Sérgio Godinho, Escritor de Canções (*)
"Mútuo Consentimento" é o novo trabalho de Sérgio Godinho, disponível em CD ou na iTunes Store, acompanhado de um fantástico "digital booklet". O sobressalto tecnológico cai bem a Sérgio Godinho e aos assessores que com ele assinam este trabalho, alguns mais habituais que outros. Fazer "download" de Godinho é ver a tecnologia tremer do sobressalto de se sentir ultrapassada; o poeta nascido no Porto em 1945 é um clássico, condenado a ultrapassar a sua época, a língua portuguesa em plena elevação e maturidade criativa e popular, a negação total do autoreferenciamento que por aí disfarça a completa falta de imaginação em que se arrasta, insular, o mercado "eterno adolescente" da música portuguesa.
O disco é atravessado por uma massa de sons feitos de e para as palavras, consistentes, que ora se dispersam para formas mais voluptuosas nos temas ditos "românticos", ora se solidificam e ganham gravidade na sensibilidade cinematográfica com que são sublimados os temas da cidade, da insónia, do despojamento, da precariedade. Alguns dos arranjos e produção do lado mais óbvio do disco situam-se num território de referências pop claras e inequívocas, com escolhas inteligentes, sintéticas, cirúrgicas às vezes. À sexta faixa soam as primeiras notas do piano de Bernardo Sassetti, autor da música para o poema "Dias Consecutivos".
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A canção encena o teatrinho da cidade e das suas mudanças de tom e luz, as suas diferenças entre a noite e o dia, como em "Lisboa Que Amanhece" (de "Na Vida Real", 1987). Do nosso retrato fica, como em "2º Andar-Direito" (de "Pano Cru", 1978), o vórtice da massificação com que as urbes nos electrificam e alimentam o medo do esquecimento, da desagregação. "Dias Consecutivos" é uma espécie de valsa gótica, um poema que baloiça entre a crista e a depressão de cada subida e descida do carrossel sinfónico com que o arranjo - também a cargo de Bernardo Sassetti - nos leva pelo ouvido a referências inéditas na obra sonora de Sérgio Godinho. Esta é uma canção de embalar a insónia.
"A música é tamanha, cabe em qualquer medida", anuncia o prólogo, ao abrir este disco; "Mão na música" é a faixa primeira, o poema falado com que o disco se revela desde logo descomprometido de qualquer cânone ou revisitação. Sérgio Godinho há muito que se libertou dos melodramas saudosistas e optou pela acção ao invés da liturgia, sem medo dos ícones ou de outros diabos com que a ortodoxia costuma acenar de cada vez que um pródigo ameaça não voltar à casa.
(*) "Escritor de Canções" é o nome do espectáculo apresentado em 1990 no Instituto Franco Português em Lisboa, disponível em CD (edição EMI - Valentim de Carvalho). (com Manuel Faria, Nani Teixeira e Sérgio Godinho, Direcção de Ricardo Pais, Produção de Paulo Pulido Valente).
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(com Manuel Faria, Nani Teixeira e Sérgio Godinho, Direcção de Ricardo Pais, Produção de Paulo Pulido Valente).
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