BCE não ficará “paralisado” pela incerteza do Irão, garante Lagarde

A presidente da autoridade monetária afirmou que a Zona Euro tem à disposição um conjunto gradual de opções para responder a esta situação.
Christine Lagarde é a presidente do Banco Central Europeu.
Ronald Wittek / Lusa - EPA
Leonor Mateus Ferreira 09:10

O Banco Central Europeu (BCE) não se vai precipitar na resposta à guerra no Irão, mas também não vai ficar “paralisado” pela incerteza. A garantia foi dada esta quarta-feira pela presidente Christine Lagarde numa conferência em Frankfurt, menos de uma semana depois de ter decidido e de ter revisto as perspetivas - com mais inflação e menos crescimento económico - devido à situação no Médio Oriente.

“Temos uma estratégia concebida para um mundo de maior incerteza, com riscos e cenários no seu cerne. Temos um conjunto gradual de opções para responder a esta situação. E estamos numa posição mais favorável caso precisemos de agir”, afirmou Lagarde. “Não agiremos antes de termos informação suficiente sobre a magnitude e persistência do choque e a sua propagação. Mas não nos deixaremos paralisar pela hesitação: o nosso compromisso de alcançar uma inflação de 2% a médio prazo é incondicional.”

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Lagarde admite que, se o discurso no evento “The ECB and Its Watchers” organizado pelo Instituto para a Estabilidade Monetária e Financeira, tivesse sido feito há algumas semanas, teria sido muito diferente. Apesar da solidez com a economia da Zona Euro fechou o ano passado e a inflação se ter fixado em 1,9% em fevereiro, as projeções de março foram revistas.

Enfrentamos uma profunda incerteza quanto ao rumo da economia. Nenhum de nós consegue resolver a incerteza sobre como se desenrolará a guerra no Irão. Christine Lagarde, presidente do BCE

A estimativa para do que o esperado em dezembro. Depois da subida abrupta, os economistas de Frankfurt apontam para um regresso à meta de 2% em 2027 e uma ligeira subida para os 2,1% em 2028. A economia da Zona Euro deverá crescer menos do que o antecipado, ficando em 0,9% este ano. 

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Voltamos a encontrar-nos num mundo diferente, cujos contornos ainda não são claros. Enfrentamos uma profunda incerteza quanto ao rumo da economia. Nenhum de nós consegue resolver a incerteza sobre como se desenrolará a guerra no Irão. Mas o que posso fazer é apresentar como vamos lidar com este choque. A principal mensagem que quero transmitir é que a nossa resposta estará fundamentada na nossa estratégia de política monetária, que ”, sublinhou a francesa.

Explicou que a estratégia tem três princípios: avaliação da natureza, dimensão e persistência do choque, foco nos riscos e não apenas na situação atual, bem como o uso de um conjunto de opções graduais dependendo da intensidade e duração do choque e na forma como se propaga.

Se o choque se intensificar, a resposta das empresas e dos trabalhadores poderá ser mais rápida do que da última vez. Christine Lagarde, presidente do BCE

Face às comparações que têm vindo a ser feitas entre a guerra no Irão e na Ucrânia, Christine Lagarde lembra que os preços do petróleo atingiram um pico nos 130 dólares por barril em março de 2022, comparável aos níveis de hoje. No entanto, os preços do gás natural liquefeito (GNL) dispararam para níveis muito mais elevados do que agora: 340 euros por megawatt / hora em agosto de 2022 contra os atuais 60 euros. Além disso, defende, o contexto macroeconómico é também mais benigno e as políticas macroeconómicas menos acomodatícias.

Ainda assim, “ao mesmo tempo, há razões para vigilância”, admite Lagarde, apontando que a Agência Internacional de Energia descreveu esta disrupção como sendo .

“Um outro precipício está a aproximar-se: as reservas globais de petróleo estão a esgotar-se, e os últimos navios-tanque de GNL carregados no Golfo antes da guerra estão agora a chegar aos seus destinos, o que significa que o impacto total da perda de oferta está apenas a começar a sentir-se”, adverte. “E se o choque se intensificar, a resposta das empresas e dos trabalhadores poderá ser mais rápida do que da última vez. Temos uma memória mais recente da inflação elevada, o que pode afetar a rapidez com que os custos são repercutidos e as indemnizações são solicitadas”.

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Felizmente, podemos avaliar a situação com cuidado, pois estamos a entrar neste choque a partir de um bom ponto de partida. Christine Lagarde, presidente do BCE

Para responder à incerteza, Lagarde garante que quer ter agilidade, reafirmando a abordagem baseada em dados e decisões tomadas reunião a reunião, sem se comprometer previamente com uma trajetória de taxas específica. “Isto deve-se precisamente ao facto de não querermos estar de mãos atadas num ambiente onde as perspetivas podem mudar rapidamente”, explicou, apontando como segundo elemento o foco nos riscos.

É por isso que o “staff” do BCE publicou, na semana passada, dois cenários: um adverso e outro severo. No mais gravoso, , neste trimestre e no próximo, e que a inflação atinja um pico de 6,3% no arranque de 2027. As estimativas anuais do cenário severo apontam para uma inflação anual de 4,4% este ano e de 4,8% no próximo. E colocam o PIB da Zona Euro muito perto da estagnação, ao crescer apenas 0,4% em 2026 e 0,6% em 2027.

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“Felizmente, podemos avaliar a situação com cuidado, pois estamos a entrar neste choque a partir de um bom ponto de partida. A postura da política monetária é amplamente neutra, a inflação está dentro do objetivo há cerca de um ano e as expectativas de inflação a longo prazo estão bem ancoradas. No período que se avizinha, a informação que surgir dar-nos-á maior clareza sobre como o conflito provavelmente evoluirá e como a economia está a responder. Monitorizaremos os desenvolvimentos de perto e ajustaremos a política monetária conforme apropriado para atingir o nosso objetivo”, acrescentou.

(Notícia atualizada às 09:50)

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