O sol vai alto e nem uma brisa corre na Herdade do Monte das Flores que, como tantas outras, não escapou ao vendaval do verão quente de 1975. Durante a Reforma Agrária, decretada em pleno PREC, foram ocupados mais de 1,2 milhões de hectares, sobretudo no Alentejo. E esta, em Évora, foi uma delas. José Menéres, a caminho dos 81 anos, está à porta de uma das casas - todas baixinhas, com vista para os campos e com ar de pintadas de fresco - integradas na propriedade que foi ocupada durante dois meses até voltar à normalidade, “quase de forma automática”, quando caiu a folha do calendário do dia 25 de Novembro. Ali vivia - e vive ainda hoje - a família Noronha que, a menos de 30 quilómetros de distância, viu outra propriedade, que tinha arrendada, ser mesmo expropriada. A Herdade do Montinho, como é abreviadamente conhecida, chegou às mãos de seis irmãs - uma delas mulher de José - por via de uma herança. Herança essa que, segundo conta José, teve na sua génese uma doação às gentes de Nossa Senhora de Machede, feita por um membro de uma ilustre família portuguesa: a de Eugénio de Almeida.