Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 28 de Novembro de 2008 às 14:26

Cultura do conhecimento

Vivemos num tempo de mudança. Na economia com a globalização; na política com o papel determinante dos media e os novos desafios sociais; nas empresas com as novas formas de organização e produção; na vida corrente com uma alteração significativa de paradigmas no trabalho, nos comportamentos, na vivência colectiva.

A cultura, que é afinal o reflexo de tudo isto, também está em mudança. De uma cultura da expressão emocional e do espectáculo estamos a passar para uma cultura do conhecimento. Uma cultura que tem por base o saber e já não tanto as sensações; que gera conhecimento, experimentação e inovação e já não só actos espectaculares.

Aquilo a que chamamos hoje "cultura do conhecimento" não se limita ao estudo, reflexão e representação do saber da nossa época. Isso sempre aconteceu. A cultura sempre foi por definição uma prática erudita, que emana do saber, seja ele empírico ou científico. Falamos de algo que é mais do que isso. Dada a vasta disponibilização do saber, nomeadamente através da Internet e dos meios de comunicação, uma larga camada da população tem agora os meios para passar do simples consumo para a produção directa de cultura. O acesso à experimentação, à realização e à divulgação encontra-se bastante facilitado pelo uso das novas tecnologias e dos novos meios de comunicação. Na prática, toda a gente pode ser um produtor cultural, ao contrário do que sempre aconteceu no passado em que só uma minoria o podia fazer. Ou seja, não estamos já a falar de uma cultura de massas no sentido do consumo, mas de uma cultura de massas no sentido da produção. Muitos actos culturais, produtos criativos e ideias novas emergem agora de gente sem formação específica nem poder económico significativo. É essa a dinâmica da nova cultura do conhecimento e da criatividade.

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Acresce que estas novas práticas são fundamentais para a evolução das sociedades e para a adaptação dos países, regiões e cidades às novas condições económicas e existenciais. As ideias são o petróleo dos nossos dias. Em particular nos pequenos países, como o nosso, só a disseminação de uma cultura do conhecimento e da criatividade pode permitir o desenvolvimento e a modernização.

Aquilo a que usualmente se chama o design vai-se impondo sobre a velha acumulação de capital e a simples transacção de matérias-primas, as quais, como se sabe, não abundam entre nós. Mas mesmo estas, a existirem, e que por cá praticamente se restringem ao excelente clima e condições geográficas, precisam desse acréscimo de valor representado pela inovação para poderem ser melhor exploradas. No caso do Turismo, por exemplo, isso é evidente.

A questão que se coloca é pois saber como passamos da "velha cultura" para a nova. Como criamos as condições para que "toda a gente" se possa tornar criativa e produtora cultural.

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Como em quase tudo, o ensino é fundamental. Mas mais do que remodelar os cursos de formação artística, que por sinal continuam na sua maioria bastante académicos e conservadores, é preciso introduzir uma cultura da criatividade em todos os domínios. A escola deve tornar-se numa fábrica de criatividade independentemente da matéria em questão. Nenhuma profissão ou actividade actual pode progredir sem conhecimento e capacidade de o transformar numa coisa nova.

Mais importante ainda é criar espaço para a experiência e divulgação da inovação. O País foi acumulando equipamentos culturais convencionais, museus, salas de exposição, teatros e salas de concerto, tantas vezes de forma excessiva e com enormes custos, mas tem falta de espaços para a experimentação. Ainda recentemente um amigo, director de um Museu, me contou que reuniu com jovens para lhes perguntar o que gostariam mais de ver exposto, ao que estes responderam que preferiam algo para fazer.

Um enorme contributo para a nova cultura seria pois reconverter muitos dos actuais equipamentos culturais, tantos deles sem actividade relevante, em verdadeiros laboratórios de conhecimento e criatividade. Em particular muitas autarquias teriam toda a vantagem em o fazer. Ajudaria a fixar os jovens, gerar novas empresas, actividades e uma nova dinâmica cultural.

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