[250.] Mais automóveis

Mas todos os carros agora metem água? Não, há outros que metem flores, vento, paisagem, ar fresco. Estes automóveis não querem dizer que poluem porque o consumidor hoje oscila entre o activista do ambiente e o que tem complexos de culpa pelo seu contribut

Há uma semana analisei anúncios que usavam a água para simbolizar uma simbiose dos carros com o ambiente. O êxtase foi a campanha do “submarino” Mazda nadando lentamente no fundo do mar. Entretanto, apareceram-me mais dois reclames actuais recorrendo à mesma simbologia líquida. O novo Jaguar apresenta-se num belo anúncio de duas páginas todo em tons azuis. O único elemento exterior que se vê numa das imagens é a água que o carro salpica. E em volta do automóvel surgem revérberos de grandes pingos que se repetem nas outras duas fotografias. O azul contagia a cor do próprio carro. O luxo costuma apresentar-se a preto e branco, mas aqui há apenas preto e azul: em vez do chique de antigamente surge um chique que salva o ambiente.

Até os seguros Generali + Audi se renderam à água e ao azul, mostrando um retrovisor molhado no qual se espelha, qual anjo da guarda, o leão do símbolo da seguradora. E tudo em azul. O Audi A3 apresenta-se numa paisagem aquática, como o Volvo da semana passada. Está junto de uma parede de pedra geométrica, sobre o cascalho, como o Volvo, mas à beira--mar. Num reclame do Audi A6 há uma promessa de mar ao longe, depois da cidade, e há céu e verde. Os BMW Série 3 Dynamic preferiram uma paisagem aberta, vazia, para lá da estrada em que rola o carro. No anúncio do Land Rover Discovery 3 a paisagem nua ganhou umas vaquinhas do lado direito para corresponder à narrativa da “dona” do 4x4, uma professora que escreveu uma redacção sobre a foto contando que dá aulas na aldeia e acaba por dar boleia a seis miúdos. Que os professores dão boleia a alunos nas aldeias portuguesas é caso comprovado, agora que o façam em Land Rover, isso já levanta algumas dúvidas. Talvez lá cheguem um dia com recibos verdes, amigos do ambiente. É o que dá transpor um anúncio de narrativa australiana para cá dos nossos montes.

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O anúncio do Ford Fiesta é outro que se deixa dominar pelo azul e diz mesmo “Ser amigo do ambiente custa pouco. Ter um Fiesta também.” Este é o único reclame falando em “combater o aquecimento global”. O carro tem tantas vantagens que “ser amigo do ambiente compensa”. O mesmo discurso atinge um anúncio da Opel em que, “em nome do ambiente”, se diz que os carros da marca “já são equipados de série com filtro de partículas”, permitindo uma redução no IA. A amizade da Opel pelo ambiente é tal que ao símbolo da marca se associa um símbolo “Ecoflex” com uma árvore em que a copa, de ramagens verdes, tem o formato de um automóvel. Aqui o azul foi substituído pelo verde, cor directamente associada ao ambiente. Num anúncio do Peugeot 207 Open, o verde enche o fundo, mas o que fornece ar fresco da natureza são os desenhos psicadélicos em torno do carro sugerindo flores, ramos, aragem. A esta poesia visual junta-se a do texto: na vida quase tudo de bom “está por abrir”, como “uma simples flor, uma janela, os mais vastos horizontes, um desafio, as asas” e o Peugeot claro. Se o Hyundai Santa Fé 7 Wagon Platinum se mostra num anúncio todo azulado, já o Hyundai Getz First Plus não promete salvar o mundo: escolheu o encarnado da paixão juvenil para ilustrar o seu anúncio, mas em redor do carro há também uma sugestão de floreados psicadélicos mais próximos de me fazer respirar ar puro do que ar poluído. Caso diferente é o do Honda Civic Hybrid “Concebido para proteger a natureza”, por ter um motor a gasolina e outro eléctrico: o carro apresenta-se de lado como num túnel de vento onde o ar em movimento são folhas verdes, flores e borboletas.

Podemos ficar embriagados com tanto ar puro. Mas o Seat Altea XL 1.4 TSI não vai nessa. Só para chatear, o carro do anúncio está no -1 de uma garagem baixinha, daquelas onde não nos podemos esquecer do CO2 produzido pelos carros.

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