Macau: Dois anos de maré de azar longe de significar fim da "sorte grande"
Embora seja a mais longa maré de azar, a ‘crise’ do jogo de Macau afigura-se relativa: as receitas dos casinos, mesmo em queda há dois anos, ainda valem quatro vezes mais do que as de Las Vegas.
Os casinos de Macau fecharam 2015 com receitas brutas de 230.840 milhões de patacas (25.742 milhões de euros ao câmbio atual), menos 34,3%, naquele que foi o segundo ano consecutivo de quebra, depois de uma diminuição de 2,6% em 2014.
Essa prolongada curva descendente, iniciada em junho de 2014, resulta de um ‘cocktail’ de fatores que analistas imputam aos efeitos da campanha anticorrupção lançada por Pequim, ao golpe de confiança infligido por uma série de desfalques nas salas de jogo VIP (de grandes apostadores), às crescentes restrições de movimentos de capital da China e ao abrandamento da segunda economia mundial.
Apesar da ‘crise’, as receitas dos pouco mais de 30 casinos continuam a valer o quádruplo relativamente às apuradas em Las Vegas - embora tenham chegado a equivaler a sete vezes mais – pelo que Macau continua a manter o título de capital mundial do jogo.
E, embora abaixo da barreira psicológica dos 300.000 milhões de patacas (33.454 milhões de euros), as receitas dos casinos de 2015 aproximam-se dos valores apurados no cômputo de 2011 (267.867 milhões de patacas ou 29.872 milhões de euros ao câmbio atual).
O cenário encontra-se longe de ser negro. Assim se pinta talvez porque as expetativas eram desmedidas face ao brutal crescimento a que se assistira. Como afirmou recentemente Aaron Fischer, da consultora CSLA, o optimismo era tal que, em 2013, se esperava que as receitas dos casinos de Macau atingissem 80.000 milhões de dólares (640.133 milhões de patacas ou 71.381 milhões de euros) em 2018.
Hoje, com uma abordagem mais realista, o analista aponta para 38.000 milhões de dólares (304.063 milhões de patacas ou 33.904 milhões de euros) em 2020, ou seja, para valores idênticos aos apurados no fecho do ano de 2012.
As operadoras continuam a ter lucros, embora menores, e não recuaram no investimento previsto – vão abrir novos projetos até 2017, três dos quais este ano. E o cenário também continua a ser positivo para o Governo, que cobra 35% de impostos diretos sobre as receitas dos casinos.
O Execeutivo lançou, em 2008, o chamado plano de compensação pecuniária, para atenuar os efeitos da subida da inflação e da crise internacional, distribuindo ‘cheques’ pelos residentes no território.
Lançada a título provisório, essa medida foi renovada anualmente, viu os valores atualizados e vingou num contexto em que a média mensal das receitas dos casinos foi inferior a 10 mil milhões de patacas (1.114 milhões de euros), como em 2009.
Já em 2015, o Executivo decidiu traçar uma ‘linha vermelha’ para uma média mensal de 20 mil milhões de patacas (2.230 milhões de euros) abaixo da qual ativa o que denomina de "medidas de austeridade", cortes cirúrgicos na despesa pública que não afetam áreas como a Saúde ou Educação.
Embora o ciclo de recuo tenha precipitado, no ano passado, as receitas públicas para a primeira queda em pelo menos cinco anos, dado o peso do jogo no Orçamento – 76,9% nas receitas totais da Administração em 2015 –, anos consecutivos de fortes crescimentos permitiram ao Governo ‘forrar’ a almofada financeira, com base em contínuos superavits, e canalizá-las para reservas.