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Pandemia foi catalisador da transformação digital

“A saúde digital pode jogar um papel decisivo na transformação do sistema de saúde, recentrando-o no cidadão e nas suas necessidades”, defende José Mendes Ribeiro, economista e gestor hospitalar.

Filipe S. Fernandes 01 de Outubro de 2020 às 15:00
Luís Goes Pinheiro salienta o papel que a tecnologia teve no SNS24. DR
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A tecnologia digital, num mundo crescentemente conectado, pode contribuir para a humanização dos cuidados. "Parece um paradoxo, mas, na realidade, a intensificação da tecnologia digital no setor da saúde vai permitir maior proximidade às pessoas, diagnósticos mais fiáveis e planos de cuidados personalizados", diz José Mendes Ribeiro, economista e gestor hospitalar, autor de "Saúde Digital: Um Sistema de Saúde para o Século XXI".

Além disso "o investimento em tecnologia garante um enorme retorno na qualidade de vida e na duração dos ciclos de cuidados", afirma José Mendes Ribeiro. Nas suas contas, uma simples consulta médica de 20 minutos, gasta em média duas horas do tempo do utilizador, quando soma o tempo de transporte, a espera na clínica e os processos administrativos. "Estas duas horas custam mais à produtividade da economia e ao bem-estar do que a consulta em si mesmo. A tecnologia pode ajudar a reduzir este tempo para metade. Com mais de 31 milhões de consultas de cuidados primários, por ano, no SNS, não seria uma prioridade com um enorme benefício?", interroga-se José Mendes Ribeiro.

Refere ainda que o recurso sistemático à contratação por "ajuste direto" na administração pública "é outra evidência de que o sistema não flui, não é eficiente nem gera transparência. Uma vez mais, o investimento em tecnologias digitais pode ser útil para acelerar a inovação. A pandemia mostrou que a velocidade da economia é muito importante para ultrapassar uma crise desta natureza e dimensão".

Efeitos pandémicos

José Mendes Ribeiro destaca o papel da crise pandémica, "um dos maiores catalisadores da transformação digital em toda a sociedade, ao tornar possível que muitas atividades do nosso quotidiano pudessem continuar a ser desempenhadas evitando o contacto físico entre as pessoas".

Luís Goes Pinheiro, presidente da SPMS-Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, refere que "a tecnologia foi crucial na elevação da capacidade do SNS24, que passou de uma média diária com cerca de 4 mil chamadas atendidas, antes da pandemia, para uma média diária de 9.200 chamadas atendidas entre março e setembro 2020".

Durante este período foi usada a ferramenta Trace covid-19, que já tem mais de 1,25 milhões de utentes inseridos, mais de 2,250 milhões de vigilâncias realizadas, cerca de 10 mil profissionais em interação e mais de 70 mil autovigilâncias. A 17 de abril nasceu a ferramenta RSE Live, que veio facilitar o acesso aos cuidados de saúde à distância permitindo realizar teleconsultas em tempo real entre profissionais de saúde e utente e está disponível em 92 hospitais e 2.320 locais de cuidados de saúde primários.

As novas tecnologias ou algumas das tecnologias emergentes podem ser poderosos aliados no combate à pandemia. "Não me refiro apenas ao uso de telemedicina ou de soluções tecnológicas de apoio ao diagnóstico como soluções de ‘live experience’ ou de ‘Digital Assistants’. Um mundo novo de soluções tecnológicas são já hoje empregadas na busca da cura e tratamento desta doença, por exemplo, a possibilidade de usar soluções de high-performance computing combinadas com tecnologias de big data para o estudo da genómica", sublinha João Mota Lopes, perito em Transformação Digital e Governo Digital.

Nova cultura na saúde

As transformações provocadas pela pandemia de covid-19 vieram mostrar que "os cuidados de saúde não são mais o condutor central de valor", analisa Filipe Costa, investigador e professor assistente da Nova School of Business and Economics. Considera que a inovação está a ser impulsionada por um fluxo cada vez mais diversificado de dados que residem fora dos limites do ecossistema de saúde tradicional e do processo clínico eletrónico. "Rastreabilidade de contacto, dados epidemiológicos e laboratoriais, são um conjunto de codificação que permite um conjunto de informação para ação." Acrescenta que "nestes tempos de covid-19 não só a necessidade emergente da colheita deste dados se tornou capital para a decisão, como a necessidade de uma estratégia digital demonstrou ser uma realidade que necessitava de uma integração que passou de projeto a emergente".

A pandemia mostrou também a necessidade de uma "cultura ágil, construindo e melhorando em torno de um produto inacabado e em evolução, que deve ser incorporada de forma mais integrada na cultura organizacional em saúde. Assim palavras como resiliência, confiança, sentido de propósito, vulnerabilidade, liderança, personalização, conhecimento, capacitação, são variáveis a integrar no léxico do futuro emergente da estratégia em saúde", salientou Filipe Costa.