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Augusto Costa Franco: “Portugal pode gerar inovação de classe mundial”

Distinguido como Innovation Champion na 4.ª edição do Prémio Nacional de Inovação, Augusto Costa Franco vê o galardão como o reconhecimento de mais de duas décadas dedicadas à tecnologia e defende que Portugal precisa de mais capital e ambição para transformar conhecimento em empresas globais.

Augusto Costa Franco, fundador da Sigma Easy Charge, empresa que desenvolve soluções de carregamento sem fios, com eletrónica de potência e controlo inovadores, para a mobilidade elétrica.
Augusto Costa Franco, fundador da Sigma Easy Charge, empresa que desenvolve soluções de carregamento sem fios, com eletrónica de potência e controlo inovadores, para a mobilidade elétrica. DR
29 de Setembro de 2026 às 14:00
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Com um percurso que começou na academia e passou pela indústria ferroviária, Augusto Costa Franco está agora concentrado na mobilidade elétrica e no carregamento sem fios. O fundador da Sigma Easy Charge fala do papel do risco, da inteligência artificial e da ambição de levar tecnologia portuguesa aos mercados internacionais.

O que representou, a nível pessoal e profissional, ser distinguido como Innovation Champion pelo Prémio Nacional de Inovação?

A nível pessoal, representa o reconhecimento de um percurso que começou há mais de duas décadas. Em 2004, recebi o Innovation Entrepreneurship National Award, um prémio que marcou profundamente a minha forma de ver tecnologia e que me mostrou, ainda muito jovem, que o caminho da inovação exigia coragem, visão e capacidade de execução.

A minha ligação à academia, em particular à Universidade do Porto e à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, reforçou esse espírito. Tive a sorte de ser orientado por pessoas excecionais, como o Professor Adriano Carvalho, que sempre nos ensinou a ser empreendedores, arrojados e a correr riscos controlados, com rigor técnico, responsabilidade e ambição. Essa cultura de inovação aplicada moldou a forma como trabalho e como lidero projetos tecnológicos.

A nível profissional, esta distinção como Innovation Champion em 2026 valida anos de dedicação à criação de tecnologia com impacto, tanto na Sigma Easy Charge como nos projetos que desenvolvi ao longo da minha carreira. É a confirmação de que Portugal pode gerar inovação de classe mundial quando junta investigação, engenharia e visão empresarial e de que transformar ideias em produtos e produtos em empresas globais é um caminho possível.

No seu percurso, quais foram os momentos ou projetos que mais contribuíram para formar a sua visão sobre inovação e tecnologia?

A minha visão sobre inovação nasceu claramente na academia, com os amigos que me acompanharam nesse percurso e com a educação e o apoio que a minha família me proporcionou. A FEUP e a Universidade do Porto foram determinantes na forma como penso tecnologia, engenharia e impacto. Foi nesse ambiente que percebi que a inovação não é apenas criar algo novo, é transformar conhecimento científico em soluções reais que resolvem problemas concretos.

Um dos momentos mais marcantes foi a tese que desenvolvi com o professor Adriano Carvalho, que não só me orientou tecnicamente, mas me transmitiu uma cultura de empreendedorismo, arrojo e risco controlado. Essa tese não ficou na prateleira: tornou-se o ponto de partida para o lançamento de um projeto empresarial real, provando que a ponte entre investigação e mercado é possível quando existe visão, rigor e execução.

Mais tarde, tive a oportunidade de cofundar uma empresa tecnológica que hoje tem sucesso no setor ferroviário mundial, o que reforçou a ideia de que inovação também significa melhorar, prolongar e reinventar sistemas complexos através de engenharia aplicada. Essa experiência internacional mostrou-me que Portugal tem capacidade para competir globalmente quando alia conhecimento científico, engenharia de excelência e foco no cliente.

Finalmente, a criação da Sigma Easy Charge consolidou tudo aquilo que aprendi: que a inovação só ganha vida quando se transforma em produto, quando resolve problemas concretos e quando tem ambição de escala. A Sigma representa exatamente isso, a evolução natural de um percurso que começou na academia, passou pela indústria global e hoje se afirma com uma visão internacional sobre mobilidade elétrica e inovação aplicada.

A inovação acontece quando a tecnologia deixa de ser um protótipo e passa a ser um motor de mudança económica, industrial ou social.

O que distingue verdadeiramente inovação de evolução tecnológica?

Evolução tecnológica é incremental. Inovação é transformacional. Uma ideia passa a criar valor real quando resolve um problema concreto, de forma escalável e com impacto mensurável. Mas há um elemento adicional: o sentido empreendedor e a capacidade de correr riscos. Inovar implica acreditar numa solução antes de ela estar madura, investir tempo e recursos, e avançar mesmo quando o caminho não está totalmente definido. A inovação acontece quando a tecnologia deixa de ser um protótipo e passa a ser um motor de mudança económica, industrial ou social.

Na Sigma Easy Charge, o trabalho em carregamento sem fios mostra uma aposta em tecnologias pouco maduras. Até que ponto inovar implica aceitar risco?

O carregamento sem fios já existe, mas ainda há pouca concorrência global. Os fabricantes mais avançados apontam esta tecnologia como o futuro do carregamento elétrico, especialmente para condução autónoma, onde a ausência de cabos é crítica. E o potencial estende-se a drones, e-bikes, robótica móvel e logística inteligente.

Na Sigma, estamos na vanguarda desta área porque apostamos numa eletrónica totalmente inovadora, com arquiteturas de potência e controlo que não existem no mercado. Sim, estamos a correr riscos, mas riscos calculados. Temos uma equipa preparada para vencer, parceiros que aceleram a nossa trajetória e um know-how que nos posiciona claramente à frente neste setor.

É isso que nos permite afirmar, com confiança, que em 2027 vamos lançar um produto verdadeiramente disruptivo no mercado.

Portugal tem capacidade científica, mas dificuldade em transformar investigação em produto. Onde está o bloqueio?

O bloqueio está na ponte entre academia e indústria. Portugal produz ciência de excelência, mas falta transformar investigação em produto. Falta cultura de risco, velocidade de execução e visão de escala. A Sigma nasceu precisamente para ultrapassar este bloqueio: transformar conhecimento científico em tecnologia industrial com potencial global.

Mas há também um elemento mais profundo: Portugal precisa de acreditar verdadeiramente na sua capacidade de criar tecnologia de classe mundial. Temos talento, temos engenharia, temos ciência, falta transformar essa confiança em ação. Quando conseguimos unir universidades, empresas, empreendedores e indústria, criamos um ecossistema capaz de competir globalmente. É isso que me inspira: ver que, passo a passo, estamos a construir um país onde a inovação deixa de ser apenas um conceito e passa a ser uma força transformadora, capaz de gerar produtos, empresas e impacto internacional. É essa visão que guia o nosso trabalho na SIGMA e que nos motiva a acelerar inovação aplicada.

Sem capital alinhado com ambição, não há escala; sem escala, não há impacto global.

Financiamento, talento, acesso ao mercado e capacidade industrial. Qual é hoje o fator mais crítico?

O fator mais crítico é, sem dúvida, o financiamento. Portugal tem talento, engenharia e capacidade científica. Tem universidades de excelência, centros de investigação competitivos e uma geração de empreendedores capaz de criar tecnologia global. O que falta, e falta de forma estrutural, é acesso ao capital certo, com financiadores adequados e dispostos a apostar em tecnologia profunda, em inovação real e em projetos que exigem visão de longo prazo. Sem capital alinhado com ambição, não há escala; e sem escala, não há impacto global. A Europa continua a ter um modelo de financiamento mais conservador, mais lento e menos tolerante ao risco. Nos Estados Unidos, o investimento é mais agressivo, mais rápido e mais orientado para a criação de tecnologia disruptiva. Esta diferença cultural afeta diretamente a capacidade de transformar conhecimento científico em produtos globais. É por isso que considero o financiamento o verdadeiro ponto crítico: sem investidores que compreendam o potencial da tecnologia e que acompanhem a velocidade da inovação, Portugal não consegue competir ao ritmo que o setor exige. A Sigma conseguiu juntar financiadores tecnológicos de excelência, alinhados com a nossa visão, com a nossa ambição e com a profundidade tecnológica do que estamos a construir. Esse alinhamento entre capital, tecnologia e execução é o que permite transformar ideias em produtos e produtos em impacto global. A Mota-Engil Mext é um exemplo disto que acabei de referir. Outros financiadores importantes também estão a caminho.

Que vantagens pode Portugal explorar para criar tecnologia com escala internacional?

Tenho muito orgulho em ser português! Portugal tem três vantagens muito claras e que, quando bem articuladas, podem transformar o país num produtor relevante de tecnologia com escala internacional. A primeira é o talento científico e de engenharia: formamos profissionais altamente qualificados, capazes de trabalhar em áreas de fronteira tecnológica e de competir com os melhores do mundo. A segunda é o ecossistema académico, sólido e colaborativo, que combina investigação de excelência com uma cultura crescente de inovação aplicada. A terceira é a capacidade de inovar com agilidade: Portugal consegue fazer muito com poucos recursos, e isso é uma vantagem competitiva num mercado onde a rapidez de execução é decisiva.

Mas há também uma dimensão mais estratégica. Portugal tem condições para se posicionar em nichos tecnológicos onde a combinação de conhecimento científico, engenharia de precisão e visão empresarial é determinante. Áreas como mobilidade elétrica, eletrónica de potência, sistemas inteligentes e tecnologia de carregamento sem fios são exemplos claros de setores onde o país pode liderar globalmente. O que falta é transformar estas vantagens em produtos industriais, em empresas com ambição internacional e em tecnologia capaz de competir nos mercados mais exigentes.

Se conseguirmos alinhar talento, investigação, indústria e capital, Portugal pode deixar de ser apenas um país que produz boa ciência e passar a ser um país que produz tecnologia global. É exatamente essa visão que estamos a concretizar na Sigma.

A inteligência artificial vai acelerar a inovação ou transformar a forma como inovamos?

A inteligência artificial (IA) não está apenas a acelerar a inovação; está a transformar profundamente a forma como inovamos. A IA mudou o ritmo, a escala e até a natureza do desenvolvimento tecnológico. Hoje, permite testar ideias mais rápido, otimizar processos complexos e explorar soluções que seriam impossíveis com métodos tradicionais.

Na Sigma, isso é particularmente evidente: utilizamos IA para melhorar o controlo da eletrónica de potência, aumentar a eficiência dos sistemas e aproximar a disponibilidade dos equipamentos de 100%, através de modelos inteligentes de manutenção preditiva e análise avançada de dados.

Mas há uma dimensão ainda mais profunda. A IA está a alterar a forma como pensamos problemas, como desenhamos produtos e como tomamos decisões. Deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser um novo paradigma de inovação. Permite-nos imaginar soluções que antes não eram possíveis, explorar arquiteturas tecnológicas mais ousadas e acelerar o caminho entre conceito, protótipo e produto industrial. No fundo, a IA democratiza a capacidade de inovar e amplifica o impacto das equipas que têm visão, conhecimento e capacidade de execução.

Depois desta distinção, quais são os próximos desafios que gostaria de concretizar enquanto inovador e que impacto gostaria que o seu trabalho tivesse daqui a cinco ou dez anos?

O próximo grande desafio é transformar a Sigma numa empresa que não apenas acompanha o futuro da mobilidade elétrica, mas que o define. Esta distinção reforça a responsabilidade de continuar a inovar com ambição, rigor e impacto real. Nos próximos anos, quero consolidar aquilo que começámos: transformar investigação científica em produtos industriais robustos, escaláveis e capazes de mudar a forma como carregamos, gerimos e pensamos energia. O objetivo é claro: criar tecnologia que nasce em Portugal, mas que compete nos mercados mais exigentes do mundo.

Daqui a cinco ou dez anos, gostaria que o meu trabalho tivesse deixado uma marca que vá além da tecnologia e seja a prova viva de que Portugal consegue criar empresas deep tech, com visão global e capacidade de execução ao nível das melhores. Mas, acima de tudo, quero que o impacto seja humano: inspirar jovens engenheiros, investigadores e empreendedores a acreditar que é possível construir tecnologia transformadora a partir de Portugal, competir globalmente e criar empresas que elevem o país.

Acredito que, no futuro, os investidores verão estas ações como um exemplo de como a visão, a engenharia e a determinação podem transformar uma ideia nascida na academia numa empresa tecnológica com impacto global.

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