Lula avisa que funcionamento do G20 está ameaçado
O Presidente brasileiro alertou hoje que o funcionamento do G20, grupo de países desenvolvidos e emergentes, está ameaçado, após os ataques dos Estados Unidos à cimeira do bloco, que começou hoje em Joanesburgo, na África do Sul.
- 1
- ...
"O próprio funcionamento do G20 como espaço de coordenação alargado está ameaçado", afirmou este sábado Luiz Inácio Lula da Silva, na sessão plenária, após a inauguração da cimeira no Centro de Exposições Nasrec, em Joanesburgo, sem mencionar diretamente os Estados Unidos.
"É necessário preservar a capacidade deste fórum para abordar os principais problemas do nosso tempo. Se não conseguirmos encontrar uma solução dentro do G20, não o será possível fazer num mundo idealizado", enfatizou o Presidente brasileiro.
Estas palavras ressoaram fortemente num primeiro dia da cimeira marcada pela ausência dos Estados Unidos nos debates, depois de o seu Presidente, Donald Trump, ter decidido boicotar a reunião.
Trump afirmou, em 07 de novembro, que os africânderes - sul-africanos brancos descendentes dos primeiros colonos europeus - "estão a ser mortos e massacrados" e que as suas terras estão a ser "confiscadas ilegalmente" na África do Sul, o que Pretória nega veementemente.
"É uma verdadeira vergonha que a cimeira do G20 esteja a ser realizada na África do Sul", declarou Trump.
No entanto, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, confirmou na quinta-feira que recebeu uma notificação de última hora de Washington sobre uma mudança de posição em relação à participação do seu país, que se limitará agora à presença do encarregado de negócios da embaixada norte-americana em Pretória, Marc Dillard, na cerimónia de domingo, na qual a África do Sul passará a presidência rotativa do G20 aos Estados Unidos, que a assumirão em 01 de dezembro.
No seu discurso, Lula destacou ainda que "conflitos como o da Ucrânia pelo gás, para além das trágicas consequências humanas e materiais, geram impactos significativos na cadeia de abastecimento energético e alimentar".
O líder brasileiro afirmou ainda que "os problemas socioeconómicos históricos da América Latina e das Caraíbas persistem sem qualquer perspetiva de solução".
"Estes problemas", alertou Lula da Silva, "não serão resolvidos com ameaças [de utilização] de força".
"Sem satisfazer as necessidades dos países em desenvolvimento, não será possível restaurar o equilíbrio global nem garantir uma prosperidade sustentável a longo prazo. A desigualdade extrema representa um problema sistémico para todas as economias", avaliou o Presidente brasileiro.
Lula enfatizou que 90% da população mundial vive "em países com elevada desigualdade de rendimentos" e que, neste contexto, o G20 deveria "promover a adoção de mecanismos inovadores de troca de dívida por desenvolvimento e ações climáticas".
Por outro lado, acrescentou, que é tempo de "declarar a desigualdade uma emergência global e reformular as normas e instituições que perpetuam as assimetrias".
Além disso, o problema da dívida pública global é "eticamente inaceitável e economicamente insustentável. Quase metade da população mundial vive em países que gastam mais ao serviço da dívida do que em cuidados de saúde ou educação", enfatizou.
Espera-se que os líderes do G20 abordem temas como o crescimento económico inclusivo e sustentável, o comércio, o financiamento para o desenvolvimento e a dívida dos países pobres no primeiro dia da cimeira, que termina no domingo.
Fundado em 1999, o G20 é composto por 19 países --- Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Coreia do Sul, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos --- além de duas organizações regionais: a União Europeia (UE) e a União Africana (UA).
Mais lidas