Portugal e Espanha pedem ação rápida para reforçar competitividade industrial e energética

Empresas e decisores reunidos em Davos defendem execução acelerada para captar até um bilião de euros em valor acrescentado e criar cerca de um milhão de empregos até 2030, apesar de entraves nas redes, regulação e inovação
IETI
D.R.
Patrícia Vicente Rua 21 de Janeiro de 2026 às 10:16

Portugal e Espanha defendem uma ação rápida e coordenada para transformar a vantagem da energia renovável de baixo custo em competitividade industrial sustentável, alertando que atrasos regulatórios, insuficiência das redes elétricas e fraco investimento em inovação continuam a travar a reindustrialização. A posição foi assumida em Davos, à margem da reunião anual do Fórum Económico Mundial pela Iniciativa Ibérica para a Indústria e Transição Energética (IETI).

Esta uma plataforma intersetorial liderada pela McKinsey & Company que reúne grandes grupos industriais e energéticos com operações na Península Ibérica, como EDP, Galp, Iberdrola, Moeve, Naturgy e Repsol. A iniciativa visa posicionar Portugal e Espanha como motores da reindustrialização europeia, usando a transição energética como alavanca de crescimento económico e autonomia estratégica.

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Segundo a análise apresentada, a Península Ibérica beneficia de custos de energia renovável cerca de 20% inferiores aos de outras regiões europeias, além de recursos naturais abundantes e uma base industrial relevante. A McKinsey estima que, em conjunto, Portugal e Espanha possam gerar até um bilião de euros em valor acrescentado e cerca de um milhão de empregos até 2030, caso consigam escalar investimento, infraestruturas e talento.

O Índice da IETI, que acompanha 21 indicadores económicos, industriais e energéticos, identifica sinais positivos no último ano, nomeadamente a aceleração dos anúncios de investimento em setores estratégicos como centros de dados, mobilidade elétrica e combustíveis renováveis. O investimento pós-decisão final aumentou cerca de cinco vezes em Portugal e duas vezes em Espanha, enquanto a adição de capacidade renovável e de armazenamento de pequena escala manteve uma trajetória consistente.

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Apesar disso, persistem fragilidades estruturais. O investimento em investigação e desenvolvimento continua entre 1,5% e 1,7% do PIB, abaixo da média europeia, a produtividade do trabalho permanece estagnada e os prazos de licenciamento prolongados, bem como o subinvestimento nas redes elétricas, limitam a escalabilidade industrial. O peso da indústria na economia mantém-se praticamente inalterado, apesar de sinais de recuperação na produção automóvel e no emprego industrial.

Na vertente energética, Espanha surge no bom caminho e Portugal mais avançado do que o esperado, com uma elevada incorporação de renováveis no mix elétrico, preços da eletricidade mais baixos — em Espanha cerca de 27% abaixo da média da União Europeia — e forte crescimento da mobilidade elétrica, que já representa cerca de 40% das vendas de veículos em Portugal. Ainda assim, a iniciativa alerta para a necessidade de acelerar o investimento nas redes elétricas e de criar incentivos eficazes à adoção de moléculas renováveis.

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Em Davos, os participantes identificaram cinco prioridades para desbloquear o potencial competitivo da Península Ibérica: reforçar a ambição e a coordenação em setores estratégicos; simplificar e estabilizar a regulação orientada para resultados; acelerar a implementação de infraestruturas críticas, em particular redes elétricas; aumentar o investimento em inovação; e desbloquear a produtividade do talento.

“A vantagem competitiva da Europa já não virá de mais regulação, mas de uma execução mais rápida, com licenciamento mais simples e redes elétricas modernas e interligadas”, afirmou Miguel Stilwell, CEO da EDP. Já responsáveis da Galp defenderam que a transição energética oferece “uma oportunidade única para reindustrializar a Europa”, sublinhando a necessidade de enquadramentos claros e previsíveis para viabilizar investimento de longo prazo.

As conclusões foram debatidas numa sessão multilateral que contou com a participação de Enrico Letta, autor do Relatório Letta sobre o mercado único, e de Cristina Lobillo, diretora de Política Energética da Comissão Europeia, num contexto de crescente pressão para reforçar a competitividade industrial da União Europeia.

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