Desassombros
No mundo global, a referência é americana. Os modelos são americanos, os ideais são americanos, os valores são americanos, os ícones são americanos, as modas são americanas. A partir de certa altura, o resto do mundo reconheceu, porventura sem plena consciência das implicações, que todos seríamos americanos.
A força do fenómeno é tão avassaladora que, embora haja quem denuncie os custos identitários e civilizacionais da aculturação, poucos conseguem avaliar o que está em causa.
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Mesmo as élites, outrora tão resistentes à ausência de sofisticação e “pâtine”, cederam ao inexorável. Hoje, estão pacificadas e deslumbram-se, todos os dias, com novas e exaltantes descobertas.
Neste contexto, a opção de seguir a actualidade europeia, lendo jornais europeus, vendo televisões europeias ou navegando em “sites” europeus, consubstancia uma efectiva provocação. Porém, determinante para quem queira tornar mais fecunda a análise da nossa própria realidade. E, por maioria de razão, absolutamente irrecusável para quem pretenda intervir nessa realidade. Vem isto a propósito de alguns factos e de algumas personagens que se cruzam na actual realidade política e editorial francesa.
Em primeiro lugar, Guy Birenbaum. Tem 42 anos, é editor e universitário, com carreira na área da ciência política. Em 1992, choca a comunidade académica ao publicar, no circuito comercial, a sua tese sobre a Frente Nacional. De então para cá, é um homem bem entrosado na vida e nos circuitos políticos. Portanto, alguém com acesso a informação privilegiada nessa matéria. Fruto de um convívio continuado com jornalistas e com gente que priva dos segredos do poder, sabe aquilo que poucos sabem, ou, melhor, sabe aquilo que o grande público não sabe. Agora resolveu dizê-lo ao mundo, através do lançamento de um livro destinado a gerar polémica. Intitula-se “Nos délits d’initiés” e trata das relações entre os jornalistas e o poder. Estima-se a venda imediata de 80.000 exemplares!
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Afinal, Guy Birenbaum evidencia o óbvio. Como ele próprio afirma, em nota prévia, na primeira pessoa, “somos 3000 ou 5000, jornalistas, editores, políticos, patrões, etc. Nós triamos o que é bom para si, o que você deve saber”. É, pois, desta manipulação da informação que o livro fala. Do modo como é feita e do alcance que tem numa sociedade democrática como a França. Para, afinal, encontrar aí o caldo propício à gestação de populismos extremistas ao estilo de Le Pen.
O propósito do livro é, sobretudo, denunciar a hiprocrisia. Não pretende impor padrões morais e, muito menos, dar lições. Mas afronta as incongruências privadas dos que, em público, alardeiam um discurso bem-pensante. Avança nomes, indícios, histórias. Põe preto no branco aquilo que se diz, sem rebuço, em almoços e jantares de jornalistas, para quem possa ter o privilégio de frequentar esses redutos de informação exclusiva. E fá-lo, assim o assume, em nome da igualdade dos cidadãos perante a verdade.
Seja qual for o verdadeiro propósito de Guy Birenbaum, há um mérito intrínseco a este tipo de obra. Dizer o que não é suposto dizer-se. E incomodar, por isso.
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Em “Nos délits d"initiés”, expõem-se redes de influência e explica-se como funcionam. Revelam-se favores. Assinala-se o sentido de casta daqueles poucos em que o sistema não toca e jamais tocará.
Há já quem diga que Birenbaum se limitou a dar corpo a rumores, ficando-se pela mera compilação de mexericos, sem cuidar de demonstrar o que afirma. Mas há quem identifique aí um expediente consciente para iludir eventuais processos judiciais por difamação. Até porque, no fundo, de uma forma ou de outra, Guy Birenbaum fixou-se no essencial: a denúncia do silêncio dos jornalistas e, em geral, daqueles que têm acesso aos corredores do poder. Deixou claro que, face à promiscuidade viscosa das relações existentes, calar é consentir. E que, politicamente, tal terá sempre as piores consequências. Perto de Guy Birenbaum, mas no terreno, surge Arnaud Montebourg. Tem 38 anos, foi advogado e é, hoje, deputado por Saône-et-Loire. Rebelde e determinado – para alguns narcísico, para outros presunçoso –, é também considerado o mais influente guru do “novo” Partido Socialista.
Autor de “La machine à trahir – rapport sur le délabrement de nos institutions”, Montebourg é um caso na política francesa. Defensor da imprensa e das suas responsabilidades em democracia, reclama mais liberdades individuais, mais poderes para o Parlamento e maior transparência na gestão dos dinheiros públicos. Empenhado na sua actividade de deputado, desdobra-se em iniciativas e, publicitando-as, torna-as sindicáveis (exemplar, nesse sentido, www.montebourg.net). Mas, até ver, o seu grande combate trava-se contra Jacques Chirac, cuja actuação como “maire” de Paris insiste em ver julgada pelos Tribunais.
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Arnaud Montebourg é um homem implacável. Denuncia a corrupção, a evasão fiscal, a injustiça, o compadrio. E os podres de uma sociedade que claudicou perante tudo isso. Admirador confesso de Edgar Faure, apela para uma VI República que supere o actual estado de coisas. E não desarma.
Diz-se que Birenbaum é a sua eminência parda. Talvez por isso, são cada vez mais os que temem que esta obstinação pela moralidade da vida pública venha a aprisioná-lo num estatuto e numa cruzada politicamente ineficazes. Isto é, afinal, que a sua sanha de “serial cleaner” acabe por remetê-lo à condição de bôbo-da-corte – o que, institucionalmente, sempre quereria dizer parte integrante do jogo, tal como todos os outros.
Mas Arnaud Montebourg não está desatento e assegura: “Quando não puder mudar o sistema do interior, voltarei a atacá-lo do exterior!”. Olhando Birenbaum e Montebourg, à distância deste país tão parecido e tão diferente, a sua luta parece-nos estranha.
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Falta-nos gente capaz de tais causas. Gente capaz de independência e desassombro.
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