A maior sombra da crise, dez anos depois
Entre as notícias sobre a recuperação da economia europeia e o "maior crescimento do século" em Portugal é tentador relativizar a sombra deixada pela crise financeira que começou há exactamente dez anos. O impacto duradouro no emprego, nos salários e na desigualdade social é reconhecido por políticos, media e analistas. Mas, para Portugal, que fez do projecto europeu o elemento mobilizador do país em democracia, a sombra da crise financeira paira ominosa sobre uma frente política que parece pacificada: o euro.
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A crise financeira expôs os problemas estruturais da moeda única europeia, para que vários economistas tinham avisado, em vão, na década de 90. Apanhou a Zona Euro no auge do desequilíbrio entre países excedentários e deficitários nas contas externas e provou que a arquitectura do euro não tinha instrumentos para lidar com choques económicos assimétricos. A criação desses instrumentos que fazem uma "zona monetária óptima" tem mais de política do que de técnica. Uma moeda única não significa apenas a partilha dessa moeda: implica unidade política e, mais do que isso, proximidade cultural.
Os Estados Unidos são um exemplo paradigmático: uma federação de 50 estados em que "os residentes falam a mesma língua, vêem os mesmos programas de televisão", como escreveu Milton Friedman em Agosto de 1997. As pessoas movimentam-se facilmente do Alabama para New Jersey e o governo central, com um orçamento muito superior ao dos estados, redistribui entre estados ricos e pobres. Na Europa, a realidade é a que conhecemos: a Comissão Europeia, o "governo central", gasta muito menos do que os estados e está nas mãos dos governos nacionais em momentos de crise; e os governantes lideram eleitorados com incentivos económicos distintos, culturas muito diferentes e uma identidade nacional forte.
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Os resgates e as mudanças apressadas na governação económica europeia envolveram partilha de esforços e ajudaram a manter o euro à superfície, mas foi a força imparável do Banco Central Europeu que a partir de 2012 estancou a pressão. (A preponderância sem precedentes dos principais banqueiros centrais, que trabalharam em coordenação inédita a partir de 2007, é um dos efeitos da crise.) A acção inédita liderada por Mario Draghi não serve "só" para tirar a economia europeia da deflação e da fragmentação financeira - ela oferece tempo aos políticos para fazerem o seu trabalho, ou seja, aprofundarem a integração política e económica.
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Este é um ponto importante: a actual acalmia europeia assenta num "status quo" que dificilmente se manterá. É provável a chegada de mais choques - na retirada dos estímulos monetários inéditos, num colapso da economia chinesa, etc. - e a moeda única não tem ainda mecanismos de partilha de riscos eficientes e convincentes. Está por resolver a questão crucial: como pôr países tão diferentes a partilharem recursos e soberania para evitarem que uma moeda criada para unir a Europa termine numa experiência desastrosa de desunião.
Alemanha e França nada fizeram nesta frente nos últimos dois ou três anos - as suas propostas para o governo da União são vazias. Em Portugal, onde o arranjo inédito que sustenta o poder é também um efeito da crise, o assunto desapareceu do debate público. Espera-se pela reeleição de Merkel, espera-se pelo teste a Macron, espera-se talvez pela próxima crise, vai-se gerindo a conjuntura positiva - tudo na certeza de que aquilo que a crise global que começou há dez anos expôs na Europa ainda não foi resolvido. Para Portugal esta será uma fonte de risco constante.
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Jornalista da revista Sábado
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