Fábrica de móveis de Rebordosa "sentou" Obama no Porto

Duas cadeiras e uma mesa da Wewood partilharam o palco com o ex-presidente dos EUA no evento sobre alterações climáticas. Conheça a empresa familiar de Paredes que mobilou a Web Summit e fugiu à crise com design e fabrico manual.
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António Larguesa 12 de julho de 2018 às 14:30

A presença de Barack Obama em Portugal para participar numa cimeira sobre liderança nas alterações climáticas foi curta, plena de medidas de segurança e envolta em grande secretismo. Sem autorização para fotografar ou filmar a intervenção do ex-presidente dos Estados Unidos, para a posteridade ficou uma única fotografia oficial cedida pela organização, que mostra o cumprimento a Adrian Bridge, director-geral da empresa que promoveu o evento, e… três peças de mobiliário.

As duas cadeiras e a mesa que estiveram na sexta-feira, 6 de Julho, em cima do palco do Coliseu do Porto, onde Obama pediu às empresas para mostrarem custos das alterações climáticas, são da marca Wewood e foram desenhadas e fabricadas por uma empresa de Paredes, concelho vizinho de Paços de Ferreira e competidor na indústria do mobiliário. Os três artigos foram emprestados ao grupo Fladgate – detém as marcas de vinho do Porto Taylor’s, Croft e Fonseca – e já estão de volta à fábrica da Móveis Carlos Alfredo (MCA).

"A organização da cimeira contactou-nos para saber se teríamos algumas peças de mobiliário que pudéssemos ceder para servir de apoio às intervenções, tanto no palco, como nos bastidores. A cadeira Tree foi escolhida pela sua ligação à natureza, sendo o tema da conferência as mudanças climáticas", detalhou ao Negócios o CEO da Wewood. Salvador Gonzaga sublinhou que "já não é a primeira vez que acede a estes pedidos", exemplificando que ainda no ano passado forneceu as cadeiras, um sofá e uma mesa de apoio para o palco principal da Web Summit, em Lisboa.

Sem prever qualquer "tratamento especial", estas peças já voltaram ao stock e serão vendidas assim que surgir uma encomenda. Sem IVA, esta cadeira, em nogueira, custa 2.575 euros; a mesa Hexa, feita com a mesma madeira mais cara, 995 euros. O gestor deste grupo exportador, que tem uma fábrica de produção em Rebordosa e outra de acabamentos e expedição em Gandra, frisou que "todas as peças são fabricadas em nogueira ou carvalho proveniente de florestas sustentáveis dos EUA ou de França". Isto é, cumprem uma série de princípios e critérios relacionados com os direitos dos trabalhadores e condições de trabalho, planeamento florestal ou impactos ambientais.

Fugir à crise com design e fabrico à mão

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A marca Wewood começou a ser idealizada em 2007 e "avançou a sério" no ano seguinte, quando chegavam os primeiros sinais da crise económica e financeira e as vendas da Móveis Carlos Alfredo começaram a cair. Juntando parcerias com designers nacionais e internacionais ao "saber-fazer" de várias décadas de trabalho em madeira maciça – grande parte destes móveis é ainda feita manualmente com técnicas avançadas de marcenaria –, Salvador Gonzaga direccionou este projecto para o mercado internacional, "numa altura em que não havia muitas marcas portuguesas deste género". O registo foi feito em 2010 e a apresentação ao público em Janeiro de 2012, em Paris, na feira Maison & Objet.

Especializada em mobiliário em madeira maciça, a Wewood passou a ser a marca sempre associada aos projectos e que traz o negócio para a Móveis Carlos Alfredo. Do portefólio fazem parte o 1908 Lisboa Hotel, que este ano venceu três prémios internacionais; ou o empreendimento da Cálem que envolve o museu, a loja, a sala de provas, a casa de fados e as caves, em Vila Nova de Gaia. O projecto mais recente, que afirma estar "a ultimar neste momento", é o Craveiral Farmhouse, localizado a poucos quilómetros da Zambujeira do Mar, na costa alentejana.

Decidi avançar a sério [com a nova marca] em 2008, em contraciclo com a crise económica e financeira, quando as vendas da Móveis Carlos Alfredo começaram a cair. Salvador Gonzaga, CEO da Wewood

Fundado em 1964 pelos irmãos Carlos Alfredo e Elias, o negócio continua nas mãos da mesma família – só o primeiro e os filhos façam parte da actual estrutura accionista – e tem uma capacidade de produção de 1.500 peças de mobiliário por mês. Embora seja também o sócio-gerente da MCA, neste momento são duas empresas distintas e a estrutura e o formato de gestão também é "completamente diferente".

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Em 2017, o volume de negócios da MCA ascendeu a 8,5 milhões de euros e o da Wewood, que tem facturação própria e conta com 12 funcionários exclusivos num total de 98 que trabalham nas duas organizações, foi de 1,5 milhões de euros. Para ambas as estruturas comerciais, mais de 90% da actividade é desenvolvida com clientes nos mercados externos, com destaque para França, Inglaterra, Estados Unidos e China. A partir de agora, nas reuniões de trabalho podem também mostrar-lhes este vídeo corporativo, com dois dos seus artigos em destaque no evento em que o Porto meteu o nome na agenda empresarial das alterações climáticas.

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