"O verdadeiro empreendedor tem de trabalhar mais para conseguir sobreviver"
Ainda que nos momentos de crise possam surgir novas oportunidades, no actual contexto os empreendedores devem esperar maiores dificuldades em lançar um negócio, diz Nelson Gray. Vencedor do prémio "Business Angel" de 2008, este escocês garante que os novos empreendedores têm, actualmente, maior flexibilidade para se adaptarem e focarem no que é mais importante.
Ainda que nos momentos de crise possam surgir novas oportunidades, no actual contexto os empreendedores devem esperar maiores dificuldades em lançar um negócio, diz Nelson Gray.
Vencedor do prémio "Business Angel" de 2008, este escocês garante que os novos empreendedores têm, actualmente, maior flexibilidade para se adaptarem e focarem no que é mais importante.
Esperar financiamento em negócios mais arriscados nesta altura é que talvez não seja uma boa ideia: "Os investidores não estão dispostos a suportar prejuízos durante muito tempo." O que está a dar são os negócios que consigam atingir mais rapidamente o equilíbrio entre receitas e custos.
Estamos a viver uma recessão. Numa altura em que toda a gente fala de crise, os empreendedores detectam oportunidades de negócios?
É verdade que quando existe uma crise, existem também oportunidades para aqueles que conseguem fazer melhor, adaptando-se e disponibilizando novos serviços e produtos. Enquanto algumas áreas da economia vão enfrentar grandes problemas, outras vão melhorar. Os consumidores vão mudar os seus hábitos, talvez substituindo os produtos mais caros por outros mais baratos. As pessoas devem comer menos em restaurantes caros, optando por cafés mais baratos, por exemplo. E os negócios vão tentar encontrar formas alternativas para ir ao encontro das necessidades dos consumidores. Vão surgir novas oportunidades, mas os empreendedores devem assegurar-se de que o seu negócio está adaptado ao contexto de crise e devem questionar-se: tenho as pessoas certas? Estas pessoas têm as capacidades necessárias? As operações básicas do negócio são as mais indicadas, sobretudo em relação à gestão financeira?
Esta é a altura certa para os empreendedores lançarem as suas ideias?
Não penso que exista uma altura certa para os empreendedores arrancarem com um negócio. No entanto, existe o momento certo e esse momento é quando o empreendedor sente a confiança necessária em si próprio. Claramente, existem dificuldades em começar agora um negócio, sobretudo em relação ao financiamento bancário e quanto à disponibilidade financeira dos clientes para pagar pelos novos bens e serviços. Mas as empresas novas e as pequenas empresas podem, talvez, reagir com maior rapidez às necessidades que estão a surgir. Há agora mais oportunidades de recrutar pessoas com maior qualidade e mais experientes para uma "start up" do que até aqui.
O dinheiro é de facto um problema? Como é que os empreendedores podem lidar com isso, sabendo-se que a crise tem origem no sistema financeiro?
O dinheiro é sempre um problema para os novos empreendedores, sejam quais forem as condições económicas. E o dinheiro vai continuar a ser um problema durante esta crise, mas a vantagem que os novos empreendedores têm sobre as empresas já estabelecidas é que podem ser mais flexíveis e podem adaptar--se mais rapidamente à actual situação. Enquanto as empresas já firmadas estão concentradas em reorganizarem-se, contornando a redução do crédito bancário e os atrasos nos pagamentos por parte dos clientes, os novos empreendedores estão à procura de novos clientes, porque não têm os mesmos problemas.
Qual é a melhor forma de encontrarem o dinheiro de que precisam?
A melhor forma de obter dinheiro é encontrar alguma coisa pela qual os clientes estejam dispostos a pagar. O problema de muitas empresas é que, neste momento, os clientes já não querem comprar os seus produtos. Por isso, os negócios que vão sobreviver são aqueles que conseguem ir ao encontro das necessidades dos clientes neste novo contexto. Esquecemo-nos, por vezes, que vender é a melhor forma de obter dinheiro.
Os empreendedores devem esperar maiores dificuldades para convencer os "business angels" a financiarem as suas ideias?
A posição dos "business angels" nos diferentes países é, de certa forma, confusa. Muitos, já estabelecidos e experientes, não conseguem investir em novos negócios porque têm de concentrar todo o seu dinheiro, e sobretudo o seu tempo, nos investimentos que fizeram, uma vez que nos tempos mais difíceis há menos alternativas e é necessário um maior esforço de gestão. Já os "business angels" que não têm muitos investimentos podem estar ansiosos por investir em mais empresas porque há menos oportunidades de investimento noutras frentes, como, por exemplo, no mercado imobiliário ou nos mercados de acções. Muitos estão, no entanto, à procura de oportunidades de negócio que não estão muito longe da receita de obter dinheiro a partir de vendas aos clientes. Há com certeza menos apetite para financiar projectos científicos de longo prazo.
Significa que há menos dinheiro no mercado para apoiar novas ideias?
Actualmente, diria que existe a mesma quantidade de dinheiro disponível. Contudo, parece que existem mais empresas à procura de investimento. Muitas destas empresas, no entanto, não são inovadoras, mas empresas que estão apenas a procurar investimentos por parte dos "business angels" porque os bancos já não lhes emprestam dinheiro. Não existem oportunidades de investimento genuínas, mas apenas casos de resgate, de empresas desesperadas por qualquer dinheiro. O verdadeiro empreendedor, com uma boa ideia, tem agora de trabalhar mais para assegurar que consegue sobreviver a esta multidão de empresas.
Quais são os sectores com maiores probabilidades de obter apoio, aqueles sectores em que estaria disposto a investir ou em que já esteja a investir?
São os negócios que demonstram estar mais próximo de atingir o "breakeven". Penso que não interessa o sector em que operam. O importante é que se consiga identificar os clientes e demonstrar que estes estão dispostos a comprar os produtos a um determinado preço. Os investidores não estão dispostos a suportar prejuízos durante muito tempo.
Quais são os principais erros que os empreendedores deveriam evitar?
Penso que o maior erro que está a ser cometido pelos empreendedores, actualmente, é o facto de não compreenderem o contexto mundial em que vivem. Os planos de negócios precisam de ser ajustados para que não se continue a falar em devorar quota de mercado, mas assegurar um negócio rentável. O importante já não é ter o maior negócio, é ter o negócio que consegue gerar mais dinheiro e, depois, estar numa posição que permita tirar total partido quando as circunstâncias melhorarem.