Petróleo é a nova arma do poder dos EUA sobre o mundo

A revolução do petróleo de xisto fez dos Estados Unidos o maior produtor global desta matéria-prima. Se a isso juntar as vastas reservas de ouro negro da Venezuela – são as maiores do mundo –, o país passa a ter um controlo considerável sobre esta riqueza tão disputada pelas grandes potências.
Os preços do petróleo desceram ao longo dos últimos três anos nos mercados internacionais.
Jacob Ford / AP
Carla Pedro 06 de Janeiro de 2026 às 07:00

Às primeiras horas de 3 de janeiro, Caracas acordava sobressaltada ao som de múltiplas explosões. Os Estados Unidos desencadearam, com extrema rapidez, uma ofensiva militar para a extração do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da sua mulher, Cilia Flores. Apesar de Maduro poder ter subestimado as ameaças do Presidente norte-americano – que o acusava de liderar uma rede de narcotráfico através de um cartel classificado como terrorista –, o certo é que Donald Trump já dava sinais de que isto poderia mesmo acontecer. E aconteceu.

Mas Trump também não escondeu um outro objetivo: o petróleo venezuelano. E não quer entraves, tendo advertido a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez (que era a vice de Maduro), para o facto de que “pagaria caro” se não colaborasse. Em resposta, apesar da sua firmeza e de ser fiel ao Chavismo, a nova chefe de Estado daquele país já convidou os EUA a trabalharem em conjunto numa “agenda de cooperação”. 

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Para o chefe da Casa Branca, esta é uma oportunidade para os Estados Unidos deitarem mão às maiores reservas petrolíferas do mundo. “Vamos fazer o petróleo fluir”, afirmou, muito ao estilo “drill, baby, drill” que revelou durante toda a campanha para as presidenciais de novembro de 2024. 

Apesar do embargo a que tem sujeitado Caracas, Washington permitiu que a norte-americana Chevron operasse na Venezuela, pelo que já “tem um pé” naquele setor do país. Mas não basta lá chegar para que os trabalhos comecem. É preciso muito investimento, já que as infraestruturas petrolíferas venezuelanas decaíram fortemente e estão num estado muito precário. Mas Trump conta com isso.

De facto, embora a Venezuela possua reservas significativas de petróleo, “qualquer recuperação na produção exigirá investimentos substanciais, dada a infraestrutura negligenciada resultante de anos de má gestão e subinvestimento”, salienta Giovanni Staunovo, analista de matérias-primas do UBS. “Ainda não está claro que empresas estariam dispostas a investir na Venezuela com os preços atuais do petróleo, especialmente num contexto de incertezas políticas, de segurança e jurídicas”, acrescenta o estratega do banco suíço numa análise a que o Negócios teve acesso. 

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Os preços do ouro negro não tiveram grande reação na sessão de arranque da semana, oscilando entre subidas e descidas pouco expressivas. No entanto, as cotadas do setor tiveram bons ganhos em bolsa – e o mesmo aconteceu com as ações da defesa, tanto europeias como norte-americanas. 

Mas que importância tem o petróleo venezuelano para Donald Trump, já que os EUA são atualmente os maiores produtores mundiais de crude? O facto de a Venezuela possuir aproximadamente 17% das reservas provadas de petróleo – o que as torna as maiores do mundo. Isto quando os EUA têm um baixo nível de reservas provadas face às grandes potências.

Segundo as estimativas do Departamento norte-americano da Energia, os EUA detêm entre 35.000 e 41.000 milhões de barris recuperáveis de crude. Já na Venezuela esse volume é de 300.000 milhões (seguindo-se a Arábia Saudita com 260.000 milhões).

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E é precisamente a vastidão de reservas venezuelanas que interessa a Trump. Se contabilizarmos o potencial “controlo” futuro do crude da Venezuela e da Guiana (grandemente gerido pelas norte-americanas ExxonMobil e Chevron), os Estados Unidos passarão a controlar 30% de todo o petróleo do mundo, o que lhes dará um enorme poder sobre o mercado petrolífero e energético global, considera o JPMorgan num “research” citado pelo El Economista. Há mesmo quem diga que esse volume se aproxima dos 40%.

Se controlarem o petróleo da Venezuela e da Guiana, os Estados Unidos passam a ter na mão 30% das reservas mundiais. "Research" do JP Morgan

Assim, o Presidente norte-americano vai bem lançado para atingir os seus intentos. “Trump criou um império petrolífero que se estende do Alasca à Patagónia”, aponta Javier Blas, colunista da Bloomberg especializado em matérias-primas e economia internacional, sublinhando que os Estados Unidos “podem explorar um vasto mar de crude” no seu próprio território e nas regiões vizinhas. 

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Ter o controlo efetivo da riqueza petrolífera do hemisfério ocidental é uma mudança geopolítica revolucionária. Durante décadas, o aventurismo militar dos EUA foi limitado pelo impacto de qualquer guerra nos custos da energia. Hoje, a Casa Branca tem primazia sobre aliados e adversários produtores de petróleo – seja a Arábia Saudita ou o Irão, a Nigéria ou a Rússia”, refere Blas na sua coluna.

A esfera do poder dos EUA não deverá parar por aqui, diz José Caleia Rodrigues, analista de geopolítica da energia, dando o exemplo da Gronelândia – que Trump tem vindo a cobiçar – e do Canadá. “O Canadá está muito próximo do Ártico e é muito importante por isso. O gelo vai desaparecer e vai ficar um lago muito importante de matérias-primas, como petróleo e gás”, afirma ao Negócios. E como é que essa “união” seria feita? “Trump pode convencê-los a juntarem-se numa qualquer reforma”, sublinha, dizendo que a forma como isso será feito “depende depois da resistência”.

Quanto à Venezuela, Caleia Rodrigues diz que os Estados Unidos não precisam verdadeiramente desse petróleo. “É só para dominar”. “Os EUA têm petróleo que chega e sobra, e só com o preço do barril nos mercados em torno dos 70 dólares é que vale a pena extraí-lo. Mas as reservas venezuelanas são enormes e Washington quer esse domínio”, aponta.

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No entanto, o petróleo da Venezuela – uma das principais regiões de produção é a do Orinoco – é de extração dispendiosa porque tem de se injetar vapor de água. E é um petróleo pesado, pelo que tem de ser sintetizado antes de ir para as refinarias, explica o especialista em geopolítica da energia.

No que diz respeito à extração, a água e a energia da barragem de Guri (na zona do Orinoco) são uma grande vantagem, refere Caleia Rodrigues – que foi gestor e consultor de empresas em Portugal, Angola e Venezuela, e conselheiro económico e comercial nas embaixadas de Portugal em Marrocos, África do Sul, Namíbia e Israel. E “precisamente porque ali se obtém o vapor de água para injetar nos lençóis do petróleo pesado”.

E faz diferença a Venezuela ser membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP)? No entender de Caleia Rodrigues, não. Isto porque “a OPEP já não tem poder militar nem político”. O cartel “tinha esse poder quando não havia muito petróleo extraído a nível mundial e se achava que o crude era apenas de origem vegetal – e, sendo as florestas finitas, a ideia era de que não havia muito petróleo”.

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“Quando se descobriu que o petróleo brotava do manto terrestre, tudo mudou a partir daí. A única vantagem da OPEP é ter um petróleo de extração barata. Na Arábia Saudita, por exemplo, custa entre 5 a 7 dólares”, refere ainda o especialista, acrescentando que “desde que os EUA passaram a ser autossuficientes, e até exportadores, na OPEP tiveram de procurar novos consumidores, com o fluxo do Médio Oriente a passar a ser mais para Leste”.

Agora, com os olhos postos no ouro negro da Venezuela – posicionamento que Trump considera legítimo, já que diz que os governos daquele país se apropriaram à força de uma indústria que, segundo ele, foi construída com capital e “know-how” dos EUA –, o petróleo passa por uma grande reviravolta em matéria de controlo global da matéria-prima.  

Mas, para que a obsoleta infraestrutura petrolífera venezuelana volte a entrar nos eixos, é preciso um elevado investimento. “Muitos anos de corrupção, subinvestimento, incêndios e roubos deixaram a infraestrutura petrolífera do país em frangalhos. Reconstruí-la o suficiente para elevar a produção da Venezuela de volta aos níveis máximos da década de 1970 exigiria que as empresas investissem cerca de 10 mil milhões de dólares por ano durante a próxima década”, comentou à Bloomberg Francisco Monaldi, diretor de política energética latino-americana no Baker Institute for Public Policy da Rice University. 

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Recorde-se que a produção venezuelana caiu de um pico de quase quatro milhões de barris por dia em 1974 para cerca de um milhão de barris diários atualmente. A forte queda da produção deu-se sobretudo nas duas últimas décadas, correspondendo hoje a menos de 1% da produção mundial.

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