Um ponto de vista é a vista de um ponto
Se procura a sabedoria, é melhor acostumar-se à ideia de que tudo na vida é uma questão de ponto de vista. Tudo é relativo: tamanho, poder, felicidade, não há nada que tenha exatamente o mesmo significado para duas pessoas distintas (o que não passa de um pleonasmo: não há o oposto, duas pessoas que sejam o mesmo).
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Alguém já disse: todos os pontos de vista são apenas as vistas de um ponto. O montanhista solitário no alto do Everest, ao olhar para as nuvens, sabe que elas não param de mudar e se por acaso parassem, bastaria inclinar a cabeça para que o horizonte que admira fosse outro.
Uma série da recém-lançada em Portugal plataforma HBO, foi construída com base nas (in)certezas dos parágrafos anteriores.
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"Mosaic", de Steven Soderbergh, mais do que uma série, começou como uma experiência de storytelling e tecnologia. "Mosaic" foi lançada como um aplicativo para smartphones (entretanto já desativado). Assim, os leitores/espectadores/jogadores poderiam avançar pela história, sempre a cruzar caminhos, a seguir as experiências das diferentes personagens. Documentos, fotos, mapas, recortes de jornais, ou seja, pistas ficavam disponíveis para que nós, os detetives, pudéssemos resolver um crime.
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Posteriormente, "Mosaic" também foi apresentada como um seriado em 6 episódios. É esta a versão que ainda temos disponível para analisar. E, acredite, não é pouco.
"Mosaic", a série, tem um encanto incomum: nunca chega a definir quem é a personagem protagonista. Ao longo dos episódios, o cetro vai de mão em mão, de olhar em olhar, e isto faz parte do seu imenso charme. Quando imaginamos saber tudo sobre A ou B, eis que, o ponto de vista de C é apresentado e isto faz toda a diferença.
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Se começamos a achar a personagem de Sharon Stone simpática e agridoce, mais para frente, concluímos que não passa de uma megera neurótica ou apenas uma idosa solitária e triste. Essa experiência repete-se com todos os outros intervenientes na trama. Todos são bons, todos são maus, todos são algozes, todos são vítimas.
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Fez-me lembrar um poema de Mário Quinta: "A mosca, a debater--se: "Não! Deus não existe!/Somente o Acaso rege a terrena existência."/A Aranha: "Glória a Ti, Divina Providência/Que à minha humilde teia essa mosca atraíste!"
Aos que têm medo de narrativas complexas, fiquem tranquilos. Não há nada nesse mosaico de suspense que seja difícil de acompanhar e entender. Apenas não estamos diante de um objeto vulgar, no sentido mais pejorativo da palavra.
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Em tempos de verdades relativas, de realidade líquida, de radicalismos que toldam as perceções do mundo, "Mosaic" pode servir como uma aspirina. Não irá conseguir provar que as nossas certezas não passam de ilusões, mas acaba por ter o efeito didático de ensinar a importância de ter dúvidas.
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Ou como diria o meu Tio Olavo, a cantar uma canção de Raul Seixas: "Não tem certo nem errado/Todo mundo tem razão/É que o ponto de vista/É que é o ponto da questão."
Publicitário e Storyteller
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