À beira do caos
A teoria de que é à beira do caos que as coisas acontecem, nasceu das ciências da vida e por contágio invadiu outras disciplinas. Quando o ambiente sofre grandes alterações e a vida se torna instável a evolução tende a acelerar. Os que mudam rápido têm mais hipóteses de sobrevivência.
Extrapolar os mecanismos biológicos para a sociedade humana é sempre um risco. Se, por um lado, somos dominados pelos mesmos princípios genéticos que regem os outros organismos, nós temos a cultura, a nossa própria natureza, que, frequentemente, baralha os pressupostos. De qualquer modo, e já que estamos mesmo à beira do caos, é pertinente usar esta analogia. Ou seja, alguma coisa vai ter de acontecer ou perecemos.
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O caos vai emergindo da conjuntura internacional, agravado pelo facto de o governo que nos calhou não conseguir, nem querer, ser mais do que um mero aluno. Sucede que os seus professores são maus e ensinam coisas erradas. Toda a gente já o percebeu.
O estado entrou numa lógica de assalto. Nunca tendo sido uma pessoa de bem, é agora claramente um malfeitor. Todos os limites foram ultrapassados. O aumento sistemático dos impostos, leva à destruição da economia do país.
A única forma de resolver o problema passa pela redução drástica da despesa do estado. Todos a exigem, mas não se faz. Enquanto os impostos sobem brutalmente, a despesa desce com parcimónia. Isto deve-se à natureza do sistema. Para o fazer é preciso despedir milhares de funcionários públicos e acabar com muitas das funções do estado. Não basta despedir. Cada funcionário público não consome só o seu ordenado, mas, na sua atividade quotidiana, gera outras despesas e, muitas vezes, bloqueia o desenvolvimento e a livre iniciativa. Reduzir a despesa é, necessariamente, reduzir o próprio estado. O que, poucos políticos, da direita à esquerda, estão dispostos a fazer.
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Voltando ao modelo biológico, a consequência frequente de tais impasses é a extinção. Já sucedeu várias vezes ao longo da história da vida no planeta Terra. Não é uma comparação tão extravagante como parece. Estamos a assistir a extinções em massa. De empresas que não conseguem adaptar-se às condições de declínio económico. Da própria classe média que caminha a passos largos para a miséria. E, também, de profissões que perdem relevância num tempo em que tudo muda por via da inovação tecnológica. Podemos mesmo caracterizar este período da nossa história, como o de uma extinção generalizada de atividades e modos de vida.
Vai por isso ser preciso mudar, acelerar a evolução. O regresso ao passado, a sobrevalorização das tradições, a ideia de que antigamente é que era bom, pode sossegar algumas consciências mais conservadoras, mas só aprofunda a catástrofe. Só nos turva a mente e nos impede de ver claro. Há, pelo contrário, que empreender uma fuga para a frente. O que implica superar o sistema político e económico que não só gerou esta situação, como não tem solução para ela.
O descrédito absoluto em que entraram o regime político e os principais agentes económicos são o primeiro sintoma de que algo está em formação. As alternativas ainda não surgiram, mas as condições para que elas apareçam estão plenamente reunidas. Podem não ser as melhores soluções, é mesmo provável que não o venham a ser. O ambiente para o aparecimento de novos partidos populistas, por exemplo, nunca foi tão favorável. A adesão a discursos radicais, à esquerda e à direita, também. A política tem horror ao vazio. E o vazio está instalado.
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É ainda de esperar um aumento da violência. Nunca se deve encurralar uma fera. E o povo está enfurecido e colocado num beco sem saída. Por agora são gritos, insultos e cânticos. O suficiente para meter medo aos cobardes, que já só se deslocam com escolta policial. Mas um dia destes poderá ser algo de mais substancial. Sempre me pareceu que estas gentes pacatas, que se diz serem os portugueses, escondem um enorme potencial de brutalidade.
Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.
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