Concorrente quer comprar Sicasal com o gestor judicial a cobrar 25 mil euros por plano de recuperação
A Portral está interessada em adquirir a Sicasal, com os credores desta empresa a aprovarem a entrega da elaboração do plano de insolvência ao administrador judicial – por um preço que obteve a abstenção do Estado –, que aufere sete mil euros por mês pela gestão do processo.
O interesse demonstrado pela empresa de Paulo Jorge Rasteiro da Conceição e Susana Cristina da Silva Leite da Conceição levou os credores da Sicasal a mandatarem o administrador de insolvência, Jorge Calvete, para apresentar, no prazo de 60 dias, um plano de recuperação da indústria mafrense de carnes.
Na assembleia de credores da Sicasal, realizada esta quarta-feira, 4 de março, ficou decidido que o gestor judicial deverá propor a recuperação ou a liquidação da Sicasal, sendo que, neste último caso, a liquidação poderá configurar a transmissão do estabelecimento a um novo investidor.
"Depende da vontade do eventual investidor", explicou o administrador da insolvência à Lusa, referindo que a Portral atua na mesma área de negócio e é um dos maiores clientes da Sicasal.
Para elaborar o plano, Jorge Calvete pediu honorários de 25 mil euros, a que acresce uma remuneração mensal de sete mil euros para gerir a Sicasal até à conclusão do processo da insolvência.
A proposta dos honorários para a elaboração do plano foi aprovada, tendo contado com o voto favorável do seu maior credor (o BCP, que tem a haver 11,6 milhões de euros) e a abstenção da Segurança Social (512 mil euros), Caixa Geral de Depósitos (4,3 milhões), Novobanco (3,3 milhões) e Abanca (2,7 milhões).
Já a proposta da remuneração mensal foi aprovada com a abstenção da Segurança Social.
A mesma agência noticiosa relata que, no início da assembleia de credores, o juiz Domingos Mira anunciou o envio ao DIAP de Sintra de uma certidão para abertura de um inquérito criminal ao paradeiro de “veículos da empresa não localizados” pelo administrador da insolvência.
A Sicasal, que retomou a produção depois de uma pausa de quatro meses, iniciou entretanto o despedimento coletivo de 20 dos cerca de 250 funcionários da empresa.
O diretor-geral, Jorge Pena, disse à Lusa que os funcionários abrangidos são sobretudo motoristas, vendedores e quadros da área ambiental.
A retoma da produção na Sicasal, ocorrida em fevereiro, tornou-se possível com o adiantamento de dois milhões de euros efetuado por um cliente que encomendou produto para exportação para Angola, noticia a Lusa, adiantando que esta verba permitiu pagar os salários de janeiro e fevereiro à totalidade dos trabalhadores, embora a produção tenha sido retomada com apenas cerca de metade do quadro de pessoal.
Por liquidar, estão ainda os salários de novembro, de dezembro e o subsídio de Natal.
Ganhou três Voltas a Portugal e acumulou prejuízos de 24 milhões
A Sicasal ganhou notoriedade ao conquistar três Voltas a Portugal em bicicleta (em 1987, 1989 e 1991), tendo entrado na segunda década deste século a faturar perto de 100 milhões de euros com 650 trabalhadores.
Entretanto, o efetivo e a faturação recuou para menos de metade, com a sua situação financeira agravar-se em tempos de pandemia, apresentando resultados negativos de forma sucessiva e crescentes.
Entre 2021 e 2024, acumulou prejuízos de 23,7 milhões de euros – 788 mil euros em 2021, 3 milhões em 2022, 8,8 milhões em 2023 e 11,1 milhões de euros em 2024.
Fundada em 1968 por Álvaro Santos Silva e o seu sogro, a Sicasal esteve para morreu a 15 de novembro de 2011, quando a sua fábrica sofreu um grande incêndio que reduziu a escombros boa parte da cadeia de produção.
Com o edifício ainda a arder, Álvaro Santos Silva reunia todos os 650 trabalhadores numa encosta em frente à fábrica para garantir o emprego de toda a sua gente.
Poucas semanas depois, a Sicasal retomava o ritmo normal, enviando semanalmente para o mercado 500 toneladas de carne processada e 1.000 de carne fresca, tendo fechado 2011 com uma faturação próxima dos 100 milhões de euros.
Os trabalhadores prepararam uma festa-surpresa para homenagear o patrão, com os funcionários a envergarem uma “t-shirt” onde se podia ler “Garantimos a nossa força”, enquanto a do patrão ostentava apenas a palavra “Renascer”, nome do plano de recuperação.
(Notícia atualizada às 18:12)
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