AIE: “Atual crise é pior do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas”. Mundo viverá “um abril negro”

O diretor executivo da Agência Internacional de Energia adverte que a guerra no Médio Oriente obstrui uma das artérias da economia mundial – e não apenas o petróleo e gás, mas também os fertilizantes, produtos petroquímicos, hélio e muito mais.
Fatih Birol, diretor executivo da AIE
Olivier Matthys / Lusa - EPA
Carla Pedro 16:55

Os preços do petróleo e do gás acumulam fortes subidas desde o início da ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, a 28 de fevereiro, e o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, diz que o seu impacto económico é já superior a três crises energéticas juntas: as que decorreram dos dois choques petrolíferos dos anos 70 e a que resultou da invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.

A crise do petróleo e do gás desencadeada pelo bloqueio do estreito de Ormuz “é mais grave do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas”, afirmou Birol em entrevista ao jornal francês Le Fígaro. Esta guerra, sublinhou o líder da AIE, “obstrui uma das artérias da economia mundial – e não apenas o petróleo e gás, mas também os fertilizantes, produtos petroquímicos, hélio e outros produtos”.

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Segundo Birol, o mundo vai viver “um abril negro”. “O mês de março foi muito difícil, mas abril será bem pior”, avisou, acrescentando que quem está mais em risco são os países em desenvolvimento, que sofrerão com os aumentos dos preços do petróleo, gás e alimentos, bem como de uma aceleração geral da inflação, e frisando que também os países europeus, o Japão e a Austrália sentirão um forte impacto.

“Se o estreito de Ormuz se mantiver efetivamente fechado durante todo o mês de abril, perderemos duas vezes mais crude e produtos refinados do que em março”, advertiu, lembrando que já foram atacadas e danificadas 75 infraestruturas energéticas na região e que mais de um terço delas foram gravemente afetadas.

Birol salientou, assim, que o mundo está perante um grande choque triplo – petrolífero, gasífero e alimentar – e que a única verdadeira solução está na reabertura do estreito de Ormuz (por onde passava, antes do início do conflito, 20% do petróleo e gás consumidos a nível mundial). Depois disso, é ainda preciso tempo para que os países do Golfo Pérsico consigam reparar as infraestruturas danificadas e restabelecer a sua produção. 

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O diretor executivo da AIE não apresentou apenas uma perspetiva pessimista, já que considera que o conflito irá puxar por soluções estratégicas. No seu entender, esta crise deverá acelerar o desenvolvimento das energias renováveis e da energia nuclear e acelerar a utilização dos veículos elétricos

Na sessão de hoje, os preços do petróleo e do gás têm estado a subir, tendo reforçado esse movimento quando os EUA atacaram alvos na ilha iraniana de Kharg – com o Brent do Mar do Norte, negociado em Londres e referência para as importações europeias, a avançar 1,45% para 111,36 dólares por barril, ao passo que o West Texas Intermediate, “benchmark” para os Estados Unidos, seguia a somar 5,59% para 117,54 dólares. Já o preço do gás de referência para os mercados europeus, negociado no TTF – “hub” de Amesterdão –, somava 5,88% para 53,02 euros por megawatt-hora.

Recorde-se que 27 dos 32 países membros da AIE (incluindo Portugal) – há cinco que não participam por questões de ordem logística e física, entre outras – anunciaram a 11 de março a disponibilização, no mercado, de 400 milhões de barris de petróleo das suas reservas estratégicas de crude e no dia 19 desse mesmo mês a Agência anunciou que seriam libertados mais 26 milhões entretanto. Esses volumes têm estado já a entrar faseadamente na corrente da oferta.

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Enquanto isso, os mercados da energia continuam a acusar uma forte volatilidade, com esta terça-feira a centrar as atenções do mundo inteiro, já que termina o prazo dado por Donald Trump para o Irão reabrir o estreito de Ormuz e negociar um acordo de paz. O ultimato feito pelo Presidente norte-americano estipulou como limite as 20h de hoje, no horário de Nova Iorque (sendo que, em Lisboa, já será 1h da manhã de quarta-feira).

(notícia atualizada pela última vez às 18:49)

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