«No sítio do Pica-Pau Amarelo...»
Na última década as empresas ibéricas invadiram virtualmente a América Latina. Empresas como a Portugal Telecom, a EDP e a Cimpor elegeram aquela região como alvo privilegiado dos seus investimentos. Só nos últimos três anos, o investimento directo português no Brasil ascendeu a 7.4 biliões de euros, fazendo de Portugal o segundo maior investidor estrangeiro naquele país, apenas ultrapassado pela Espanha. O denominador comum destas estratégias é fácil de identificar: é preciso compensar as limitações de crescimento do mercado português, sobretudo porque muitas destas empresas permanecem e naturalmente permanecerão pequenas à escala europeia...
Contudo, a verdade é que as economias emergentes continuam a apresentar um padrão de risco bastante elevado. Nos últimos três anos, as principais economias da América Latina entraram em colapso. Em 1999, o Brasil foi forçado a desvalorizar o Real em 30%, o que se repercutiu em quedas das Bolsas de Lisboa e Madrid em torno de 15%. A Argentina está em recessão há quase três anos e esteve muito próxima de uma situação de ruptura de contas externas há bem pouco tempo, o que decerto teria efeitos dramáticos em toda a região. Contudo, a implementação de um novo sistema cambial para o comércio internacional em que o peso argentino está indexado a um cabaz composto em partes iguais pelo dólar e euro gerou receios de que este seria o primeiro passo para uma desvalorização mais acentuada da moeda argentina no futuro próximo – apesar de se tratar de uma medida essencial para estimular a fragilizada economia argentina.
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O Brasil não tem permanecido alheio a tudo isto, tendo o Real chegado a perder cerca de 25% face ao dólar desde o início do ano, o que não só agravou as projecções de inflação como obrigou o Banco Central a subir a sua taxa de referência em 3%. Neste contexto, o anúncio do programa de racionamento de energia veio contribuir ainda mais para a deterioração das perspectivas de crescimento económico: de uma estimativa inicial acima de 4%, a economia brasileira deverá agora crescer apenas 2% este ano.
Neste contexto, a performance de uma empresa como, por exemplo, a EDP pode ser bastante afectada: se em 2000, as subsidiárias brasileiras apresentaram um peso de 2% no resultado consolidado, no primeiro trimestre de 2001, a empresa registou perdas cambiais significativas devido à desvalorização do Real. Mesmo assim, dois factores poderão amenizar o impacto negativo. Por um lado, a determinação do Banco do Brasil parece ter interrompido por agora a tendência de queda do Real. Por outro, embora a EDP seja para já prejudicada pelo racionamento de energia, esta situação veio realçar a necessidade de investir no segmento de geração e obrigar o governo brasileiro a flexibilizar a respectiva legislação. Naturalmente, a EDP é uma candidata natural ao negócio de geração de electricidade – que promete tornar-se bastante rentável num futuro próximo.
Para lá de tudo isto, a verdade é que, desde o início da crise nos mercados emergentes (Outubro de 2000), as cotações das maiores empresas portuguesas a operar no Brasil registaram quedas abruptas: PT (31%), EDP (23%), Cimpor (15%) e Modelo Continente (47%). A justificação é simples: se, no início do ano, a estimativa de crescimento do resultado por acção do mercado português em 2001 se situava em torno de 18%, neste momento, essa estimativa ronda os 12%. Desvalorização do Real e abrandamento económico obligent...
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Performance de Mercado
Período : Junho 2000 a Junho 2001
Fonte: Reuters.
Fonte: Reuters.
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Por tudo isto, a questão permanece: faz sentido suportar todo este risco? Talvez a melhor forma de pôr a questão seja a seguinte: enquanto a Península Ibérica tem cerca de 50 milhões de habitantes, as três maiores economias da América Latina - Brasil, Argentina e México - possuem um extenso mercado de mais de 300 milhões de consumidores. Enquanto Portugal apresenta um PIB per capita de 11,030 dólares e a Espanha de 14,800, o Brasil permanece uns patamares abaixo, com cerca de 4,350 dólares*. Last but not least, enquanto as economias ibéricas padecem, à semelhança do resto da Europa, de um notório envelhecimento populacional, no Brasil dois terços da população têm menos de 66 anos, um padrão recorrente na generalidade das economias latino-americanas.
Mas isso não chega. Tomemos, por exemplo, a Portugal Telecom, que detém já uma posição bastante confortável no mercado móvel brasileiro e está actualmente a desenvolver outras frentes de negócio. Com cerca de 13% das suas receitas provenientes do Brasil, a PT deverá em 2004 realizar cerca de 36% do seu negócio naquele país. Consequência prática? Estimamos que o cash-flow gerado nesse período apresente um crescimento médio de 9% ao ano; sem Brasil, essa taxa seria de apenas 5%. Por outras palavras, mantendo-se apenas exposta ao mercado doméstico, a PT dificilmente evitaria quedas de receitas e cash-flow à medida que o ritmo da liberalização do sector de telefonia fixa avança.
Obviamente, este tipo de investimentos só pode ser equacionado no longo prazo – e é por isso que empresas como a PT não se cansam de enfatizar que as desvalorizações do Real acabam sempre por servir para comprar mais participações...a preços mais baixos. Embora o horizonte temporal dos mercados seja por definição bastante mais curto do que o das empresas - daí a penalização de cotações em fases de instabilidade - , a aposta nestes mercados faz sentido. Porque, afinal, aquilo de que os mercados gostam e premeiam são empresas capazes de encontrar alternativas de crescimento sustentadas.
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* Dados de 1999, ajustados por Paridade de Compra, do Banco Mundial.
Gilmour d’Abreu Noronha
gilmour.noronha@finantia.com
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