Análise: Ano 2000 para «esquecer»
O comportamento dos mercados accionistas em todo o mundo em 2000 certamente não traz boas recordações ao investidores. Em Portugal não foi diferente e a BVLP registou o pior ano da década. Para 2001 espera-se melhores resultados.
O comportamento dos mercados accionistas em todo o mundo em 2000 certamente não traz boas recordações ao investidores, sobretudo aos que apostaram nas empresas da «Nova Economia». Em Portugal não foi diferente e a BVLP registou o pior ano da década. Para 2001 espera-se melhores resultados.
No ano o PSI20, índice de referência da Bolsa nacional, apresentou uma desvalorização de 13%, depois de 2000 ter começado com enormes expectativas para os investidores, com os títulos da «Nova Economia» a protagonizarem subidas atrás de subidas. No final de 1999 os analistas eram unânimes em apontar uma valorização entre 15 a 20% para o Bolsa nacional.
De facto, de Janeiro a Março deste ano, com o índice tecnológico dos Estados Unidos a atingir consecutivos máximos históricos, as acções nacionais da Nova Economia pareciam imparáveis, desconhecendo-se os limites que poderiam atingir.
Carrossel da «Nova Economia»
Nesses dias de perfeito «bull market» as estrelas da nossa Bolsa eram todas as tecnológicas, empresas de telecomunicações, «dotcoms» e tudo o que estivesse relacionado com a «Nova Economia».
Os analistas, na altura, «disparavam» preços alvos astronómicos para as empresas da «Nova Economia», contribuindo para a sua contínua valorização.
O exemplo mais notório foi o da PT Multimedia. Em 1999 foi vendida ao público a 27 euros por acção, e, pouco depois, encetou uma escalada que só terminou, em Março, nos 134 euros (máximo histórico de fecho), com as mais prestigiadas casas de corretagem nacionais e internacionais a avançarem com «preços alvo» de 160 euros.
No fim de 2000 e após diversos mínimos, a PT Multimedia regista o seu valor mais baixo de sempre, nos 25 euros: 18,6% do valor máximo que atingiu e 15,6% do valor a que os analistas avaliavam a empresa, há apenas 9 meses atrás.
Outro exemplo também bastante elucidativo da euforia que se vivia no primeiro trimestre do ano é a Reditus. No início de Fevereiro as acções da empresa liderada por Moreira Rato é interrompida, devido a uma operação harmónio, para «limpar» o passivo da empresa. Depois de quase um mês sem negociar na BVLP, as acções da Reditus voltam ao mercado e disparam mais de 250% numa única sessão, atingindo um máximo perto do 20 euros (cotação ajustada). Na última sessão do ano a Reditus valia 3,25 euros.
Para além destes dois exemplos bem elucidativos do que foi a ascensão e queda das muitas empresas da «Nova Economia», temos também outras empresas, como a ParaRede, que durante o ano chegou a subir cerca de 500%, para terminar 2000 com um saldo positivo de «apenas» 10%. Em 2000 a Telecel perdeu 33% e as «novatas» Sonae.com e Impresa, desceram respectivamente 22% e 38%.
«Os índices nacionais foram arrastados pela queda das empresas de novas tecnologias, uma vez que estas representam uma parte substancial dos índices PSI20 e PSI30», explicou Eduardo Caraça do Banco Finantia ao Canal de Negócios.
Mas este cenário «negro» da «Nova Economia» não se passou apenas em Portugal, com muitas empresas tecnológicas mundiais a afundarem as suas cotações em Bolsa e outras mesmo a «fecharem as portas».
O Nasdaq, que passou a ser o principal índice de referência mundial, registou em 2000 o pior ano da sua história, perdendo quase 40% face ao fecho de 1999 e mais de metade do seu valor contra os máximo de Março.
Exemplo do descalabro das tecnológicas em todo o mundo é a Microsoft, empresa de referência do sector, que fecha 2000 com uma desvalorização de 63%.
Para a queda das tecnológicas em 2000, muito contribui a «bolha especulativa» construída nos anos anteriores, os aumentos das taxas de juro efectuadas pela Reserva Federal (FED) e os inúmeros «profit warnings» lançados na recta final do ano, provocados pela desaceleração da economia dos Estados Unidos.
«Velha Economia» no melhor e no pior
Os títulos da «Velha Economia», que servem de refúgio para os investidores nas alturas de tempestade nos títulos tecnológicos, tiveram um comportamento distinto na Bolsa nacional.
Cimenteiras, construtoras e pasteiras foram uma boa opção para os investidores em 2000, enquanto as empresas de retalho lideraram as quedas.
Nos títulos que fecharam 2000 incluídos no novo PSI30, surge a Somague a liderar as subidas e a Jerónimo Martins a protagonizar a maior queda.
No ano a Somague subiu 75%, depois de ter invertido os seus resultados, que em 1999 eram negativos. No mesmo período a Jerónimo Martins deslizou 57%, devido «ao fraco desempenho e descontrolo registado no negócio da Polónia».
Com fortes perdas em 2000 surgem também a CIN (33%), a Sonae Indústria (42%) e a SAG (24%).
Muitos analistas consideram a Cimpor, outro título da economia tradicional, como a principal estrela da Bolsa nacional em 2000. Alvo do interesse dos maiores «players» mundiais do sector, a empresa liderada por Sousa Gomes apresentou uma valorização 61%.
Comparando a Nova com a Velha Economia, conclui-se que o sector tradicional foi o mais rentável em 2000. Dos 30 títulos que compõem o PSI30, 12 fecharam o ano positivos, sendo que dez deles pertencem à economia tradicional.
As excepções foram a ParaRede e a Novabase, que conseguiu terminar o seu primeiro ano de adesão ao mercado de capitais com uma valorização de 50%.
Depois da tempestade surge a bonança?
Os analistas, apesar de esperarem que 2001 seja melhor que o ano que está agora prestes a terminar, são cautelosos a avançarem com o potencial de valorização do mercado accionista.
Com a economia mundial, e em particular a dos Estados Unidos, a abrandar, é esperado em 2001 um abrandamento nos resultados das empresas, que muitas já confirmaram ir acontecer.
As opiniões dos analistas divergem se este efeito de abrandamento na economia e nos resultados das empresas, já está descontado no mercado, ou se piores dias virão em 2001. Ou seja, será que os mercados já «bateram no fundo», ou vão cair ainda mais em 2000?
Factor chave para descodificar esta questão será a actuação do FED e do Banco Central Europeu em 2001. Os mercados esperam que os bancos centrais procedam a cortes nas taxas de juro, aliviando os custos financeiros das empresas.
«2001 deverá ser positivo face aos actuais valores, ajudado pela recuperação do euro, queda do petróleo e cortes nos juros», disse um analista contactado pelo Canal de Negócios.
«O destaque (em 2001) vai para as acções mais castigas este ano, como as TMT e algumas tradicionais, como a Sonae SGPS, a Sonae Indústria, Corticeira Amorim e outras, que não justificam as actuais cotações face aos bons resultados apresentados», defende Pedro Duarte da LJ Carregosa.
Diversas corretoras e bancos de investimento contactados pelo Canal de Negócios, preferem para já não adiantar potenciais de valorização para a Bolsa nacional em 2001, justificando que estes cálculos serão apresentado no início do ano.
Resta assim esperar se, como diz o ditado: «depois da tempestade vem a bonança»?