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Governo manda rever diques do Mondego para adaptá-los aos novos fenómenos climáticos

Ministra do Ambiente pediu à APA uma revisão técnica do projeto do Baixo Mondego para o ajustar às alterações climáticas e afirma que ainda há 7 mil clientes sem eletricidade. Presidente da APA diz que, sem a gestão das barragens, Coimbra “ficava completamente inundada”.

Cheias no Rio Mondego
Cheias no Rio Mondego Paulo Novais / Lusa - EPA
18 de Fevereiro de 2026 às 16:15

O Governo vai avançar com uma revisão técnica do sistema de defesa contra cheias do Baixo Mondego, assumindo que o modelo concebido no final dos anos 70 já não está plenamente ajustado à realidade climática atual.

A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, anunciou a publicação de um despacho a solicitar à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) que “revisite o projeto” dos diques e avalie a sua adaptação às condições de hoje. “Temos fenómenos climáticos muito diferentes dos anos 70. Temos que nos adaptar às alterações climáticas”, afirmou.

O despacho determina a revisão do projeto físico das infraestruturas, a avaliação do modelo de vigilância e prevenção de cheias e a análise do modelo de governança da bacia do Mondego. “Os tempos de hoje são muito diferentes do passado”, sublinhou a governante, garantindo que o Ministério está “já a trabalhar no pós-crise”.

Durante o pico do episódio extremo, o caudal do Mondego aproximou-se dos 2.000 metros cúbicos por segundo, valor para o qual o sistema foi dimensionado. A retirada preventiva de populações foi decidida quando o caudal ultrapassou os 1.800 metros cúbicos por segundo. “Foi uma decisão importantíssima”, afirmou a ministra. Após o rompimento de um dique, foi também ordenado o corte imediato da A1. “Se não tivéssemos tomado aquela decisão de imediato, poderia ter sido um desastre complicado.”

7 mil ainda sem eletricidade

No plano da energia, Maria da Graça Carvalho reconheceu que persistem consumidores ainda sem eletricidade. “Neste momento, cerca de 7 mil”, disse, recordando que “começámos com 1.110.000 casos”.

Apesar da redução para menos de 2% do total inicial, a ministra destacou o impacto humano da situação: “São poucos, mas cada um é um caso dramático de pessoas que estão há duas semanas e mais sem acesso à eletricidade.” Admitiu ainda que “percebemos a complexidade e a dificuldade que há em fazer esta reparação”, sublinhando que “a E-Redes tem cumprido aquilo que nos prometeu” e que os últimos casos são os mais difíceis, por envolverem infraestruturas mais isoladas ou de acesso complexo.

A ministra manifestou a expectativa de que a normalização total ocorra nos próximos dias, embora reconhecendo que os trabalhos finais são os mais exigentes do ponto de vista técnico e logístico.

“Provocámos cheias controladas para evitar uma cheia descontrolada”

Foi desta forma que o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, José Pimenta Machado, resumiu a estratégia adotada na gestão das albufeiras durante o episódio extremo.

"Passámos por uma situação ímpar", afirmou, referindo-se à sucessão de sete tempestades que atingiram o país. Segundo explicou, foram libertados preventivamente cerca de 750 hectómetros cúbicos de água — volume equivalente ao consumo anual de água dos portugueses — para criar capacidade de encaixe nas barragens antes da chegada dos picos de precipitação.

O responsável detalhou que, no caso do Mondego, a gestão das barragens da Aguieira e das Fronhas foi determinante para conter os caudais a jusante. “Se essa água chegasse toda a Coimbra, ficava completamente inundada”, afirmou, estimando que a soma dos contributos dos vários afluentes poderia ter ultrapassado os 3.000 metros cúbicos por segundo.

Pimenta Machado sublinhou ainda a articulação com Espanha na gestão do Tejo e o papel das grandes barragens na contenção dos picos, defendendo que a resposta assentou numa combinação de antecipação, coordenação institucional e gestão dinâmica das infraestruturas.

A revisão agora determinada pelo Governo abre um novo ciclo de avaliação técnica sobre a robustez das principais infraestruturas hidráulicas do país, num contexto em que a intensidade e a frequência dos fenómenos extremos colocam pressão acrescida sobre sistemas desenhados há mais de quatro décadas.

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