O centenário do taylorismo
1911 é uma data importante para a gestão moderna: nesse ano foi publicado o livro fundador da disciplina, "The Principles of Scientific Management", de Frederick Winslow Taylor. Em 2011 foi publicada a tradução (Colecção Clássicos da Gestão, Edições Sílabo), que torna possível o acesso em Portugal a esta obra fundadora, tão discutida e tão pouco lida. Mas não vale a pena lamentar a situação porque essa é a condição das ideias de sucesso. De tão difundidas ganham vida própria. Tornam-se alvo de muitas interpretações, algumas fiéis ao espírito original, outras não. Com o tempo, tornam-se marcadores sociológicos, mais do que meros livros.
O livro de Taylor é um desses marcadores, uma obra que ultrapassa o seu criador. Taylor deu origem à filosofia de organização conhecida como taylorismo. Nascido em 1856 perto de Filadélfia no seio de uma abastada família "quaker", teve uma vida activa como operário e depois como engenheiro em empresas como a "Midvale Steel" e a "Manufacturing Investment Company". Apesar de ter sido admitido na "Harvard Law School", decidiu fazer carreira na indústria, inicialmente como aprendiz na "Enterprise Hydraulic Works", uma companhia fabricante de válvulas, propriedade de um amigo da sua família.
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Taylor conhecia bem o "chão da fábrica". Na "Manufacturing Investment Company" encetou um conjunto de experiências sobre organização que não foram bem acolhidas pelos donos nem pelos sindicatos. Em 1893 estabeleceu-se como consultor. Foi um participante activo nas sessões da "American Society for Mechanical Engineers" (ASME), nas quais ia divulgando as suas ideias sobre como melhorar os resultados das empresas graças à alteração dos seus modos de organização e gestão.
Cem anos depois da publicação do seu influente livro, a sua filosofia de gestão, mesmo que largamente adoptada, nunca deixou de merecer críticas. Apesar de considerar que a prosperidade dos patrões era, a prazo, indissociável da dos trabalhadores, nem sempre foi bem acolhido por uns nem pelos outros. Taylor foi, pode dizer-se, um incompreendido. Apesar de ter ajudado a criar a maior inovação de gestão da história, continua a ser apresentado como o originador de um sistema de trabalho explorador e desumano. As críticas têm fundamento, mas o acesso que hoje temos a produtos e serviços banais beneficiou decisivamente das ideias deste engenheiro mecânico.
A ideia, por vezes aventada, de que a cada momento podemos caminhar para um regresso - retrocesso, dirão os críticos - ao taylorismo levanta duas questões. Primeira, muitas organizações nunca dele saíram, continuando a praticar a separação fundamental entre desenho e execução do trabalho definidora do taylorismo. Segunda, o taylorismo não é necessariamente uma forma de organização retrógrada e desumana. É uma filosofia de gestão que nasceu num momento histórico particular e que respondeu tão adequadamente aos desafios que resistiu como se sabe ao teste do tempo. Mas há organizações que o fizeram evoluir para uma forma de design não alienante e inteligente, capaz de sintetizar taylorismo e pós-taylorismo. A Toyota tem sido o caso mais exemplar: nenhuma organização praticou tão bem o taylorismo, dizem aqueles que a estudaram. Nenhuma foi tão competente na preservação dos elementos de previsibilidade, controlo e rotina nem, paradoxalmente, na extirpação dos seus elementos de alienação, sobretudo a impenetrabilidade do design à inteligência dos trabalhadores.
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Reduzir Taylor ao que se costuma chamar "taylorismo" é o mesmo que reduzir Marx aos chavões do "marxismo". Podemos agora fazer jus a Taylor lendo-o antes de o criticar. É evidente que a disponibilidade do livro não vai mudar as coisas, mas pelo menos já não temos essa desculpa.
Para continuar a exploração do tema para lá de Taylor, duas referências interessantes são o texto de Paul S. Adler publicado em 1993 na revista "Research in Organizational Behavior, sobre o toyotismo como invenção da "learning bureaucracy", e o de Hirotaka Takeuchi e seus colegas publicado na "Harvard Business Review", em Junho de 2008, sobre os paradoxos da companhia nipónica. Nova School of Business and Economics Assina esta coluna mensalmente à sexta-feira
Para continuar a exploração do tema para lá de Taylor, duas referências interessantes são o texto de Paul S. Adler publicado em 1993 na revista "Research in Organizational Behavior, sobre o toyotismo como invenção da "learning bureaucracy", e o de Hirotaka Takeuchi e seus colegas publicado na "Harvard Business Review", em Junho de 2008, sobre os paradoxos da companhia nipónica.
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