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Educação, pedigree e a perpetuação das elites

Lauren Rivera, docente na Kellogg School of Management, desafia as velhas crenças da meritocracia e da igualdade de oportunidades que, desde sempre, constituíram uma das bandeiras mais acenada pela América. Tendo como ponto de partida os bastidores dos processos de recrutamento da denominada “Santíssima Trindade” dos bons empregos – consultoras prestigiadas, Wall Street e firmas de advogados exclusivistas – o livro recentemente publicado demonstra o relacionamento estreito existente entre estas e as universidades de elite, provando que o que mais interessa é a “classe social” e como a América mantém, perpetuamente, o poder e a liderança em mãos untadas de pedigree

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Estudar arduamente na escola, ter boas notas, estar envolvido numa actividade comunitária, procurar uma boa universidade, candidatar-se a empregos na área de estudos em que se especializou. Esta é, na teoria, a receita convencional, baseada no mérito, para se ter sucesso. Mas não em todo o lado, como sabemos, e muito menos nos Estados Unidos, a outrora denominada terra de todas as oportunidades, mas que tem vindo a somar pontos, todos os anos, nos recordes da desigualdade. E um excelente, apesar de preocupante, exemplo disso é a forma como as empresas de elite – as consultoras, a banca de investimento e as grandes firmas de advogados – recrutam os seus futuros empregados, gastando milhões em acções de charme para com os recém-licenciados, desde a eventos específicos ou a jantares, por exemplo, sendo contudo mais sedentos de candidatos que se "ajustem" e perpetuem a boa velha maneira de fazer as coisas do que propriamente de mentes brilhantes que possam ousar alterar o status-quo. E, mais importante que tudo, que estes candidatos sejam proveniente do que em Portugal se chama comummente de "boas famílias".

Como escreve Lauren A. Rivera, Professora de Gestão na Kellogg School of Management, num livro publicado recentemente, adequadamente intitulado Pedigree: How Elite Students Get Elite Jobs , o caminho mais directo para o sucesso é o seguinte: nascer, no mínimo, numa classe média alta; ser filho de pais endinheirados; saber que ambientes académicos devem frequentar desde os últimos tempos da educação secundária – conhecimento esse adquirido a partir dos seus progenitores "bem-educados" e de conselheiros académicos com pouco que fazer; envolver-se, precocemente, em desportos competitivos da preferência das elites, como o lacrosse, o ténis, a vela, o ski ou o golfe – basquetebol nem pensar – e, por fim, preparar-se bem o suficiente para entrar numa universidade de elite. Na altura de se procurar o "bom emprego", o candidato deve igualmente saber na ponta da língua não o que aprendeu nos bancos das prestigiadas e caríssimas universidades que frequentou, mas as boas regras de etiqueta dos ambientes de elite.

Lauren Rivera passou a última década a estudar as formas de recrutamentos dos colossos empresariais – os quais são denominados como a "Santíssima Trindade" e que englobam as mais reconhecidas consultoras, as instituições financeiras de Wall Street e as grandes firmas de advogados – e, ao longo de nove meses, esteve "infiltrada" no departamento responsável pelo recrutamento de uma firma de serviços profissionais de elite (EPS, na sigla em inglês, para ‘elite professional firm services’) onde participou no processo de planeamento, na execução dos eventos de recrutamento, interagindo com os candidatos, fazendo o balanço subsequente com os avaliadores depois de feitas as entrevistas, e tendo feito parte, inclusivamente, de um grupo de deliberação sobre os mesmos.

Criada no meio da classe trabalhadora de Los Angeles por uma mãe solteira imigrante, enquanto o pai estava preso, Rivera só foi capaz de entrar nestes ambientes "só para alguns" devido à sua própria experiência de ter frequentado – como poucos da sua "classe" – escolas igualmente elitistas. Mas afirma ter sido bem "investigada" quando se propôs fazer este estudo de caso pelos membros da firma em questão, que só depois de terem a certeza que era "uma de nós"[ou melhor, deles] aceitaram serem entrevistados para o estudo.

Apesar de os americanos serem ensinados a acreditar que a mobilidade de "ascensão" é possível a qualquer pessoa que esteja disposta a trabalhar arduamente, independentemente do seu status social, a verdade é que na esmagadora maioria das vezes quem tem acesso aos melhores empregos provém de um background significativamente influente. E o seu livro explica exactamente o que acontece nos bastidores das "melhores empresas para se ganhar dinheiro": não só em cada fase do processo de recrutamento, como no que respeita às formas utilizadas pelos empregadores para definir e avaliar o mérito, as quais favorecem significativamente os candidatos originários de ambientes economicamente privilegiados. A professora de gestão da Kellogg revela igualmente de que forma os decisores concebem as suas ideias sobre talento – o que é, o que melhor o assinala e quem o tem (ou não tem) – as quais são profundamente enraizadas tendo como base a classe social. A exibição "do que é considerado certo" por estes empregadores elitistas acarreta quantidades consideráveis de recursos económicos, sociais e culturais por parte dos candidatos. E dos seus ascedentes, é claro.


O peso do pedigree

De acordo com um artigo publicado na revista Economist, a "Santíssima Trindade para os trabalhadores de colarinho branco" é responsável pelo recrutamento de um terço dos licenciados das melhores universidades do mundo. Começam por oferecer salários anuais superiores a 100 mil dólares, em conjunto com a oportunidade de estes se multiplicarem facilmente. Complementarmente, são ainda responsáveis por oferecer o "salto" necessário para situações ainda melhores. A famosa firma de consultoria McKinsey afirma que mais de 440 dos seus alumni gerem, actualmente, negócios com receitas anuais de pelo menos mil milhões de dólares e as fileiras de topo dos governos e dos bancos centrais estão povoados por veteranos da Goldman Sachs.

Estes dados parecem ser suficientes para desafiar as mais optimistas crenças no que respeita ao ensino universitário ser caracterizado por igualdade de oportunidades e o mercado ser frequentado por quem mais mérito possui. Na verdade, o livro de Lauren Rivera expõe, de forma crua, os preconceitos de classe predominantes numa América que é comummente elogiada por escolher os melhores e os mais brilhantes mas, que no seu âmago, elege o status social como factor predominante, e determinante, para quem deseja chegar (e ali se manter) ao topo da escada económica.



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