Quarenta vezes menos metotrexato por mês. Ou seja, uma dose muito mais baixa de um dos medicamentos mais usados no tratamento da artrite reumatoide, administrada de forma mais dirigida às células envolvidas na inflamação. É este um dos números que ajuda a perceber a ambição do FBL-MTX, a tecnologia desenvolvida pela Solfarcos Soluções Farmacêuticas e Cosméticas e vencedora da categoria Sustentabilidade e Impacto Social do Prémio Nacional de Inovação.
A história começou, porém, bastante antes. Em 2008, a União Europeia abriu financiamento específico para o desenvolvimento de sistemas baseados em nanotecnologia destinados ao diagnóstico e à terapêutica de doenças crónicas complexas. Foi a partir dessa oportunidade de financiamento que o grupo de investigação do professor Artur Cavaco Paulo, da Universidade do Minho, decidiu centrar o trabalho na artrite reumatoide.
A opção respondia a uma necessidade clínica concreta. O metotrexato continua a ser um dos pilares do tratamento da doença, mas a forma como é distribuído pelo organismo pode limitar os benefícios e contribuir para efeitos adversos que dificultam a continuidade da terapêutica. “Tratando-se de uma doença inflamatória crónica, com forte impacto na qualidade de vida e necessidade de terapêutica prolongada, a artrite reumatoide apresentava-se como uma indicação particularmente relevante para explorar o potencial da nanotecnologia”, explica Eugénia Nogueira, HR & Operations director da Solfarcos. O objetivo passava por melhorar a entrega do fármaco, reduzir a exposição sistémica e aumentar a eficácia terapêutica.
Fazer o medicamento chegar onde é preciso
Eugénia Nogueira explica que a tecnologia recorre a lipossomas, pequenas partículas constituídas por lípidos semelhantes aos das membranas celulares, que transportam o metotrexato no seu interior. A inovação está também no folato, uma forma de vitamina B9, incorporado à superfície desses lipossomas para favorecer a ligação às células envolvidas no processo inflamatório. Segundo a responsável, nos doentes com artrite reumatoide os macrófagos ativados apresentam níveis mais elevados de recetores de folato, permitindo que este funcione como um elemento de reconhecimento e ajude a direcionar o medicamento para essas células. “Desta forma, uma maior proporção do metotrexato é entregue nas células envolvidas no processo inflamatório, em vez de se distribuir indiscriminadamente pelo organismo”, descreve Eugénia Nogueira. “O objetivo é concentrar o efeito terapêutico onde é necessário, com menor exposição sistémica”.
É precisamente essa capacidade de direcionamento que, segundo a responsável, permite reduzir em 40 vezes a dose mensal de metotrexato. A menor quantidade de fármaco poderá ser acompanhada por administrações mais espaçadas, maior eficácia e menor toxicidade sistémica. “A possibilidade de reduzir a frequência de administração e minimizar efeitos adversos sistémicos poderá traduzir-se numa maior adesão terapêutica e na recuperação da capacidade funcional de uma população em idade ativa”, salienta. A empresa associa ainda esse efeito a uma possível redução do absentismo laboral e da carga sobre os cuidadores.
Os dados clínicos disponíveis são, para já, encorajadores. O FBL-MTX encontra-se a concluir a fase IIa, num estudo que envolveu 28 participantes. A recolha de dados do último doente está a terminar e os resultados obtidos até agora, adianta Eugénia Nogueira, têm sido “muito positivos e encorajadores”.
Segundo a responsável, nas doses testadas a formulação apresentou elevada tolerabilidade, com eventos adversos maioritariamente ligeiros, autorresolúveis e sobretudo associados ao local da injeção. Explica ainda que uma das diferenças face ao metotrexato convencional está no perfil de absorção: os picos de concentração plasmática podem estar associados a efeitos adversos que afetam o quotidiano dos doentes e comprometem a adesão ao tratamento.
No FBL-MTX, esclarece, procura-se precisamente evitar esses picos e conseguir uma libertação prolongada. “Este perfil de absorção traduz-se numa tolerabilidade superior**, o que melhora significativamente o conforto e a experiência terapêutica do doente e reduz** os custos indiretos associados ao tratamento”.
Outro dos desafios foi garantir que a formulação se mantinha estável ao longo do tempo. Segundo Eugénia Nogueira, a Solfarcos conseguiu ultrapassar os quatro anos de estabilidade, um resultado que considera “especialmente relevante” para assegurar a futura produção, armazenamento e utilização da tecnologia. “Não se trata apenas de administrar um medicamento, mas de procurar fazê-lo chegar de forma mais seletiva ao local onde é necessário atuar”, resume.
O caminho até ao mercado ainda exige, contudo, várias etapas. Depois da conclusão e análise desta fase do ensaio clínico, a empresa terá de avançar para novos estudos, incluindo ensaios com mais doentes, e garantir que a tecnologia mantém as mesmas características quando for produzida em maior escala.
A conta do SNS
A sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde não aparece por acaso no nome completo do projeto. A Solfarcos acredita que melhorar a tolerabilidade de uma terapêutica de primeira linha poderá ter consequências económicas para o sistema de saúde. Quando o tratamento convencional deixa de funcionar ou não é tolerado, os doentes podem avançar para terapias biológicas. Segundo a empresa, os encargos destas soluções podem ser cerca de dez vezes superiores aos das terapêuticas convencionais.
É aqui que o FBL-MTX poderá ganhar uma segunda dimensão. Caso os resultados clínicos confirmem o potencial identificado, manter durante mais tempo uma terapêutica de primeira linha eficaz e bem tolerada poderá atrasar a necessidade de progressão para soluções mais dispendiosas. “Assim, o contributo para a sustentabilidade do SNS é significativo”, defende Eugénia Nogueira. A tecnologia poderá contribuir para “uma utilização mais racional dos recursos do SNS”, reduzindo não apenas os custos da terapêutica, mas também os encargos hospitalares relacionados com monitorização intensiva e internamentos evitáveis associados a crises inflamatórias ou intolerância medicamentosa.
Eugénia Nogueira salienta que a Solfarcos tem financiado o desenvolvimento do projeto através do reinvestimento integral dos resultados obtidos na atividade cosmética em investigação e desenvolvimento. Segundo a responsável, este modelo tem permitido avançar autonomamente para fases clínicas mais exigentes, criar competências nas áreas de desenvolvimento farmacêutico, produção e regulação e reforçar a equipa com recursos humanos especializados.
Mas as necessidades financeiras vão aumentar significativamente nas próximas etapas, diz. “Estamos a avaliar estrategicamente a melhor rota de exploração e a estabelecer as parcerias certas para assegurar que esta tecnologia chega efetivamente aos doentes com a máxima segurança e eficácia, mantendo todas as hipóteses em aberto”, adianta Eugénia Nogueira.
A empresa conta também com o apoio da Bluepharma para aprofundar a caracterização da formulação e afirma ter recebido sinais de interesse de farmacêuticas multinacionais, além da validação de doentes, reumatologistas e da associação ANDAR.
Uma plataforma para além da artrite
Eugénia Nogueira acredita que a tecnologia desenvolvida no FBL-MTX poderá ter aplicações para além da artrite reumatoide. A responsável aponta como possibilidades a osteoartrite, algumas doenças inflamatórias intestinais e determinados tipos de cancro, áreas onde o mesmo mecanismo de direcionamento poderá vir a ser explorado. Adianta ainda que a plataforma poderá ser adaptada para transportar outras moléculas com problemas de biodisponibilidade ou cuja utilização esteja associada a efeitos adversos, funcionando como veículo para diferentes fármacos.
Quanto ao Prémio Nacional de Inovação, Eugénia Nogueira considera que a distinção “é a validação do rigor científico e do esforço contínuo de uma equipa que acredita ser possível inovar em Portugal na área da biotecnologia farmacêutica”, afirma. O prémio, acrescenta, reforça a credibilidade da tecnologia junto da comunidade médica e de potenciais investidores e “dá o alento necessário para enfrentar as fases complexas que se seguem”.
Sobre os próximos passos, a responsável explica que a prioridade passa por concluir a análise dos dados da fase IIa, preparar os estudos regulamentares e os ensaios clínicos seguintes e garantir que a tecnologia mantém as suas características quando produzida em maior escala. A ambição de longo prazo, diz, é levar o FBL-MTX ao mercado global. “Queremos transformar este projeto numa realidade terapêutica que mude o paradigma do tratamento da artrite reumatoide”. No fundo, “mais do que desenvolver uma tecnologia inovadora, queremos transformá-la numa solução terapêutica capaz de fazer uma diferença concreta na vida das pessoas com artrite reumatoide”.