[302.] PS, CDU, BE

O PS foi o primeiro a colar outdoors das eleições europeias. O cartaz tem duas mensagens claras e uma escondida. Promove claramente o cabeça de lista, Vital Moreira, através da sua foto, assinatura e nome, e o slogan é decididamente europeu , ocupando uma parte significativa do espaço.

O PS foi o primeiro a colar outdoors das eleições europeias. O cartaz tem duas mensagens claras e uma escondida. Promove claramente o cabeça de lista, Vital Moreira, através da sua foto, assinatura e nome, e o slogan é decididamente “europeu”, ocupando uma parte significativa do espaço. As cores escolhidas indicam tratar-se de uma eleição diferente: o azul do Parlamento Europeu ocupa mais de dois terços do fundo; o vermelho dos socialistas ocupa apenas a parte esquerda, “atrás” de Vital Moreira. Pode interpretar-se assim: Moreira leva o vermelho da esquerda para o PE.

O fundo colorido não é uniforme. Os autores optaram por zonas geométricas mais ou menos “iluminadas”, como se estivessem sob focos de luz. Essa modulação do fundo dá profundidade e movimento ao cartaz, que é no resto muito “formal” e estático, como costumam ser os cartazes de apresentação dos candidatos.

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Vital Moreira apresenta-se confiante; o ligeiro contrapicado dá-lhe uma superioridade sobre o observador; a ausência de gravata confere uma informalidade ligeira, mas a camisa branca e o blaser mantêm um formalismo estrutural.

A frase lapidar “Nós, Europeus” é bem intencionada politicamente, ao pretender valorizar o europeísmo, mas permite interpretações negativas: um paroquialismo, resultando de uma lembrança da Europa apenas quando há eleições; uma hiperbolização eleitoralista da condição europeia dos portugueses; a implicação de um adversário implícito, dado que onde há um “nós” há um “eles”.

Um aspecto essencial do cartaz é o apagamento do Partido Socialista: não há nele um único sinal partidário. Quem desconheça Moreira poderá identificar o cartaz com qualquer outro partido. O cartaz valorizou absolutamente o cabeça de lista pela foto, assinatura em grande destaque e nome em baixo. O PS aparenta não estar convencido de que a sua presença nos cartazes seja positiva para os resultados eleitorais, pelo que entrega o seu destino eleitoral ao cabeça de lista.

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A CDU, isto é, o PCP com o PEV a reboque, segue o caminho contrário: valoriza o seu nome e o seu logótipo nos cartazes de rua. O nome da coligação entra no próprio slogan: “No Portugal e na Europa CDU faz toda a diferença”. Também a CDU personaliza a campanha com a foto da cabeça de lista, Ilda Figueiredo, em destaque, mas não o suficiente para diminuir o impacto dos referentes partidários nos cartazes.

Enquanto o PS omite nos cartazes a dimensão nacional das eleições, a CDU não só coloca Portugal antes da Europa no slogan como acrescenta um rodapé enumerando temas eleitorais: emprego, salários, justiça social e soberania. Ao contrário do cartaz do PS, as cores deste são baças. Domina o azul claro, afastando do pensamento do observador o vermelho do comunismo. A nota patriótica surge numas fugazes serpentinas, uma verde, outra encarnada, que se movimentam em torno do slogan.

O Bloco de Esquerda não mostra o seu cabeça de lista, Miguel Portas; parece não confiar no seu apelo eleitoral. Prefere apresentar Durão Barroso e José Sócrates abraçando-se. Esse abraço simboliza a promoção europeia de Sócrates por Barroso, concretizada na frase de Sócrates “Porreiro, pá”, depois de alcançado o acordo de Lisboa. O BE diz agora “Porreiro para quem, pá? Quem nos meteu na crise não nos tira dela”. A linguagem coloquial está bem usada, pois, tendo partido do primeiro-ministro, adequa-se ao público-alvo do Bloco. Ao mesmo tempo, a frase coloca o “porreiro” em perspectiva histórica, servindo para apreciar a governação de Sócrates e, por arrasto, a de Durão Barroso (em Portugal e na Comissão Europeia). O ligeiro travo a demagogia que se solta deste cartaz prossegue na assinatura “Europa de Coragem - Bloco de Esquerda”, em que a ideia de “coragem” é uma mera emotivação sem conteúdo. Todavia, este cartaz tem mais impacto (é mais publicitário, portanto) do que os cartazes caretas do não-PS (de Vital Moreira) e do não-PCP (da CDU). O BE tem mais ousadia na comunicação, o que lhe acrescenta eficácia.

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