Acordo UE-Índia põe centenas de têxteis portuguesas em risco

Marcas como a Zara, Ikea ou C&A deverão aumentar significativamente o aprovisionamento na Índia, sendo que em Barcelos, por exemplo, onde o setor têxtil vale 70% das suas exportações, “a preocupação é muito grande”, pois “depende em muito das compras da Inditex”.
Bruno Simão
Rui Neves 10:55

Guerras aumentam incerteza no setor têxtil devido aos custos da energia e a Associação Comercial e Industrial de Barcelos (ACIB) alerta para “impacto muito negativo” do acordo entre a União Europeia e a Índia na indústria têxtil.

“A ACIB-Câmara de Comércio e Indústria lamenta que até à data se tenha ignorado o impacto negativo que se estima incidirá sobre o setor têxtil da região Cávado-Ave devido ao acordo UE-India e à agravante da nova guerra com o Irão e o seu impacto nos custos da energia e no consumo nos principais mercados de exportação”, insurge-se a associação, em comunicado.

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Em causa está uma região que exporta 2,7 mil milhões de euros, dos quais mais de 75% para o mercado da UE, pelo que a sua indústria têxtil está fortemente dependente do mercado comunitário. Resultado: Tudo o que acontece neste espaço económico influencia o seu futuro.

Para a ACIB, no acordo UE-Índia a indústria têxtil “foi sem dúvida sacrificada como moeda de troca por outros setores que mais interessam, como o ramo do setor automóvel que é do interesse de vários países detentores de marcas”, aponta.

A queda das taxas alfandegárias e a simplificação administrativa “potenciará a entrada de produtos têxteis e do vestuário provenientes da Índia para o mercado da UE prejudicando fortemente a indústria portuguesa”, assinala.

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Atendendo que as barreiras no setor têxtil caem logo no início, o impacto far-se-á sentir de imediato. “As tarifas caem diretamente para 0% quando o acordo entrar em vigor”, lembra a ACIB.

"O acordo entre a União Europeia e a India já está a ser considerado em negócios internacionais. Marcas como a Zara, IKEA, OVS, JYSK, Aldi ou C&A, deverão aumentar significativamente o aprovisionamento na Índia após a celebração do acordo”, afirmou Vijay Aggarwal, presidente do Cotton Textile Export Promotion Council (TEXPROCIL), citado pela Apparel Resources.

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Ora, este crescimento das exportações provenientes da Índia, “numa estimativa de 25% ao ano, vai impactar diretamente na indústria da nossa região, muito especialmente no setor vestuário de malha”, sublinha a associação barcelense.

Com o concelho de Barcelos a depender em 70% das suas exportações do setor têxtil e em concreto do vestuário de malha, e considerando que depende em muito das compras da Inditex (Zara), a preocupação é muito grande, acontecendo o mesmo noutros concelhos da região”, sublinha.

A Inditex tem, ainda, um forte impacto na taxa de ocupação da capacidade industrial da região no setor têxtil.

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A ACIB diz que tem “insistido de forma recorrente junto dos diferentes níveis de autoridades sobre a necessidade de um plano de ação concreto para a região e para o setor têxtil/vestuário em concreto”, porquanto “a perda de grandes encomendas em volume continuará agravando-se prejudicando centenas de pequenas fábricas subcontratadas ao longo de toda a região”.

Frisa ainda que “o aumento da concorrência com os produtos baratos da India terá impacto negativo nas margens das empresas produtoras em Portugal e consequentemente na sua capacidade de investimento, inovação e modernização e vai levar a mais deslocalização da produção para Marrocos através do efeito dos custos do trabalho e energia”, alerta.

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De resto, lembra que o setor vive neste momento “uma significativa redução das encomendas”, e que, em simultâneo, “tem enfrentado nos últimos anos ciclos constantes de subidas e descidas acentuadas, criando no setor um total desconforto e preocupação, desmotivando muitos dos intervenientes”.

Conforme referido em vários documentes técnicos da EU, “serão as empresas de menor dimensão (micro e pequenas empresas) as mais afetadas pelo acordo UE-Índia”, por isso, defende, “não se deve ignorar os números deste setor em Portugal onde 81,7% das empresas são micro e 14,1% são pequenas empresas, números que devem levar à reflexão, e a um plano estruturado de apoio e dinamização do setor incluindo ações ao nível local”, conforme a ACIB tem vindo a propor.

De resto, o agravamento dos custos de energia decorrentes da guerra no Irão “vai agravar os problemas do setor”, dado que a fatura energética tem um peso significativo nos custos totais.

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“O aumento dos custos da energia tem impacto direto através da redução das margens das empresas, na perda de competitividade face à Ásia, Índia, Turquia, na redução da produção e no aumento dos preços na produção de vestuário que poderão rondar mais 10%”, observa a ACIB.

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