[301.] Comissão Europeia - Eleições para o Parlamento Europeu
José Pacheco Pereira escreveu no seu blogue Abrupto que a publicidade ou propaganda política da Comissão Europeia às próximas eleições do Parlamento Europeu é uma “inadmissível ingerência na política nacional em período eleitoral”. Segundo o comentador e antigo deputado pelo PSD, os cartazes escolhem pelos eleitores porque tomam partido por eles no tipo de questões que levantam.
Um dos cartazes pergunta: “Que controlo para os mercados financeiros?” O resto do texto sugere que a resposta é do eleitor (“a escolha é sua”) se seguir o conselho de votar nas eleições de Junho para o Parlamento Europeu. As mesmas respostas escritas surgem nos cartazes com as perguntas “Como cultivar os nosso alimentos?”, “Quando é que a segurança é excessiva?”, “Que tipo de energia queremos?”, etc.
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Pacheco Pereira questiona o facto de os cartazes optarem por uma agenda política própria, que exclui, portanto, outras agendas e outras questões, a começar pelas dos partidos eurocépticos e dos que “tenham uma visão diferente da construção da Europa”. De facto assim é. A Comissão Europeia toma partido nos cartazes pelo “centrão” europeu, deixando de lado, em especial, as posições minoritárias. Para se ter uma ideia do que significa este tipo de propaganda eleitoral basta pensar no que significaria um Governo português promover cartazes apelando ao voto com base em temas eleitorais do interesse do partido ou dos partidos que formassem esse executivo. Há um claro abuso nestes cartazes, pois à Comissão caberia apenas apelar ao voto e não apelar ao voto com base numa agenda concreta do seu interesse.
Mas Pacheco Pereira deixou escapar um aspecto fulcral da campanha. É que, ao contrário do que parece, os cartazes apresentam de facto respostas às perguntas. Essas respostas não estão escritas, mas estão representadas por imagens. A Iinguagem das imagens é menos notada do que a das palavras e tem menos âncoras de sentido, daí que passe despercebido o facto de os cartazes orientarem as respostas às suas perguntas para determinadas opções.
Um exemplo claro é o da pergunta “Que controlo para os mercados financeiros?” A imagem mostra um leão e um gato. O cartaz sugere a resposta politicamente correcta em tempos de Madoffs, BPNs e BPPs: o regulador deve ter poderes como os do rei da selva.
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O cartaz “Que tipo de energia queremos?” mostra quatro opções: nuclear, gás, solar ou eólica. Opções como a energia hídrica não constma. O cartaz sobre a informação ao consumidor nas embalagens só põe a hipótese de nenhum ou muitos autocolantes, neste caso a tapar o frango da imagem. O cartaz sobre o excesso de segurança coloca lado a lado uma câmara de vigilância, uma impressão digital e um polícia, dando os três como adquiridos, havendo apenas que definir o excesso.
Onde a Comissão se denuncia é nas três maçãs simbolizando as hipóteses de cultivo dos alimentos: dizem “Bio”, “normal” e “geneticamente modificada”. As maçãs são idênticas, os publicitários propagandistas precisaram de recorrer a palavras. E, assim sendo, a linguagem tornou-se cristalina. A Comissão Europeia toma claramente partido pela opção do meio (é no meio que está a virtude): considera que o método de cultivo melhor é o “normal”, isto é, com químicos (herbicidas, fungicidas, etc.) e não por processos biológicos ou por alteração genética. Para a Comissão Europeia, os químicos são o “normal”, portanto é o que está certo. Isto é uma clara tomada de posição, que pode estar contra partidos concorrentes que defendam (as) outras opções.
Os cartazes foram fabricados para parecerem não tomar posição, mas tomam-no duas vezes: nas questões que levantam (excluindo todas as outras) e nas respostas sugeridas e como as sugerem. É uma campanha infeliz por partir duma entidade, neste caso o topo da burocracia da UE, que não deveria tomar partido.
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