Telmo Azevedo Fernandes 31 de Julho de 2013 às 00:01

O fetiche da balança comercial

Em Portugal vivemos entre o júbilo pela balança comercial ser positiva e o espectro do desastre quando o nosso saldo do comércio internacional é negativo.

Em Portugal vivemos entre o júbilo pela balança comercial ser positiva e o espectro do desastre quando o nosso saldo do comércio internacional é negativo. 

Em 2012, o valor das exportações de bens excedeu o das importações de mercadorias e logo vieram a terreiro os políticos dar a boa nova ao povo. Analistas e comentadores de serviço lá disseram que o mérito era dos empresários. Mas o que subtilmente se pretendeu transmitir é que este impressionante resultado prova a bondade das políticas públicas e da "estratégia" dos governantes para tirar o país da crise. Até a oposição socialista louva o resultado e lembra a necessidade de "dar lugar à economia" e "estimular o crescimento".

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Não deixa de ser curioso que consigamos vender mais ao estrangeiro do que o que compramos quando a economia está em recessão. Pessoalmente, prefiro festejar noutras circunstâncias, mas será do meu feitio peculiar…

Um "deficit" nas transacções internacionais de mercadorias não reflete necessariamente uma economia débil. De igual modo, um "superavit" não é automaticamente sinónimo de pujança económica. O saldo da balança comercial tende a ser pró-cíclico, aumentando o deficit quando a economia expande e diminuindo quando a economia desacelera ou entra em recessão. Os anos de mais rápido crescimento económico em Portugal foram acompanhados por deficits da balança comercial.

Note-se que não estou a afirmar que o "deficit" gera crescimento económico. O que cria riqueza é o comércio internacional, sejam exportações, sejam importações. A balança comercial é, tão só, a diferença entre o valor em euros do que compramos lá fora e o valor do que recebemos pelo que vendemos ao exterior. Em termos estatísticos, normalmente acontece que o "deficit" acompanha períodos de expansão.

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Ninguém nos obriga a importar ou exportar. O comércio internacional acontece por vontade própria e autónoma das partes. Se temos um "deficit" é porque, no nosso interesse, retiramos benefícios das transacções comerciais que lhe subjaz. Se cada troca é benéfica para os envolvidos (caso contrário não se estabeleceria essa relação), por que razão a soma de todas as compras e vendas ao estrangeiro resultaria em algo prejudicial para o país?

Todas as semanas vou ao supermercado abastecer-me, mas as empresas de distribuição não me compram nada a mim há anos. Tenho portanto um permanente "deficit" comercial com estas empresas. É mau? Curiosamente, pago sempre o que compro. Fico a dever algo ao engenheiro Azevedo ou ao senhor Santos?

Os "deficits" comerciais não geram dívida. Quem nos vende bens aceita algo como compensação. Podem ser activos financeiros ou reais. Eventualmente, quem exporta bens para Portugal está disponível para aceitar títulos de dívida em troca, ou seja, para nos emprestar dinheiro. Neste caso, sim, contraímos uma dívida.

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Contudo, esse facto não é mau devido à nacionalidade de quem nos financia. Será mau porque consumimos mais do que aquilo que poupamos, mas esse problema coloca-se sejam as compras feitas em Portugal, seja por via das importações. Não culpem o comércio internacional, nem os estrangeiros pelos nossos excessos e pela falta de capital.

Sabemos que em matéria de poupança e despesa indevida o Estado dá um péssimo exemplo. Todavia isso não tem relação com as exportações nem com as importações. A dívida pública é algo muito diferente do "deficit" comercial, desde logo porque a primeira é financiada por impostos. E estes são coercivos, somos obrigados a pagá-los. Ao contrário do comércio internacional, a receita fiscal não resulta de um agregado de relações individuais autónomas e voluntárias.

Cada um é livre das suas preferências e gostos. Mas permito-me aconselhar quem atribui poderes mágicos ou sobrenaturais à balança comercial a arranjar outro fetiche.

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MBA. Especialista em Internacionalização

telmo.azevedo.fernandes@gmail.com

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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