Miguel Farinha: "Investidores já não vêm só à procura do barato"

O responsável pela área de consultoria financeira da EY atesta que Portugal voltou a ter muitos investidores internacionais a "olhar para activos". Conheça os sectores e as origens com mais interesse no mercado português de fusões e aquisições.
Miguel Farinha: "Investidores já não vêm só à procura do barato"
Miguel Farinha acredita que o imobiliário vai continuar a ser "o motor" para muitas transacções em Portugal.
Inês Lourenço
António Larguesa 10 de abril de 2018 às 11:16
O "estigma" de que o preço dos activos em Portugal era barato já está ultrapassado, segundo Miguel Farinha, que vê agora as empresas nacionais a serem "mais vendidas pelo que conseguem oferecer de valor aos investidores". Em entrevista ao Negócios, o sócio da EY, que lidera a área de "transaction advisory services", antevê um ano forte neste mercado, até porque "muitos fundos de capital de risco estão a chegar ao seu período de maturidade no investimento e têm de começar a gerir as saídas".

"Os chineses perceberam que aqui são bem recebidos."

Como avalia o actual no mercado de fusões e aquisições empresariais em Portugal, que em 2017 bateu recordes em número e volume de transacções?
Fazendo uma rápida retrospectiva histórica, depois da fase de crise financeira entre 2011 e 2013 em que o mercado viveu muito de fundos a comprarem activos em dificuldades, principalmente dos bancos, começou a sentir-se uma recuperação e houve as privatizações em que muitos investidores olharam para nós, sobretudo os chineses que compraram empresas como a REN, EDP ou Fidelidade. Actualmente continua a haver interesse dos asiáticos, mas também de outras nacionalidades. Voltamos a ter em Portugal muitos fundos internacionais a olhar para activos, não só em dificuldades mas outro tipo de empresas.

Quais as perspectivas para 2018, atendendo ao início deste ano e contactos com clientes?
Muito semelhantes às de 2017. No primeiro trimestre continuou a haver um interesse grande e vimos muitas transacções e projectos, de investidores nacionais e internacionais. E este ano há outro factor que vai aumentar o número de transacções no mercado português: muitos fundos de capital de risco estão a chegar ao seu período de maturidade no investimento e têm de começar a gerir as saídas.

Tinham arrancado mais ou menos na mesma altura?
Exactamente. Houve fundos de capital de risco que investiram em empresas em reestruturação, entre 10 a 15 anos, mas nesta fase em que o mercado está mais quente olham para as oportunidades. E depois os outros fundos de 'private equity' normais, com prazo mais curto, estão a chegar ao final da vida útil e aí é mesmo obrigatório fazer a saída.

Gestor torreense na EY desde 1998

Nascido há 43 anos em Torres Vedras, Miguel Farinha é licenciado em Gestão pelo Instituto Superior de Gestão e acumula outras qualificações, como o Programa Avançado de Gestão para Executivos da Universidade Católica ou o Kellogg Account Leadership Program da Kellogg School of Management. Iniciou a carreira em auditoria e em 1998 ingressou na EY, tendo experiência nos sectores do turismo, automóvel, energia, indústria ou imobiliário. Nos últimos anos geriu centenas de projectos de "due diligence" dentro e fora do país, para investidores financeiros ou estratégicos, incluindo aquisições para alguns dos Fundos de Capital de Risco mais representativos no mercado português (ECS Capital, Explorer Investments, Inter-Risco, Oxy Capital, Hcapital e Menlo Capital).


E os bancos vão continuar a vender portefólios de crédito malparado.
Continua a haver esse efeito. Os maiores bancos, principalmente, olham de forma muito mais premente para essa saída de alguns dos programas. Se há uns anos quem estava mais nesse sector eram os bancos pequenos e o crédito ao consumo, hoje qualquer um dos grandes bancos tem projectos a decorrer de venda dos seus créditos mal parados.

Esta era de crescimento económico no país, que impacto tem?
Ajuda porque a mensagem que está a passar sobre Portugal é agora um pouco diferente. Em vez de ser aquela até um pouco depressiva e de que se conseguiam comprar activos a um preço relativamente baixo, hoje consegue-se demonstrar que há um mercado em crescimento e empresas inovadoras com projectos interessantes. Isto atrai um mercado diferente. Não vêm só à procura do que tem dificuldades e pode ser barato. Há uns anos havia esse estigma de que o preço dos activos em Portugal era barato, face à situação de crise que existia. Já conseguimos ultrapassar isso e as empresas já são mais vendidas pelo que conseguem oferecer de valor aos investidores.

E isso muda também o perfil do investidor?
Sim. É difícil tipificar, mas temos muitos fundos de capital de risco estrangeiro que olham finalmente para Portugal, que no capital de risco sempre foi percebido como apetecível [só] para investidores nacionais. Os fundos internacionais só cá vinham para grandes transacções, por norma envolvendo infra-estruturas, como auto-estradas. Neste momento já olham para as indústrias e empresas com alguma dimensão. Depois também há grandes empresas a procurar negócios mais pequenos que tragam factores diferenciadores, como inovação, e que lhes permitem entrar em novos mercados com produtos diferentes.

Em termos de sectores, o imobiliário vai continuar a ser uma alavanca?
Claramente. O imobiliário é o motor para muitas transacções, desde edifícios de escritórios, 'shoppings', hotéis e parte habitacional, mas também há procura acrescida noutras áreas. A energia continua a ser um sector interessante, muito focada no tema das renováveis - tivemos os projectos eólicos com sucesso, hoje o solar está a gerar muito interesse e há a biomassa, que ainda é uma incógnita sobre como avançará. Depois as telecomunicações, na área de média vai haver alterações e oportunidades, o sector financeiro também é sempre apetecível e continuamos a ver transacções, tanto na área bancária como na seguradora. E, finalmente, tudo o que é indústria de cariz exportador, que pense fora do mercado português e que consiga sair do nosso cantinho.

"Muitos investidores sediados no Reino Unido olham para Portugal depois do Brexit."

E em relação à origem dos investidores, os asiáticos mantêm por cá a actividade intensa dos últimos anos?
Continuam a ser um investidor importante e a estarem muito atentos ao mercado português, até porque perceberam que são bem recebidos. O investimento chinês sempre foi tratado aqui de uma forma justa. Mas também vemos cada vez mais investidores americanos e ingleses - ou pelo menos que estão ou estavam sediados no Reino Unido e que com o Brexit estão a olhar para outros mercados.

O que é que Portugal pode ter nesse caso como argumento?
Há vários temas. Um em que Portugal tem uma vantagem tremenda face a outros países é a mudança recente para Lisboa da sede mundial da comunidade Imamat Ismaili. São investidores importantes no mercado inglês e com esta mudança começam logo a olhar para Portugal. E depois o país tem condições fantásticas, desde uma força de trabalho e pessoas muito competentes, com formação universitária e grande facilidade nas línguas.

O investimento brasileiro também começa a pesar.
Cada vez mais. Começou numa perspectiva mais imobiliária e agora contacta-nos à procura de oportunidades em Portugal de empresas, sobretudo de prestação de serviços, que lhes permitam expandir o seu negócio, que já existe no Brasil, para outros continentes. Procuram um refúgio seguro para continuar a desenvolver os negócios no seu país de origem, mas a partir de um local que não tem nada a ver em termos de segurança e de estabilidade económica. E vêm à procura de uma qualidade de vida que não conseguem, de todo, encontrar no Brasil.

EY aposta na estratégia empresarial e imobiliário 

O imobiliário e a estratégica empresarial são as duas componentes dentro da consultoria financeira em que está a haver um "reforço claro" por parte da EY, envolvendo um investimento em equipas e competências.

No caso do mercado imobiliário, em que as chamadas "Big Four" da auditoria e consultoria - as outras são a PwC, a Deloitte e a KPMG - não têm estado tão presentes, Miguel Farinha acredita que a empresa "consegue dar ao cliente uma perspectiva completamente integrada", incluindo "uma panóplia de serviços que outras não conseguem dar".

Por outro lado, o investimento na área de "corporate finance strategy" levou à compra da Augusto Mateus & Associados, concretizada em 2017, que "trouxe muita da sua experiência na análise estratégica, adicionando também a avaliação de políticas públicas e os temas ligados ao território e às regiões".

92
Consultores
A equipa de consultoria financeira da EY soma agora 92 colaboradores, após a integração dos 15 elementos da Augusto Mateus & Associados.


Esta equipa de 15 pessoas está a trabalhar como uma unidade independente, mas integrada na equipa de consultoria financeira da EY, que soma agora um total de 92 colaboradores. Em quatro anos multiplicou por quatro a dimensão, em resultado da "reestruturação profunda" do departamento, que estava muito focado em "due diligence e avaliação, e passou a incorporar novas valências para assessorar clientes em todas as vertentes da gestão de capital.

Além da área imobiliária e estratégica, esta equipa liderada por Miguel Farinha está ainda organizada noutros serviços: de "transaction diligence", de assessoria fiscal em transacções, de "valuation & business modelling" (avaliação de empresa, estudos de viabilidade, planos de negócio e modelização financeira), de fusões e aquisições e ainda com uma equipa especializada em projectos de reestruturação financeira ou angariação de financiamentos.