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Aposta errada sobre Covid transforma comércio global de petróleo para sempre

"Os bancos ficaram mais avessos ao risco neste ambiente", o que os levou a concentrarem-se nas grandes "tradings", disse Steven Beck, responsável por comércio e financiamento da cadeia de abastecimento do Banco Asiático de Desenvolvimento.

Bloomberg 02 de Janeiro de 2021 às 19:00
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Em janeiro, quando uma doença misteriosa atingiu a cidade chinesa de Wuhan, os preços globais do petróleo afundaram. A 3 mil quilómetros de distância, em Singapura, um dos homens mais poderosos do mundo no negócio das "commodities", Lim Oon Kuin, aumentou discretamente os seus amplos stocks de combustíveis com a convicção de que a China conseguiria controlar com sucesso a propagação da Covid.

Essa aposta azedou rapidamente. Embora a China tenha controlado o coronavírus em casa, a pandemia que se seguiu fez com que os preços do petróleo afundassem até 70%. Os bancos tentaram recuperar empréstimos da Hin Leong Trading, empresa de Lim, desencadeando um dos maiores escândalos vistos neste século no setor do petróleo.

O império de Lim entrou em colapso com dívidas de 3,5 mil milhões de dólares a 23 bancos, e o impacto do choque ainda se repercutirá em 2021, abalando grandes extensões da ampla, e muitas vezes opaca, indústria global de "trading" de petróleo, que movimenta 4 biliões de dólares.

Os perdedores serão provavelmente serão as centenas de pequenas empresas de "trading", muitas delas com poucos funcionários, que acharão caro, senão impossível, atender às crescentes exigências de informações por parte dos bancos, temerosos em conceder empréstimos. Quem ganha com a crise são as grandes "tradings" globais, como a Trafigura e a Vitol, que mantêm a confiança das empresas financeiras e têm maior capacidade para absorver os custos de uma supervisão crescente.

Um sinal dessas mudanças veio no início deste mês, quando os bancos no grande polo de comércio de petróleo de Singapura emitiram novas diretrizes para os financiamentos que poderiam restringir algumas das práticas que levaram ao colapso da Hin Leong, cujos credores, como o HSBC e o DBS de Singapura, ainda procuram recuperar fundos.

O ABN Amro, com sede nos Países Baixos, disse que deixará de financiar o comércio de "commodities", e outros bancos, como o francês BNP Paribas, disseram que estão a reduzir ou a rever as suas áreas de negócio. Mais de 20 "traders" veteranos e banqueiros do setor disseram, em entrevistas à Bloomberg News, que o financiamento para o setor está cada vez mais restrito e que a retração provavelmente continuará no próximo ano, já que os bancos aplicam padrões mais rígidos ou reduzem a respetiva exposição a "tradings" de menor dimensão.

"Os bancos ficaram mais avessos ao risco neste ambiente", o que os levou a concentrarem-se nas grandes "tradings", disse Steven Beck, responsável por comércio e financiamento da cadeia de abastecimento do Banco Asiático de Desenvolvimento. Ele disse que a crise da Hin Leong agravou o défice no financiamento do comércio.

Foi feito um pedido de comentário por e-mail à família Lim que não foi respondido. O DBS não quis comentar. "Continuamos comprometidos com o crescimento dos nossos negócios em Singapura", disse o HSBC por email.
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