Portugal já não discute se precisa de inovar. Discute se consegue, finalmente, fazer da inovação um motor de escala e de execução. Na Casa da Música, no Porto, o lançamento da 4.ª edição do Prémio Nacional de Inovação (PNI), uma iniciativa organizada pelo Negócios, BPI e Claranet Portugal, funcionou menos como uma cerimónia de gala e mais como um raio X a um país que aprendeu a gerar projetos, mas que continua a falhar no salto para a produtividade, para a integração nas cadeias de valor. Houve um consenso. O país está muito melhor que há 15 anos e fez uma evolução assinalável, mas chegou a um ponto em que tem de crescer criando mais valor. E isso exige parceria entre empresas e setores, precisamente porque falta escala. É preciso unir esforços e tratar a inovação como um processo, de forma sistemática e com execução.
Aliás, na abertura, Diana Ramos, a diretora do Jornal de Negócios, sublinhou precisamente que o PNI “já é mais do que um prémio”, é um espaço de referência para debater a capacidade do país em transformar talento, tecnologia e criatividade em serviços com escala económica. Falou de um mundo “mais bélico e mais instável” e reforçou que o reforço da competitividade e da capacidade industrial à boleia da inovação deixou de ser uma questão de agenda para se tornar “um imperativo de soberania”. O ponto de viragem, avisou, “já não é o número de startups nem a quantidade de tecnologia disponível no ecossistema; é a capacidade de traduzir essa base em escala industrial e exportadora.”
Do lado da banca, a leitura foi semelhante. Afonso Eça, administrador do BPI, lembrou que é a quarta vez que o banco se associa ao prémio e assumiu que a inovação passou a ser vista como motor da produtividade e do crescimento económico em Portugal. Disse que, "sem crescimento, tudo se torna mais complicado” e que a inovação ganhou finalmente destaque no dia a dia, com mais pessoas a discutir o tema e a integrá-lo na agenda das empresas. Mas deixou um aviso. “O dia do lançamento é o mais fácil, o que custa é o trabalho que se segue, tanto do lado dos organizadores, que têm de dar visibilidade ao prémio e convencer empresas a candidatarem-se, como do lado das próprias empresas, que precisam de coragem para investir tempo nas candidaturas, expor projetos e correr o risco de ganhar o prémio”.
Alexandre Ruas, managing director da Claranet Portugal, reforçou essa ideia de coragem e de dinâmica coletiva. Recordou que o PNI foi lançado sem incentivos financeiros, baseado na celebração e no reconhecimento, e que houve dúvidas sobre se isso bastaria para estimular a inovação. Hoje, com o crescimento das candidaturas, considera que a aposta valeu a pena. “Às vezes, o simples facto de trazermos temas a debate já faz com que ganhem maior relevância nas empresas”. Fez questão de sublinhar a importância do consórcio alargado que se juntou ao prémio e defendeu que, na inovação, a dinâmica coletiva é “absolutamente crítica” para passar de iniciativas isoladas a um verdadeiro sistema de inovação.
Da gala ao laboratório
Se a primeira parte da manhã tratou de mostrar como o prémio se consolidou como barómetro do ecossistema, o momento do knowledge partner, a Nova SBE, mostrou o passo seguinte, transformar reconhecimento em conhecimento estruturado. Pedro Brito, associate dean da Nova SBE e CEO da escola de executivos da Nova SBE, assumiu que a inovação “só transforma verdadeiramente o país quando deixa de ser um prémio e passa a ser aprendizagem estruturada”. Foi daí que nasceu a decisão de selecionar sete empresas vencedoras da edição anterior para se tornarem casos de estudo académicos.
Esses casos vão ser acompanhados pela direção académica e por executivos em programas de mestrado, para criar casos de estudo que vão parar à biblioteca da escola e em salas de aula, e que fiquem disponíveis também na própria plataforma do PNI. Na prática, o prémio passa a gerar matéria-prima para um ciclo virtuoso. As empresas inovam, são reconhecidas, são estudadas, tornam-se referência e inspiram outras a inovar. Pedro Brito chamou a isso “produtividade com inteligência coletiva” e lembrou que, num país onde se discute recorrentemente a falta de escala, de produtividade e de conhecimento, este tipo de ciclo pode ser mais transformador do que um palco e uma fotografia.
O dirigente insistiu ainda na necessidade de romper com uma lógica de trabalho em silos. O salto para a economia portuguesa só acontece, defendeu, “quando o prémio não termina na gala, quando o reconhecimento não termina na fotografia e quando a inovação não termina no pitch”. A responsabilidade estende-se à academia, que deve integrar estes casos nos currículos e nos frameworks de liderança, e aos decisores públicos e privados, que têm de refletir estas aprendizagens nas decisões de investimento e nas estratégias de criação de valor.
O keynote do evento foi realizado por Rui Lobo, diretor da Tekever para Portugal e Europa do Sul, e centrou-se na inovação na defesa e na segurança. A empresa, que desenvolve sistemas aéreos não tripulados e soluções de vigilância assentes em inteligência artificial, mostrou como Portugal conseguiu construir capacidades em segmentos como drones e sistemas autónomos, hoje testados em missões de fronteira e em cenários de conflito. Ao mesmo tempo, a apresentação expôs as típicas dores da inovação neste campo, da relação com os reguladores ao escrutínio ético sobre o uso da tecnologia, num contexto no qual a linha entre proteção e agressão é particularmente fina.
O salto que falta. Burocracia, capital e cultura de risco
Os dois debates que se seguiram permitiram transformar as histórias individuais num diagnóstico mais sistémico. No primeiro painel, dedicado à produtividade e tecnologia, João Falcão (BPI), Paulo Reis (FI Group), Philomène Dias (AICEP), Marlos Henrique da Silva (Sonae MC) e Pedro Coelho (HP) convergiram na ideia de que Portugal não tem um problema de ideias nem de tecnologia de base. Tem, sim, um problema de escala, de tempo de execução e de condições de contexto. A burocracia e a fragmentação de instrumentos públicos surgiram como obstáculos recorrentes, com os gestores a queixarem-se de processos morosos, formulários complexos e multiplicação de requisitos que consomem recursos internos que deveriam estar focados em produto, mercado e internacionalização.
O financiamento foi o segundo travão apontado. Apesar da abundância aparente de instrumentos europeus e nacionais, vários intervenientes sublinharam a dificuldade em transformar esse dinheiro potencial em capital efetivo para escalar projetos, sobretudo numa fase intermédia entre a prova de conceito e a industrialização. A ausência de um mercado de capitais mais desenvolvido para empresas inovadoras e a aversão ao risco continuam a empurrar muitos projetos para ciclos de financiamento longos e pouco eficientes. Numa economia marcada por PME, a discussão sobre incentivos fiscais, partilha de risco e simplificação de mecanismos foi constante.
Houve também uma crítica à cultura dominante de risco. Vários intervenientes falaram da dificuldade em aceitar o erro como parte inevitável da inovação e da tendência para valorizar histórias de sucesso acabado em detrimento de trajetórias experimentais. Em termos práticos, isto significa que muitas organizações continuam a preferir não avançar com projetos transformadores para evitar falhas visíveis, mesmo quando a tecnologia e o talento estão disponíveis. A escassez de talento em áreas como inteligência artificial, ciência de dados, cibersegurança ou automação industrial foi outro ponto sensível, com referências à competição internacional por perfis técnicos e à necessidade de alianças entre empresas e academia para formar e reter pessoas.
No segundo debate, centrado nos novos setores estratégicos, a discussão entre Sílvia Garcia, adminstradora da ANI – AI2, Ana Almeida Simões, administradora da Via Verde, Ana Casaca, diretora de Inovação, Sérgio Silvestre, diretor de Inovação da Claranet Portugal, e Rui Coutinho, Chief Innovation Officer da MEXT: Mota-Engil Next, deslocou-se para o mapa de oportunidades. Os intervenientes defenderam que Portugal tem condições para se afirmar em nichos específicos de transição energética, economia circular, mobilidade inteligente, água, aeroespacial e serviços digitais exportáveis. Mas, novamente, a questão da escala apareceu como condição crítica: os projetos existem, os pilotos multiplicam-se, mas falta o empurrão que permita transformar casos de referência em indústrias consistentes, com cadeias de valor integradas e presença internacional.
“Inovação como política de cidade”
Na nota de encerramento, a vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, Catarina Araújo, sublinhou que a inovação deixou de ser apenas uma agenda de empresas para se tornar também uma responsabilidade dos territórios. Recordou que o Porto tem procurado posicionar-se como cidade laboratório, aberta a projetos que testem novas soluções em áreas como mobilidade, energia, água ou serviços urbanos, e defendeu que o poder local tem de “criar contexto” para que essas experiências ganhem escala.
A autarca elogiou o facto de o Prémio Nacional de Inovação ter escolhido a Casa da Música para lançar a 4.ª edição, vendo nisso um sinal da ligação entre cultura, conhecimento e economia. E deixou um apelo final às empresas e instituições presentes: que usem o prémio não apenas como palco, mas como ponto de partida para parcerias concretas com o território, “porque a inovação que interessa é a que melhora a vida das pessoas nas cidades onde elas vivem e trabalham”.
Candidaturas abertas ao Prémio Nacional de Inovação
A inovação continua a ser um motor de competitividade e o Prémio Nacional de Inovação regressou em 2026. As candidaturas abriram no passado dia 4, data em que arrancou oficialmente a quarta edição do PNI. A iniciativa distingue organizações e projetos que, através da criatividade e da tecnologia, reforçam a produtividade, promovem o desenvolvimento sustentável e contribuem para uma economia mais resiliente e preparada para o futuro. Mais informações no site da Iniciativa.