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Museu em Barcarena: Aqui já não há pólvora, mas houve...

Em Barcarena houve uma pequena cidade dentro da Fábrica de Pólvora. Hoje há educação, cultura, arquitectura, ecologia e memória. Memória daquela que foi uma das maiores fábricas bélicas em Portugal.

Alexandra Machado amachado@negocios.pt 24 de Maio de 2016 às 00:01
Sara Matos
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As paredes são impenetráveis. Os tectos leves para que, em caso de explosão, o fogo e fumo se propagasse para cima. E tudo, até as fardas (com cintos de cordas), era pensado para evitar fricções que pudessem resultar em faíscas. Afinal, ali fabricava-se pólvora.

Com risco. O registo de acidentes, à entrada, comprova-o. O primeiro, que vitimou Manoel João, aconteceu em Dezembro de 1757. O último, antes do fecho da fábrica em 1988, aconteceu, também em Dezembro, mas de 1972. Morreram seis operários. E ainda hoje o edifício destruído pela força da explosão se encontra esventrado. Alexandra Fernandes, directora do Museu da Pólvora Negra, explica que se pretende perpetuar a memória daquela fábrica, que chegou a ocupar um espaço total de 40 hectares, num vale em Barcarena, escondido, mas serpenteado pela ribeira local. O percurso pelo que foi a fábrica de pólvora é feito em tons de amarelo (cores das paredes) e de verde (vegetação), sempre acompanhado pelo som da água. Uma fábrica destas não podia estar instalada sem acesso a água, a muita água, necessária no fabrico, prevenção, mas também para a geração de energia.

A central hidroeléctrica - instalada em 1925 - ainda lá está, não funcional, mas em parte restaurada, com o auxílio da EDP. Também a central diesel, que fazia a redundância quando o caudal da ribeira não permitia gerar energia, se pode ver. Mas sem a estrutura de ferro e vidro - que mais parecia um jardim de inverno - que guardava o engenho, vendida a um privado e que, por isso, já só resta em fotografia.


O perímetro de segurança à volta da fábrica foi sendo mantido. Ainda hoje os poucos prédios que se vêem são da urbanização de São Marcos, já no Cacém. O isolamento da fábrica fez com que aquela estrutura fosse sendo, quando estava activa, uma verdadeira cidade. E que fortaleceu a cooperativa de trabalhadores, que funcionava como um "Estado social" para os operários e até concedia crédito.

Os trabalhadores eram também fortemente reivindicativos e, não por acaso, foi das primeiras fábricas a conseguir as oito horas de trabalho (seis dias por semana). A história laboral revela, por si só, o que foi Portugal ao longo dos tempos. E muitos são os episódios contados durante o Estado Novo. A fábrica merecia uma forte atenção por parte da PIDE.

Esta foi uma estrutura militar, por vezes concessionada. E é hoje das poucas ex-estruturas militares abertas a espaço de ensino, cultura e recreio e lazer. Fechada a fábrica em 1988, a Câmara de Oeiras adquiriu as instalações em 1995. Abriu como espaço de actividades em 1998, há quase 18 anos, estando aí também instalada, agora, a Universidade Atlântica. Comprada a estrutura foram feitos os levantamentos do espólio. Pouco restava. Chegou a ter 20 caldeiras de bronze para cristalizar o salitre. Restam duas, lamenta Alexandra Fernandes, que mostra o espaço sem disfarçar o orgulho. Há ainda trabalho de recuperação a fazer, mas que terá de esperar.

Sob o olhar de Santa Bárbara (padroeira de todos os que trabalham com engenhos de fogo e protectora de relâmpagos e tempestades), a memória mantida viva não deixa esquecer que aquele local encerrou perigos. Foi local de morte, mas quase sempre de vida.

Tome nota Fábrica é espaço de aprendizagem e lazer A Fábrica da Pólvora de Barcarena é mais do que o Museu. Mas este, o Museu da Pólvora Negra, pode ser visitado de terça a domingo, das 10h às 13 horas e das 14h às 18 horas (17 horas no horário de Inverno, de 1 de Outubro a 30 de Abril). O ingresso custa dois euros, mas há grupos com preço reduzido (1 euro) e também há quem tenha entrada gratuita. O Museu tem uma área de 260 metros quadrados e divide-se por quatro salas.

Além do Museu, o espaço da Fábrica é usufruído para lazer, com um circuito de manutenção e espaços verdes. Também se realizam concertos e espectáculos. E tem uma forte componente pedagógica.


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