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Edson Athayde 07 de Julho de 2020 às 18:59

O inferno são os outros

Se com a covid (que nem é assim tão letal, mas que vai deixar um rasto de milhões de mortes pelo mundo) é o que é, faça as contas do que irá ocorrer quando a natureza nos enviar um vírus um pouco mais complicado.

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Onde mora a senhora dona empatia? Onde é que a encontramos? Se formos no timeline do Facebook, lá ela não está. Não está no Twitter. Não está no Youtube... Aparece escondida, meio disfarçada de solidariedade ou altruísmo, em meio ao noticiário sobre a covid.

Pelo que vi, a empatia não estava em Londres no primeiro fim de semana com os pubs abertos. Só assim compreendemos como milhares de pessoas puderam aglomerar-se como se não houvesse amanhã. Também no Rio de Janeiro, nas calçadas do abastado bairro do Leblon, a empatia não saiu às ruas e o fenômeno repetiu-se. Um paradoxo dos novos tempos: onde não há empatia há muitos beijos e abraços (até em desconhecidos).

Se formos ao estado de Nova Iorque, aquele mesmo onde até há pouco era o epicentro mundial da epidemia, as praias de Fire Island andam abarrotadas, o povo a curtir raves dionisíacas, mas nada da empatia dar a cara. O cenário é o mesmo na Florida. Ou nas festas da covid que pululam pelo nosso país.

Temos como facto que a empatia faz parte da natureza humana. Será? Nem sempre foi assim. Foi só no começo do século passado que o conceito de empatia começou a ser usado em estudos de psicologia.

Se olharmos com atenção para o lugar de onde viemos, para onde estávamos num piscar de olhos da história, descobriremos uma Igreja Católica pouco empática, por exemplo. Aos hereges não se oferecia compaixão e sim a fogueira. Os escravos e indígenas eram considerados não pessoas. Mesmo a noção de pecado era suficientemente aberta para poder deslocar-se ao bel-prazer de padres, bispos e papas: aos amigos e aos bons pagadores de dízimos e prebendas, o paraíso; aos inimigos e miseráveis, o inferno.

Nas relações familiares, a empatia ainda é uma conquista diária a ser alcançada. Quantos pais não expulsam os filhos de casa por estes se revelarem gay? Ou as filhas adolescentes por aparecerem grávidas? A maior parte dos abusadores são familiares diretos das suas vítimas. Por questões religiosas ou de costumes, em certos países os pais e as mães costuram as vaginas das suas filhas, vendem as raparigas por certas quantias ou as sacrificam em altares.

Se nem o fenómeno natural da descendência é um imperativo para o exercício da empatia, imagina o que seremos capazes de fazer com estranhos...

Somos tribalistas. Não costumamos ser empáticos com quem não comunga dos nossos valores, cores, ideologias. Temos compaixões seletivas. Adeptos do Benfica têm um défice de empatia em relação aos adeptos de outras equipas. E vice-versa. Quem é da extrema-direita se pudesse erradicaria do planeta quem é de extrema-esquerda. E versa-vice.

A disseminação da covid funciona como reflexo do nível de empatia que uma sociedade consegue demonstrar. E é também um espelho da desigualdade económica entre classes ou grupos de cada país.

Vamos aos números. Nos EUA, a taxa geral de mortalidade por covid-19 entre negros é 2,3 vezes maior do que entre brancos.

No Brasil, a desgraça também é seletiva. Diz a revista Época: “Na divisão por etnia, apenas 1,1% das pessoas brancas testadas tinham sido afetadas pelo vírus. A prevalência foi maior nas etnias preta (2,5%), parda (3,1%) e indígena (5,4%).”

Muitos de nós achámos (eu achei) que sairíamos melhores do que entrámos nesta pandemia. Pura ilusão. Ninguém desenvolve empatia por ficar preso em casa (quando muito pode perder a pouca que tem). Estamos condenados a não sobreviver se dependermos da boa vontade dos nossos vizinhos, parentes e colegas de trabalho em ficar em casa em dias bonitos de verão ou apenas usarem máscaras em lugares públicos.

Se com a covid (que nem é assim tão letal, mas que vai deixar um rasto de milhões de mortes pelo mundo) é o que é, faça as contas do que irá ocorrer quando a natureza nos enviar um vírus um pouco mais complicado.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Millôr Fernandes: “O coração tem imbecilidades que a estupidez desconhece.”

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