador da Sonaecom e presidente da Apritel – associação dos operadores de telecomunicações – defende que "a PT precisa de ser gerida de forma mais profissional, mais eficiente e, por isso, mais aberta à concorrência e menos virada para práticas de concentração do monopólio. Se há gestor em Portugal capaz de fazer isso, é o Eng. Zeinal Bava. Por isso, encaramos a sua ascensão de forma muito positiva."

Bastidores Da OPA

Luís Reis e Zeinal Bava enfrentaram-se na OPA. Se Granadeiro foi o super-presidente (acumulou os dois cargos de presidente) responsável pela relação com os grandes accionistas e pela regeneração da imagem pública de uma PT majestática, Zeinal Bava foi o super-vice-presidente que fez o trabalho de formiguinha junto dos investidores internacionais e dos mercados financeiros. Primeiro, porque fala as línguas deles – a financeira e a inglesa – como Granadeiro não fala. Segundo, porque foi Zeinal quem definiu a estratégia que viria a vencer a Sonaecom.

Em Fevereiro de 2006, semanas depois do anúncio da OPA, a administração da PT decidiu inspirar-se no que a Marks & Spencer fizera dois anos antes também numa OPA hostil: recolher apoios crescentes entre os accionistas, criando minorias de bloqueio e obrigando o proponente a subir sucessivamente o preço ou até desistir, ou até a perder. Um depois, a OPA era vencida. Assim mesmo.

Vencida a OPA, Granadeiro e Zeinal apareceram calculadamente juntos, em sorrisos rasgados pensados para as fotografias que fariam manchetes nos dias seguintes.

Granadeiro sai agora do centro do palco, muda para um novo gabinete que é um terço daquele que deixa vago para Zeinal. Um e outro são em quase tudo diferentes e construíram uma relação de sorrisos amarelos. Granadeiro resumiu-o um dia: "Temos defeitos compatíveis."

A empresa vai ter uma gestão mais directa e com menos camadas hierárquicas. Zeinal gosta de trabalhar directamente com as direcções de primeira linha a quem diz sempre que não dá ordens; mostra caminhos e espera que seja deles a iniciativa de decidir. Faz reuniões com directores de segunda linha – não para falar de estratégia de tomadas de decisão. Sem "power points".

É assim que convida directores e estagiários para reuniões de comissão executiva. Em contrapartida, não tolera que não façam o trabalho de casa. E considera que a ligação “às bases” o dispensa de conversar com os sindicatos, com quem parece ter uma antipatia natural. Mais: detesta fazer “amena cavaqueira”. Isso custa-lhe o rótulo de ser frio.

“Eu sou o presidente da Tv Cabo!”

1998
2008

Onde está o financeiro que fascinou Murteira Nabo e Horta e Costa? A vender pacotes da Tv Cabo. A imagem pode parece absurda quando projectada no CEO mais novo das operadoras históricas europeias, o primeiro engenheiro a liderar o grupo PT. Mas para quem é capaz de “vender um saco de areia no deserto”, bater à porta de uma senhora de idade para defender um produto da Tv Cabo não é desafio impossível, ainda que a timidez atrapalhe.

Aconteceu lá para os lados dos Olivais numa das sessões de “venda porta a porta” organizada pelo próprio. Na companhia dos vendedores e dos directores, Bava saiu à rua para mostrar como todos podem e devem vender. A certa altura, a cliente discutia detalhes do produto e pedia garantias ao vendedor que se desdobrava em sucessivos “acredite no que lhe digo”. Apesar da insistência, a cliente mantinha-se intransigente: “Como é que me pode assegurar isso?” O líder hesitou. Tentou contornar. Mas ao fim de duas tentativas respondeu a medo: “Porque eu sou o presidente da Tv Cabo!” Retorquiu a senhora: “E quem é que me garante que não o vão substituir?” Não podia imaginar como, mas a cliente tinha mesmo razão.




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