Os malefícios do tabaco
[1] Olá rapaziada,
Como vêem, este ano decidi-me por um programa de férias diferente. Nada de states, brasis, circuitos de aventura ou ilhas exóticas (do Algarve, há muitos anos que deixei de ser cliente). Escolhi um país civilizado, para variar. Tinha curiosidade em conhecer melhor a Holanda e percorrer a sua faixa costeira, da Frísia à Zelândia. E aqui estou em Delft, a capital histórica dos Países-Baixos, onde estabeleci quartel-general para as diferentes etapas do meu périplo.
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Fiquem tranquilos, não vos vou maçar com descrições de paisagens nem de lugares, que para isso há o guia Michelin. Trago-vos antes um punhado de apontamentos sobre os estranhos usos neerlandeses, tão estranhos e enfadonhos que já me arrependi amargamente do destino que escolhi para estas curtas férias. Mil vezes a Caparica e a ponte 25 de Abril! Enfim, agora há que aguentar. Felizmente, já falta pouco para regressar à Portela.
Neste país, não há uma ponta de sentido de aventura. Toda a malha rodoviária está perfeitamente sinalizada, das auto-estradas aos caminhos rurais, não deixando qualquer margem para a imaginação criativa nem para os efeitos-surpresa que os portugueses tanto apreciam. Como pode esta gente fomentar uma cultura de risco e de empreendedorismo perante tamanha previsibilidade do contexto?
A rede holandesa de auto-estradas é, aliás, um exemplo acabado do que um país não deve fazer. Há-as por todo o lado, dificultando ao máximo a vida de quem busca trajectos e paisagens bucólicas. São larguíssimas (quatro e cinco faixas) e, imagine-se, gratuitas! Um verdadeiro desperdício para um país tão pequeno. Para cúmulo, os condutores locais nem sequer as sabem aproveitar convenientemente. Eu que, à cautela, nunca excedo os 140 km/h, dou por mim a ultrapassar toda a gente. Uns autênticos bezerros, estes automobilistas holandeses. Pergunto-me como não adormecem ao volante.
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E o que dizer do cinzentismo do parque automóvel? Desiluda-se quem pensar encontrar por aqui a mesma variedade e profusão de modelos de alta cilindrada que vemos desfilar nas estradas portuguesas. Os Mercedes, BMW, Porsche e quejandos contam-se pelos dedos. Para esta estranha gente, o carro é um simples utilitário e, como tal, só compram viaturas em conta. Dizem-me que o status é secundário, só importa a relação utilidade-preço. De um simplismo confrangedor, este povo das túlipas. Têm de conhecer a nossa terra para verem o que é glamour.
Mas o mais caricato em matéria de circulação é a obsessão pelas duas rodas. Imaginem que mais de metade da população se desloca regularmente em bicicleta! Os parques de estacionamento para velocípedes enxameiam as cidades, privando os automobilistas dos espaços a que têm direito ou obrigando-os a pagar tarifas exorbitantes por um mísero lugar na via pública. A repressão policial é de tal modo intensa que ninguém ousa deixar um simples carrinho das compras em cima do passeio, ou sequer parquear em segunda fila durante uns minutinhos para levantar dinheiro num ATM. Como será que resolvem o problema das entregas? Imagino o clima de terror a que os profissionais da logística devem estar sujeitos.
Ao invés, às ridículas bicicletas tudo é permitido. Transportam crianças (ainda por cima, sem capacete), compras, utensílios e tudo o que mais couber em cima da roda traseira, ignoram sentidos proibidos, beneficiam de pistas próprias e, ainda por cima, desprezam olimpicamente os transeuntes. Têm o hábito de se mover silenciosamente por entre ruas e ruelas, em busca de peões inocentes sobre quem descarregar a sua animosidade. Após três sustos valentes, aprendi a lição. Andar a pé, nunca. Se é para me abalroarem, que o façam sobre o meu carrito de aluguer, o único lugar onde me sinto seguro.
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E já chega de Holanda e de holandeses. Em Setembro, lá nos encontraremos no local do costume para a mariscada da rentrée. O Zé já marcou mesa. Tem um Maseratti novo para nos mostrar, lindo de morrer.
PS - Não é que, por estas paragens, se pode fumar em todo o lado? Será que esta gente nunca ouviu falar dos malefícios do tabaco? Agora já percebo o «não» holandês à constituição europeia. É ignorância pura.
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