Com Irão a pressionar, petróleo espera decisão crucial de grandes produtores
Os preços do crude estão com saldo anual positivo, mas o equilíbrio é frágil. Se os membros do cartel que retiveram voluntariamente parte da produção devolverem ao mercado o que ainda está por reentrar, serão precisas forças contrárias para que as cotações não derrapem.
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Os preços do “ouro negro” têm sofrido de uma grande volatilidade e passado por muitos sobressaltos nos últimos tempos. Depois de 2025 marcar o terceiro ano consecutivo com saldo negativo, o arranque de 2026 não parecia trazer melhorias, mas o inverno rigoroso que se tem feito sentir no hemisfério norte — com os fortes nevões nos EUA e as tempestades na Europa — tem ajudado a reverter o cenário de perdas e, atualmente, as cotações estão com sinal verde.
O Brent do mar do Norte, crude negociado em Londres e referência para as importações europeias, negoceia em torno de 71 dólares por barril, ao passo que o West Texas Intermediate (WTI), “benchmark” para os Estados Unidos, transaciona na casa dos 65,5 dólares — representando ganhos de 16,2% e de 13,9%, respetivamente, no acumulado desde o arranque do ano.
As fricções entre os Estados Unidos e o Irão, na ausência de um acordo quanto à atividade nuclear, têm também contribuído para sustentar as cotações. “As tensões no Médio Oriente e as preocupações com interrupções no abastecimento levaram os participantes do mercado a adicionar um prémio de risco modesto nos preços, embora até agora as exportações de crude da região não tenham sido interrompidas e as exportações de petróleo iraniano continuem elevadas”, sublinha, a este propósito, Giovanni Staunovo, analista de “commodities” do UBS.
Mas o cenário mais otimista para os preços poderá mudar. Isto porque no próximo domingo, 1 de março, há reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados (o chamado grupo OPEP+) e poderá ser decidida a entrada de mais crude no mercado.
Oito membros da OPEP+ que estavam a reter, desde 2023, uma parte suplementar da sua produção decidiram no ano passado começar a abrir faseadamente as suas torneiras. A entrada deste crude adicional decorreu entre abril e dezembro, mas há ainda petróleo a devolver ao mercado — especificamente, 1,24 milhões de barris diários — no âmbito desta retenção voluntária da Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Cazaquistão, Argélia e Omã.
Atendendo a que os preços da matéria-prima estavam a cair bastante, a OPEP+ anunciou em novembro passado que no primeiro trimestre de 2026 não ia colocar petróleo extra na oferta global — deixando para mais tarde essa entrada suplementar de barris. E é precisamente nesta reunião de 1 de março que os oito países responsáveis pelos cortes voluntários (o que lhes vale a designação de V8 — “Voluntary Eight”) vão decidir se recomeçam, a partir de abril, a aumentar a oferta.
Ainda assim, uma nova entrada de “ouro negro” poderá não ser negativa para os preços se for colmatada por outros fatores, no entender de Staunovo. Neste momento, “o mercado petrolífero está a sinalizar uma escassez, pelo que deverá ser capaz de absorver mais barris, caso o Grupo dos Oito da aliança OPEP+ decida reduzir ainda mais os seus cortes de produção na reunião de 1 de março”, aponta o analista do banco suíço num “research” a que o Negócios teve acesso. “Na nossa opinião, o aumento efetivo da produção [da OPEP+] será provavelmente uma fração do aumento da quota, uma vez que vários dos membros do grupo já produzem na capacidade máxima”, acrescenta.
Mas há mais fatores. Se a Rússia e a Ucrânia chegarem a um acordo de paz, por exemplo, o risco geopolítico diminui, podendo Moscovo observar algum alívio das sanções internacionais, levando a que entre mais crude russo no mercado.
Tendo tudo isto em conta, o UBS antecipa uma queda modesta nos preços do crude nas próximas semanas, caso não haja uma escalada das tensões no Médio Oriente com interrupções no abastecimento. “Um enfraquecimento gradual do prémio de risco e o abrandamento das interrupções no abastecimento, resultando num mercado com melhor abastecimento, devem levar o Brent de volta à faixa dos 60–70 dólares por barril”, diz Giovanni Staunovo. Assim, o banco prevê que o preço médio do Brent no fim dos três primeiros trimestres deste ano se situe nos 65 dólares, subindo depois para 67 dólares no último trimestre. Além disso, “alargamos moderadamente o desconto do WTI relativamente ao Brent, de três para quatro dólares por barril”, aponta ainda.