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À espera da retoma

Depois da convicção de que 2008 seria mais um ano em que as matérias-primas seriam activos-vedeta, as casas de investimento mostram-se agora mais prudentes.

À espera da retoma
Carla Pedro cpedro@negocios.pt 02 de Janeiro de 2009 às 10:05
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Depois da convicção de que 2008 seria mais um ano em que as matérias-primas seriam activos-vedeta, as casas de investimento mostram-se agora mais prudentes. Os prognósticos fazem-se acompanhar por muitas incógnitas, com a evolução da conjuntura económica a ditar as maiores incertezas. Há unanimidade num ponto: se a retoma acontecer, as "commodities" vão ganhar terreno.





Petróleo
Recuperação no final do próximo ano?
A generalidade das grandes casas de investimento é consensual: o petróleo pode vir a cair, em 2009, para níveis bastante abaixo dos actuais. Num clima de recessão, que está a afectar fortemente a procura de combustível, nem os cortes de produção levados a cabo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) parecem ser capazes de fazer subir as cotações. Só com a prevista retoma da economia mundial é que o chamado "ouro negro" deverá começar a ganhar terreno, segundo as projecções dos analistas do sector. De acordo com as previsões do UBS, o segundo trimestre será o pior, tanto para o Brent do Mar do Norte, "crude" de referência para as importações portuguesas, como para o West Texas Intermediate, "benchmark" para os Estados Unidos.

No conjunto do ano, o preço médio deverá ser de 60 dólares por barril, à conta da retoma que se prevê a partir do segundo semestre. Mas se o clima macroeconómico se deteriorar ainda mais, os preços poderão cair para 30 dólares, reduzindo a média do ano para 50 dólares. Se, pelo contrário, o crescimento se der mais depressa do que o previsto e as reservas caírem, então a média de 2009 poderá ser de 80 dólares. Quanto à Goldman Sachs, prevê uma forte retoma das matérias-primas - petróleo incluído - em 2010. No curto prazo, o "crude" deverá fixar-se abaixo de 40 dólares por barril, essencialmente devido à queda da procura mundial. O WTI deverá atingir um preço médio de 30 dólares a três meses, 42 dólares a seis meses e 65 dólares a 12 meses. A JPMorgan também reviu em baixa a sua previsão para o preço médio do petróleo em 2009, de 69 para 43 dólares por barril, dada a desaceleração económica mundial.


Ouro
Volatilidade deve manter-se em 2009
O preço do ouro tem-se revelado excepcionalmente volátil e deverá permanecer assim, segundo o Goldman Sachs. Apesar de as subidas previstas para este metal precioso decorrerem também do facto de estar a recuperar o estatuto de valor-refúgio junto dos investidores neste momento de crise, a maior causa terá a ver com a desvalorização do dólar. De acordo com esta casa de investimento, a evolução do metal amarelo continuará bastante correlacionada com o mercado cambial. A queda da "nota verde" aumenta a atractividade do ouro e de outras matérias-primas denominadas em dólares. Assim, num contexto de previsão de maior debilidade da divisa norte-americana, o Goldman Sachs projecta um preço médio de 795 dólares por onça para o ouro num horizonte a 12 meses. A cotação média da prata em 2009 também foi revista em alta, de 9,20 para 10,30 dólares por onça.

Tradicionalmente, este metal precioso acompanha o movimento do ouro. Já o Barclays Capital, que prevê que o preço médio dos metais em geral ficará aquém de 2008, considera que o ouro e a prata serão as excepções e que verão o seu pico no segundo trimestre de 2009. Depois disso, começarão a descer e a previsão de longo prazo para os metais preciosos é de declínio face às cotações actuais, com excepção do paládio. O ouro, por exemplo, passará de um preço médio de 877 dólares por onça este ano para 650 dólares no longo prazo, refere o Barclays Capital. Em relação aos dois outros metais preciosos, paládio e platina, o Troika Dialog reviu em baixa as previsões de preços, considerando que vão estar aquém do ouro em desempenho devido à sua grande aplicação na indústria, que está a sofrer com a contracção económica.


Zinco
Bom potencial entre os metais industriais
Apesar dos recentes dissabores do zinco, este metal industrial é dos que apresenta melhor potencial em 2009. Segundo a Goldman Sachs, o zinco é o metal que apresenta fundamentais mais fortes. Com efeito, apesar de esta casa de investimento ter revisto em baixa as estimativas para os preços médios dos metais industriais, o zinco foi o que teve o menor corte num horizonte a 12 meses - de 1.750 para 1.235 dólares por tonelada.

Suki Cooper, responsável do departamento de "research" de matérias-primas do Barclays Capital, disse recentemente em entrevista ao Negócios que o zinco era um dos metais mais pressionados no último trimestre de 2008, estando a ser negociado "bastante abaixo dos custos de produção". No entanto, o zinco não está nas piores previsões desta casa de investimento feitas para a "performance" dos metais em 2009. Entre os seis metais industriais transaccionados no mercado londrino (LME), as maiores quedas de 2009 deverão ser as do níquel, cobre e estanho. O alumínio, chumbo e zinco registarão perdas menores, segundo as projecções do Barclays Capital. A justificar esta tendência para o próximo ano está o abrandamento da economia, que fará com que os produtores de metais criem mais reservas, "o que irá pressionar os preços". Só em 2010 é que se prevê um melhor ano para estas "commodities". O Troika Dialog reviu em baixa as suas estimativas para o preço do níquel e do cobre em 2009. As projecções do banco russo para o níquel passaram de um preço médio de 22.500 para 12.500 dólares por tonelada. Quanto ao cobre, considera que atingirá uma média de 3.750 dólares, contra a anterior previsão de 7.700 dólares.


Trigo
Agricultura continua a ser uma aposta
Em contraste com as restantes "commodities", as matérias-primas agrícolas deverão continuar a ter procura, prognostica a Goldman Sachs, que prevê uma retoma moderada para este grupo em 2009. Alguns produtos agrícolas, vistos como "defensivos", deverão continuar a ter um melhor desempenho do que o petróleo e os metais no curto prazo, sublinha a casa de investimento no seu mais recente estudo sobre o sector. É o caso do trigo, cereal cujo preço médio a Goldman estima em 7,70 dólares por alqueire em 2009, já que se espera que beneficie de uma procura relativamente estável. O açúcar é outra das matérias-primas agrícolas com prognósticos de solidez no próximo ano, segundo a Goldman. A Organização Internacional do Açúcar (ISO) revela-se mais cautelosa e prevê uma recuperação nos próximos 12 a 18 meses. No seu estudo sobre o sector, a Goldman cortou a recomendação para os investimentos em índices de "commodities", de "overweight" para "underweight".

A única excepção foi a dos produtos agrícolas, para os quais manteve a mesma recomendação. Segundo a Goldman, as matérias-primas são aquilo a que chamamos activos "spot", ao passo que as acções e mesmo as obrigações são activos "antecipatórios". Isto significa que as "commodities" não antecipam mudanças nos fundamentais, como acontece com o mercado accionista, por exemplo. Em vez disso, reflectem os fundamentais do momento. Assim, as matérias-primas serão uma das últimas classes de activos a recuperar, mas os problemas estruturais da oferta deverão levar a uma retoma mais rápida do que em ciclos anteriores, refere a casa de investimento.


Café
Fundamentais apontam para valorização
As cotações do café deverão retomar devido a uma colheita de menor dimensão no próximo ano no Brasil, segundo a Organização Internacional do Café (OIC). "Os fundamentais estão a dar-nos razões para crermos que os preços deverão subir", referiu este mês o director executivo da OIC, Nestor Osorio. A organização prevê que o consumo de café atinja 128 milhões de sacas (com 60 quilos cada) na campanha agrícola de 2008-2009, nível abaixo da produção de 132,5 milhões de sacas. No entanto, o mercado poderá entrar em défice na campanha seguinte, com a procura a saltar para cerca de 130 milhões de sacas e a produção a cair para 122 a 125 milhões, previu Osorio, citado pela Bloomberg.

A Goldman Sachs também não vê ameaça de queda para os preços do café - tanto do tipo robusta como arábica - nos próximos 12 meses, tendo mantido a sua previsão em 1,5 dólares por libra-peso. Se o dólar não valorizar, o panorama económico melhorar e a produção diminuir no Brasil, os preços do café poderão chegar a 1,15-1,20 dólares por libra-peso no primeiro trimestre e atingir 1,30 dólares em Junho, comentou à Bloomberg um responsável da Newedge USA, Rodrigo Costa. Quanto ao cacau, que em 2008 foi uma das "commodities" agrícolas com melhor desempenho, prevê-se que possa continuar a subir, devido ao défice da oferta face à procura, segundo o Fortis e o VM Group. Este ano, o cacau acumula um ganho de cerca de 30%, muito à conta do declínio da produção na Costa do Marfim, que é o maior produtor mundial desta matéria-prima. Das 19 "commodities" que fazem parte do índice CRB Reuters/Jefferies, o cacau foi a que registou a melhor "performance" em 2008.



Obrigações
O ano das empresas
A Goldman Sachs prevê uma forte subida das obrigações de empresas (as chamadas "corporate") no próximo ano. "Claro que a grande pergunta que todos querem ver respondida é quando se deve comprar, se é que se deve, obrigações de empresas", refere a Goldman no seu "outlook" para 2009. A casa de investimento diz que espera um forte subida nas acções e obrigações no próximo ano, mas não tem a certeza de quando ocorrerá. No entanto, está convicta de que o movimento de subida será liderado pelas obrigações de empresas, até porque prevê uma flexibilização dos mercados do crédito às empresas.

Tanto as obrigações "investment grade" (seguras para investir) como "high yield" (têm um elevado rendimento porque têm mais risco de incumprimento) parecem actualmente mais atractivas do que as acções, salienta a Goldman. Em contrapartida, as obrigações públicas (do Estado) não estão nos lugares cimeiros das preferências de investimento da Goldman. "As obrigações do governo deverão ter um desempenho inferior às outras classes de activos (...) também porque os investidores começarão a abandonar activos de risco menor, já que o rendimento é mais baixo", sublinha.

As obrigações "corporate" estão também na lista de preferências da UBS . "Mantemos a nossa recomendação de 'overweight' para as obrigações de empresas. A aposta neste activo decorre da desalavancagem, que reduzirá o "stock" de dívida, e do melhor rendimento esperado para este tipo de activos. A aposta nos títulos de empresas de menor risco poderá estender-se às obrigações de alto rendimento, à medida que o clima económico e financeiro for estabilizando".
Já a emissão de dívida pública deverá aumentar."O governo norte-americano vai emitir quase quatro vezes mais títulos do Tesouro no ano fiscal de 2009 do que no de 2008. O mesmo deverá acontecer nos países da OCDE e em algumas economias emergentes. Mas os rendimentos não deverão subir por essa razão, pelo menos por agora", adianta a UBS.

Para a Merrill Lynch, as obrigações do Tesouro, que estão entre as melhores classes de activos desta década, continuarão a ser uma aposta em 2009. Tanto as norte-americanas como globais. A casa de investimento crê que o facto de o dólar ter valorizado este ano terá estado entre as razões para os investidores que funcionam com nota verde não terem dado a merecida atenção às obrigações do Tesouro.



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