Yellen ainda vê possibilidade de um corte de juros da Fed este ano
A antiga presidente do banco central e ex-secretária do Tesouro criticou a pressão do Presidente Trump sobre a autoridade monetária e disse mesmo que a interferência faz os Estados Unidos parecerem uma "república das bananas".
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A ex-secretária do Tesouro e ex-presidente da Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos, Janet Yellen, ainda vê a possibilidade de um corte na taxa de juro de referência até ao final deste ano, embora o choque petrolífero provocado pela guerra no Irão obscureça as perspetivas.
"Este é realmente um amplo choque de oferta", que se estende desde os preços dos combustíveis até ao gás natural liquefeito (GNL), fertilizantes, alimentos, custos de frete e semicondutores, disse Yellen na Cimeira Global de Investimentos do HSBC em Hong Kong, de acordo com a Bloomberg.
Embora a necessidade de aumentar as taxas não possa ser descartada, as expectativas estáveis de inflação a longo prazo sugerem que este cenário permanece improvável por enquanto, indicou. "Suponho que o meu palpite seria que talvez haja um corte ainda este ano. Penso que isso é totalmente possível, o cenário principal. Mas muitas coisas são possíveis", acrescentou a antiga responsável pela pasta do Tesouro.
As atas da última reunião do banco central dos Estados Unidos, realizada a 17 e 18 de março, mostram que os seus membros se dividiram quanto ao impacto, na economia norte-americana, do conflito no Médio Oriente. A maioria dos responsáveis do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) receavam que a guerra pudesse afetar o mercado laboral, o que levaria a um cenário em que seria melhor cortar mais os juros. Mas, ao mesmo tempo, muitos outros responsáveis apontaram para um risco de inflação – o que, a concretizar-se, pede uma subida das taxas diretoras.
O encontro de março foi o segundo deste ano e o banco central liderado por Jerome Powell decidiu uma vez mais não mexer na taxa dos fundos federais, que se mantém num intervalo entre 3,5% e 3,75%. O próximo encontro está marcado para o final deste mês, sendo que está previsto que o novo presidente Kevin Warsh tome posse em meados em maio, presidindo assim à sua primeira reunião de política monetária a 16 e 17 de junho.
Sobre a mudança, Yellen reiterou as preocupações com a independência da Fed face à Administração do Presidente dos EUA, Donald Trump, alertando que os seus apelos por taxas de juro mais baixas ameaçam a credibilidade da nação. “Com que frequência um presidente de um país desenvolvido, onde a nossa moeda é a principal moeda de reserva, expressa a opinião de que as taxas de juro devem ser definidas para reduzir os custos do serviço da dívida federal? Quando se ouvem palavras como estas, é o que se ouve numa república das bananas”, criticou a economista.
Sobre o futuro presidente Kevin Warsh — com quem trabalhou na Fed durante seis anos — Yellen admitiu a possibilidade de entrar em conflito com Trump, dada a sua reputação de “falcão da inflação”. Acrescentou que a confiança de Warsh de que a inteligência artificial venha a desencadear um grande aumento da produtividade pode ajudar a explicar como conseguiu o cargo de presidente da Fed.