Invisible Collector: Porto cobra dívidas sem chamar “bandidos” aos clientes

Software recorre a inteligência artificial para interpretar o comportamento do cliente na interacção com o credor. No primeiro ano geriu dívidas de 100 milhões de dólares em meio milhão de processos.
Invisible Collector: Porto cobra dívidas sem chamar “bandidos” aos clientes
Pedro Mendes é um dos co-fundadores da jovem empresa que está instalada nas imediações da Avenida da Boavista, no Porto.
Paulo Duarte
António Larguesa 05 de dezembro de 2018 às 14:00
Não vender um método de cobrança, mas um sistema que restabelece a confiança entre empresa e cliente. É este o princípio da Invisible Collector, que recusa tratar a dívida como um mero problema financeiro e cujo software recorre a inteligência artificial para gerir de forma eficiente os processos de recebíveis de uma instituição. "Um bom cliente atrasa-se 10 dias e é logo tratado como um bandido? Isso é a política comercial a ser totalmente defraudada pela área de cobranças", aponta o CEO, Pedro Mendes, frisando que, além da falta de dinheiro, "há outras razões igualmente válidas para uma dívida não ser liquidada".

Ao "interpretar aspectos tangíveis do comportamento do cliente na interacção com o credor", a empresa do Porto reclama que consegue ainda "antecipar potenciais 'defaults', prever 'cashflows' futuros, reduzir em mais de 80% os custos operacionais". Já tem vendas na área da digitalização do processo de cobranças, lançou recentemente a de pagamentos através da plataforma e o próximo passo são funcionalidades como a sugestão automática de estratégias de contacto ou ter o sistema preparado para o cliente abrir a conta e começar logo a usar ("plug & play").


A empresa quer "democratizar o acesso" a esta ferramenta e chegar às PME com facturação a crédito.


Estimando uma facturação acima dos 230 mil euros no final deste ano, Pedro Mendes contabiliza que, desde o lançamento dos primeiros pilotos em Novembro de 2017, a Invisible Collector já foi usada em cerca de meio milhão de processos individuais e geriu dívidas de mais de 100 milhões de dólares - o valor total foi convertido para a moeda americana para ser uniforme, pois trabalha para clientes que exportam para Angola, Moçambique ou Reino Unido.

Parcerias Vodafone e BBVA

Apesar de ter como clientes sobretudo empresas de recuperação de créditos e consultores financeiros que trabalham com grandes negócios, o empreendedor nortenho quer "democratizar um bocadinho o acesso a esta ferramenta profissional" ao chegar às PME com vendas até cinco milhões de euros e facturação a crédito. "E que pensem 'tenho aqui uma solução e, se calhar, consigo começar a tratar do problema sem precisar de recorrer a uma entidade externa ou a advogados", acrescentou.


80%
Despesa
A plataforma da Invisible Collector promete aos clientes a redução em mais de 80% dos custos operacionais.

230
Facturação
A empresa prevê facturar perto de 230 mil euros em 2018, tendo clientes que exportam para Angola, ou Reino Unido.


Uma das vias para chegar às PME é através da inclusão da Invisible Collector no "marketplace" de soluções para clientes empresariais que a Vodafone vai lançar no próximo ano. "Temos isso fechado com eles", assegurou Pedro Mendes, que valoriza a integração no programa "Power Lab" da operadora de telecomunicações e ambiciona tê-la também como cliente na área das cobranças para particulares.

Outro "grande projecto" está a ser desenvolvido em Espanha com o BBVA, com o objectivo de integrar os novos serviços do banco nesta solução. O gestor explica que em causa está o pagamento digital através do próprio sistema interno do banco, a simulação de financiamento com base nas facturas que as empresas emitem e também financiar os próprios clientes devedores com base nas métricas de credibilidade que as instituições já têm sobre eles.

RAIO-X 

Trio juntou tempo e vontades

O embrião da Invisible Collector surgiu no final de 2015 da "junção de vontades e disponibilidades" de três jovens à procura de um novo projecto de carreira.

Equipa inicial dobra com várias disciplinas
De onde vieram os fundadores? Pedro Mendes já vai na quarta start-up, Miguel Rangel trabalhava numa empresa de cobranças em Madrid e João Madureira na tecnológica Blip.
Actualmente trabalham na empresa mais três pessoas: um comercial, um ligado aos estudos comportamentais e ainda um outro área da programação.

Competidores "manuais" e outros de dimensão
As agências externas de cobrança e os serviços de cobrança de dívida são competidores, embora "a grande concorrência seja o processo manual".
A franco-espanhola Dunforce é um dos principais nomes a enfrentar pela IC, que nos EUA segue algumas empresas, ambas na costa Leste.

Subscrição mensal com "unlock" de funções
A empresa segue um modelo de subscrição mensal que vai dos 90 euros (para testes) aos 5.000 euros, com comunicações ilimitadas e todas as funcionalidades activas.
Pedro Mendes indica que "com o pacote de 400 euros tem a capacidade de gerir os clientes de forma ilimitada, com as interacções todas por e-mail".



Perguntas a Pedro Mendes
CEO e co-fundador da Invisible Collector

"Mercado dos EUA não é selvagem"

A empresa trabalha com dois consultores locais e vai entrar na associação californiana de empresas de cobrança.

Como estão a abordar o mercado americano?
Estamos a trabalhar com dois consultores locais. Um mais na lógica de parceiro de distribuição; o outro é alguém que conhece bem o universo empreendedor do lado Oeste e vai ajudar a orientar testes e na adaptação ao mercado americano. O primeiro passo é entrar na associação californiana de empresas de cobrança.

A legislação sobre os cobradores tem vindo a ser apertada e o volume de queixas por acções indevidas tem vindo a aumentar.

Qual será o modelo?
Estamos a pensar numa 'fee' fixa para o tratamento global da dívida, que é adequado ao que estão habituados: com a perspectiva de quanto vão gastar, no máximo, no final do ano. É um mercado atractivo porque têm o modelo de emitir facturas a 15 dias, o ónus legal - em caso de empate dá a vitória ao credor e não ao devedor - e como é um negócio que orientamos muito para o comportamento, a parte do idioma tem muita importância. Com inglês e espanhol abrangemos uma quota significativa.

Que dificuldades esperam?
A legislação sobre os cobradores tem vindo a ser apertada e o volume de queixas por acções indevidas tem vindo a aumentar. O mercado não é selvagem. E depois o nível de investimento para entrar no mercado é superior. Os custos do 'set up' local são mais elevados, embora depois o potencial seja superior. Conseguindo um portefólio lá, pode ajudar a fazer crescer o negócio. 

10 disputam vaga em Silicon Valley 

O Negócios mostra-lhe os finalistas do prémio lançado pela FLAD e pela consultora EY. O vencedor será anunciado a 20 de Dezembro e terá direito um período de imersão num cluster tecnológico na Califórnia.







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