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Böllinghaus: Alemães têm 30 milhões para investir em Vieira de Leiria

A Böllinghaus produz perfis metálicos que vão para bases petrolíferas, são transformados em próteses ou em simples fechaduras. Agora planeia crescer à boleia do sector aeroespacial.

Rute Barbedo 27 de Dezembro de 2018 às 15:17
David Cabral Santos
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A terceira maior empresa - e segunda maior exportadora - da Marinha Grande podia já não estar aqui.

No ano passado, as chamas de Outubro bateram-lhe à porta e chegaram a soprar nas tendas que a Böllinghaus Steel montou provisoriamente, até iniciar os investimentos que tem em carteira. Um ano depois, o furacão Leslie gerou cerca de 350 mil euros de prejuízos. Quem o relata é Thomas Kleingrothe, responsável pelas áreas de operação e de qualidade da empresa alemã de perfis de aço inoxidável (mas também titânio e níquel), que tem em Portugal a sua única fábrica e que planeia o maior investimento de sempre, na ordem dos 30 milhões de euros. Agora que o pior parece já ter passado, o plano é construir uma nova área de laminagem de aço, "de acordo com os padrões actuais da técnica, do digital e da indústria 4.0", diz Hartwig Härtel, presidente do conselho de administração e bisneto do fundador da empresa nascida em 1889.


69
Facturação
Venderam quase 70 milhões de euros em bens em 2017, quase tudo para o exterior.

36%
De crescimento
Foi a segunda exportadora que mais cresceu no concelho. Apenas a E&T a superou.

300
Trabalhadores
A empresa começou em 1996 com uma equipa de 25 e agora tem 300 trabalhadores.


A Böllinghaus actua num nicho - perfis não-redondos - e é na especialização que quer continuar. Kleingrothe explica: "As pessoas fazem o redondo porque é mais fácil. Mas, para nós, quanto mais difícil for, melhor. O standard não vendo."

No laboratório, onde se fazem ensaios de tracção, de resistência ou de impacto, é possível antever um pouco do universo de aplicação da marca. Dos perfis metálicos sairão tesouras de cirurgia, implantes para ancas, tacos de golfe, frisos para mobiliário. Mas a casa também fornece a construção civil e as plataformas petrolíferas. "Vendemos a barra em perfil. Depois, o cliente maquina e perfura", detalha Kleingrothe num português com resquícios do alemão materno.

Aço pelos ares

Desde que se implantou nesta freguesia de Vieira de Leiria, em 1996, a curva da Böllinghaus vai em crescendo. Começou com uma equipa de 25 antigos funcionários de uma falida fábrica de laminagem e hoje conta perto de 300. No mesmo período, passou de uma produção de 3.000 toneladas para 20 mil. E se, no ano passado, facturou 69 milhões de euros (segundo os dados da Informa D&B), até 2021 pretende chegar aos 100 milhões. Foi subindo por diferentes áreas e agora prepara-se para entrar no sector aeroespacial, um passo que deverá permitir quase duplicar a actividade da empresa e que implica o tal investimento de 30 milhões de euros.
Apesar de não haver fundição na fábrica, os jogos de calor são uma constante. As barras de inox saem incandescentes para serem empurradas para plataformas metálicas.
Apesar de não haver fundição na fábrica, os jogos de calor são uma constante. As barras de inox saem incandescentes para serem empurradas para plataformas metálicas. David Cabral Santos
Se as quantidades foram aumentando, o trabalho braçal diminuiu drasticamente. Mas foram os braços portugueses que levaram Härtel a investir nesta terra de pescadores. "Não conseguíamos ter trabalhadores na Alemanha. Era um trabalho duro, manual, sujo. E estávamos limitados em espaço, entre uma linha ferroviária, uma gasolineira e uma estrada nacional e uma loja", conta o presidente.

Quente e frio

De um stock de cerca de 30 variedades de aço, as barras seguem para os fornos e para as zonas de laminagem, estiragem e decapagem química. Na fábrica não há fundição - "o senhor Härtel diz que enquanto estiver vivo não terá fundição em casa" -, por isso, toda a matéria-prima chega em "estado negro". Ainda assim, os jogos de calor continuam em Vieira de Leiria. Em 2009, a empresa adquiriu um forno com "três zonas de aquecimento, que vai até 1.300 graus. [É um processo faseado porque] a temperatura tem de chegar ao núcleo da estrutura. É como assar uma perna de borrego", compara Kleingrothe.
Mais tarde voltarão ao tratamento térmico. A fábrica tem, no entanto, uma estiragem a frio onde não há quente.
Mais tarde voltarão ao tratamento térmico. A fábrica tem, no entanto, uma estiragem a frio onde não há quente. David Cabral Santos

As barras de inox saem incandescentes, são empurradas para plataformas metálicas com a ajuda de longas varas e passam por uma bomba de água de 250 bar (unidade de pressão). Mais tarde volta-se ao tratamento térmico - o calor actua para que o aço obedeça. "Há um aço especial em que é preciso fazer três tratamentos para aumentar a dureza, retirar o stress, permitir que o material fique descansado", exemplifica Kleingrothe.

Apenas na estiragem a frio, uma vertente que a fábrica tem há seis anos, o quente não ordena. Numa máquina bruta, um paralelepípedo alongado pode entrar com 42 mm de largura e sair com 40 mm. "Vejam só a força desta máquina", chama a atenção Kleingrothe depois de um estrondo ocupar a fábrica e de as correias começarem a puxar a barra para o exterior. Destino? Estados Unidos, Canadá e Alemanha são os principais mercados da empresa.


Perguntas a Hartwig Härtel
Presidente do conselho de administração

"Se tiver demasiados problemas, terei de pensar em sair de Portugal"

Em Vieira de Leiria para uma visita de final de ano à fábrica da Böllinghaus, o presidente do conselho de administração confirma a intenção de investir 30 milhões de euros mas queixa-se de falta de colaboração do poder autárquico.

Qual é a vossa estratégia para continuar a crescer?
Não é pela quantidade, mas pela subida de preços dos nossos produtos. E em breve queremos começar o nosso maior investimento, de cerca de 30 milhões de euros. Mas precisava de mais apoio por parte da Câmara Municipal. Temos de construir um novo edifício, mas eles dizem que não é permitido fazê-lo nas dimensões que queremos. É uma questão de cinco metros! Acho que a autarquia não mostra interesse pelas empresas de Vieira de Leiria. Vê os grandes negócios dos moldes e do vidro [na Marinha Grande] e está muito contente com os impostos que vêm daí. Mas se tiver demasiados problemas com isto, terei de pensar em sair de Portugal. [Questionada pelo Negócios, a autarquia diz que tem "acompanhado a situação" e que fará "tudo para ajudar, dentro das condições legais".]

Quantas pessoas irão empregar se levarem a cabo este investimento?
Em dois ou três anos duplicaríamos a quantidade do que produzimos hoje, o que quer dizer que pelo menos 100 trabalhadores entrariam. Mas os processos serão automatizados, pelo que é difícil calcular.

A medida de Trump, de aumentar a taxa das importações de aço e alumínio, tem tido consequências para a Böllinghaus, já que os Estados Unidos da América são o vosso principal mercado?
Os nossos clientes aceitaram os 25% desde o primeiro dia de Junho, até porque têm muita dificuldade em conseguir os mesmos materiais, da mesma qualidade, nos Estados Unidos.

Acredito que os Estados Unidos continuarão a ser um grande mercado. HARTWIG HÄRTEL
Presidente do conselho de administração da Böllinghaus


Mesmo assim, vão olhar para outros mercados?
Sim, claro. Mas acredito que os Estados Unidos continuarão a ser um grande mercado. Actualmente, o nosso segundo maior cliente é a Europa, com a Alemanha na liderança, mas há potencial para crescer noutros países. Nos próximos dez anos, o maior potencial estará nos países asiáticos e aí teremos de ver se abrimos um escritório lá.

Quem serão os vossos principais concorrentes no mercado asiático?
Não temos. Eles são daqui, da Europa, dois ou três. Mas produzir cá [em Portugal] só nos dá vantagens, principalmente porque conseguimos ser muito flexíveis. Se um bom cliente precisar, facilmente mudamos [a produção] de um dia para o outro. 

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