Manuel Caldeira Cabral 04 de Abril de 2012 às 23:30

Relações Portugal-Galiza pedem novo impulso

A relação entre o Norte de Portugal e a Galiza, visível na integração crescente dos dois mercados, em investimentos ou na relação entre universidades das duas regiões, foi esbatendo a fronteira

Nos últimos três anos, as relações de Portugal com a Galiza recuaram. Foi a primeira vez desde 1986. As exportações portuguesas para esta região diminuíram 15%, o número de portugueses a trabalhar na Galiza foi reduzido para metade, o número de galegos que visitam Portugal também caiu.

As relações Portugal-Galiza precisam de um novo impulso, que deve passar hoje por acções que reforcem a cooperação entre empresas e universidades, mais do que pela construção de novas obras.

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Com importações de mais de 2 mil milhões de euros de Portugal, a Galiza chegou a ser o nosso quinto maior mercado, com valores que na última década, em vários anos, superaram os registados por Angola, ou pelos EUA. No entanto, se compararmos o número de visitas de governantes a Angola (onde já esteve metade do actual Governo) com a desatenção que a Galiza tem merecido, percebemos melhor por que é que problemas como o das dificuldades de pagamento das portagens introduzidas nas SCUT, que inquinam as relações com esta região, continuam sem solução, com um impacto extremamente negativo na diminuição de visitas de galegos à Região Norte.

A relação entre o Norte de Portugal e a Galiza, visível na integração crescente dos dois mercados, em investimentos, ou na relação entre universidades das duas regiões, foi esbatendo a fronteira. No entanto, ao nível institucional, a Xunta da Galicia não tem um interlocutor regional com poder de decisão. As relações têm de ser com os municípios, ou com o Governo em Lisboa. Este quadro não vai mudar, mas é importante que o Governo nacional saiba dar a devida atenção a um assunto que, sendo do interesse de todo o País, é particularmente importante para a Região Norte.

A conjuntura actual obriga também a repensar a estratégia de cooperação das instituições públicas das duas regiões. No actual contexto, teremos de encontrar soluções que tenham eficácia a reforçar as ligações e a integração entre as duas regiões, com custos limitados.

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Não se trata hoje de grandes investimentos a construir pontes, mas antes de evitar barreiras. No caso das Scut, não se trata de isentar os galegos de pagamento, mas apenas de facilitar que o façam, dando maior receita a Portugal. No caso dos transportes públicos de passageiros entre as duas regiões, não se pode concretizar a ligação ferroviária Porto-Vigo, um investimento demasiado caro (700 milhões de euros), para garantir uma ligação de 1 hora entre as duas cidades. Este recuo deve, no entanto, levar a pensar em soluções mais baratas, que possam ser concretizadas de imediato. Uma ligação rodoviária que una, em uma hora e meia, estas duas cidades com uma forte intensidade (8 a 10 ligações diárias) pode ser conseguida com incentivos da ordem das centenas de milhar de euros, isto é, com um impacto orçamental imediato mais de mil vezes inferior, podendo dar um contributo importante para a ligação das duas regiões e para criar valor em áreas como a do Turismo ou dos transportes aéreos.

A crise reduziu as trocas entre Portugal e a Galiza. Em 2011, as exportações galegas para Portugal recuperaram para números 20% acima dos valores de 2008, enquanto as exportações portuguesas para este mercado continuam quase 15% abaixo dos valores pré-crise.

A cooperação entre as duas regiões criou boas oportunidades às empresas de ambas as regiões. A Galiza sempre foi vista como uma oportunidade de extensão do mercado das empresas portuguesa, em particular das da Região Norte, devendo ser vista também como uma área natural de encontro de parceiros para as empresas desta região no processo de internacionalização.

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Num momento em que a procura interna está a cair em Portugal e em Espanha, a Galiza e o Norte de Portugal têm de se virar para os mercados externos para procurar compensar os efeitos recessivos resultantes dos processos de consolidação orçamental em curso na Península Ibérica e em toda a Europa.

Em contraste com a dinâmica negativa da procura interna, ambas as regiões têm conseguido registar bons resultados nas exportações.

Nos próximos anos, o trabalho conjunto das empresas e instituições das duas regiões tem assim de se virar para fora, para a conquista de mercados externos. É aí que estarão as oportunidades mais interessantes. E essas oportunidades poderão ser melhor aproveitadas se as empresas das duas regiões colaborarem, ajudando-se mutuamente no processo de abertura de novos mercados.

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Há já muitos exemplos interessantes, como o do investimento em aquacultura da Pescanova em Mira, que mostra como esta empresa Galega, está reforçar as exportações a partir da produção em Portugal. O mesmo acontece na relação entre o grupo Inditex e a indústria do Norte de Portugal, que reforça a capacidade competitiva das duas regiões no sector do vestuário, ou com a rede de fornecedores da fábrica PSA Peugeot – Citroën de Vigo, que inclui várias dezenas de empresas localizadas no Norte de Portugal.

Mas há também áreas em que muito mais pode ser feito. Por exemplo, na promoção dos vinhos, nos produtos alimentares, na investigação e ensino universitário, ou no Turismo, há muitas sinergias por explorar. A Galiza atrai 6 milhões de turistas por ano, que seria interessante atrair para Portugal. O aeroporto do Porto tem uma escala e ligações que a Galiza pode aproveitar, ajudando a rentabilizar esta infra-estrutura portuguesa. Nesta área, era importante criar ofertas conjuntas, atraindo mais turistas, e turistas de novos mercados, que possam, numa só viagem, visitar o Douro, as rias galegas, o Porto, Santiago, Braga, Vigo ou Guimarães.

A conjuntura deve assim definir a internacionalização, e em especial, a saída para mercados extra-europeus, como a prioridade da cooperação entre empresas das duas regiões.

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Professor de Economia da Universidade do Minho

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