Leonel Moura
Leonel Moura 23 de março de 2017 às 21:04

Carne podre

A ingestão de carne está na origem de muitos dos mais graves problemas de saúde como o cancro, a diabetes ou os ataques cardíacos. O uso excessivo de antibióticos nos animais acaba no organismo de quem os ingere, resultando na crescente resistência bacteriana.

No futuro seremos vistos como muito primitivos. Os nossos descentes reconhecerão a imaginação e a criatividade, capaz de inventar o computador e viajar pelo espaço, mas não deixarão de notar que ao mesmo tempo somos extremamente agressivos, passamos o tempo em violências e guerras, mas sobretudo temos um enorme desprezo pela restante vida.

 

Imagino que no futuro olharão para nós como hoje vemos os romanos. Notáveis na organização, na criação de leis e na arquitetura, mas divertindo-se a ver pessoas devoradas por leões ou massacradas na arena.A forma como tratamos os outros animais não será esquecida no futuro. Vistos como objetos que podemos maltratar e massacrar sem remorso, são usados para os mais abjetos fins. Desde o divertimento à romana, com as touradas, as corridas ou o circo, à caça, verdadeiro desporto de sádicos assassinos, até lhes tirarem a pele para fazer casacos para as senhoras ou os torturarem diabolicamente nos laboratórios para garantir que o champô não arde nos olhos das criancinhas. Tudo com a ajuda dos veterinários, essa profissão que existe para legitimar o mau trato dos animais e não, como certos jovens inocentes imaginam, para os defender. Os veterinários são os Dr. Mengele desta história.

 

Mas é certamente a indústria da carne, pelo número de animais afetados e pelo requinte de malvadez, que mais nos deve chocar. Estamos a falar de atividades de uma brutalidade e desprezo pela vida animal impressionantes. Tão impressionantes que a maioria das pessoas, na hora de comprar o seu bife, não quer ver, não quer saber. Aliás, e já que estamos nas comparações, ocorre-me o que sucedeu com os campos de concentração nazis. Muita gente tinha notícia do que se passava, mas não queria saber, não queria ver. Hoje damos conta dos campos de extermínio quando passa por nós um camião carregado de animais para abate. A vasta maioria olha para o lado.

 

Animais que nasceram, viveram metidos em pequenas gaiolas apertadas, foram alimentados com rações cheias de porcarias, drogas e químicos, levados para a morte em transportes abafados, mortos brutalmente, esquartejados enfim por carniceiros a lembrar filmes de terror. Depois entram na cadeia de produção e distribuição. Onde vão apodrecendo. Sim porque toda a carne que comemos está podre, já que o processo de decomposição se inicia logo após a morte. A questão é saber se está pouco ou muito podre, para o que existem fiscais. A considerada pouco podre deve ser cozinhada. Para matar as bactérias e dar gosto à podridão. Os bifes podres do Brasil não são a exceção são a norma.

 

Não fomos feitos para comer carne. Não temos dentadura nem estômago apropriados. O homem da chamada Idade da Pedra era vegetariano. Depois, a ingestão de carne deu uma vantagem competitiva a alguns grupos, tornando-os mais fortes e agressivos. Hoje uma parte significativa da população come carne todos os dias. Não sem danos colaterais.

 

A ingestão de carne está na origem de muitos dos mais graves problemas de saúde como o cancro, a diabetes ou os ataques cardíacos. O uso excessivo de antibióticos nos animais acaba no organismo de quem os ingere, resultando na crescente resistência bacteriana. Acresce que esta é uma indústria altamente poluente. A produção de carne é responsável por uma elevada percentagem das emissões de gases nocivos ao ambiente.

 

Por tudo isto, desde logo por uma questão ética, o número de vegetarianos tem vindo a aumentar, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Um dia seremos civilizados.

 

Artista Plástico

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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