Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 21 de agosto de 2018 às 19:23

Santana e o albergue de deserdados 

O Aliança é a continuação por outros meios da vida política de alguém que não vê no seu partido de sempre espaço para a sua própria ambição.

O primeiro cuidado a ter na análise do partido que Pedro Santana Lopes quer criar é este: convém não o analisar em excesso. É pouco útil andar a escavar significados ideológicos profundos nas movimentações de Santana, ou a prever reconfigurações sísmicas no espectro partidário. Para isso era necessário que o novo partido fosse um projecto político. Acontece que não passa de um projecto pessoal. O Aliança é a continuação por outros meios da vida política de alguém que não vê no seu partido de sempre espaço para a sua própria ambição.

 

Não que haja algum mal nisso. É uma estratégia como outra qualquer. De resto, não querer analisar em excesso o fenómeno não significa que o devamos desvalorizar totalmente. Os casos raros que furaram a especial resiliência do nosso sistema partidário beneficiaram sempre da identificação dos novos partidos com figuras conhecidas. O PRD era visto como o partido de Eanes, na altura Presidente da República, e o Bloco de Esquerda era a reformulação de um quadro partidário cujas figuras principais há muito pululavam no espaço mediático. Santana pode ter essa vantagem, mais o bónus de um PSD dividido e sonolento. Mas o facto de o Aliança ser movido a ambição pessoal tem, por si só, efeitos seriamente inibidores.

 

Por um lado, não estamos a falar só de um projecto pessoal de uma figura conhecida, em abstracto, mas de um projecto em que a figura conhecida é Santana Lopes. O benefício de Santana ser conhecido é compensado pelo risco de ser demasiado conhecido. Santana não é um meteorito político que apareceu de repente, virgem de polémicas e sem cicatrizes de guerra. Santana carrega consigo o desgaste de ter passado toda a democracia na ribalta da política, e também o de uma longa série de tiros no próprio pé. 

 

Por outro lado, quem é que está disponível para aderir a um partido político se sentir que é apenas um adereço? Quem é que quererá dispor do seu tempo para não fazer mais do que transportar em ombros o andor de Santana Lopes? Ninguém o acompanhará se não se perceber que o novo partido representa uma ideia política maior do que a mera soma das partes. É bom lembrar que o Bloco cresceu porque soube ser mais do que o brinquedo dos seus fundadores, enquanto o PRD não sobreviveu ao regresso de Eanes à caserna. Santana terá de demonstrar que o Aliança é mais do que o fruto do seu ressentimento. A julgar pela ausência de companhia visível, não será tarefa fácil.

 

Por fim, o facto de o Aliança ser um expediente de sobrevivência política faz com que Santana precise de encontrar muito rapidamente um qualquer eleitorado. É por isso que quer ir buscar aquele que lhe parece mais à mão: o eleitorado dos que se acham deserdados ideológicos do PSD e do CDS, especialmente em matéria de integração europeia e nos temas "fracturantes".

 

Mas é aqui que reside o maior entrave ao sucesso do novo partido: o eleitorado de que Santana acha que precisa não lhe trará grande futuro. Quantas pessoas há ainda à direita que queiram Portugal, um país frágil e periférico, de saída ou em confronto com a União Europeia? Quantas pessoas há que se definam politicamente com base nos temas "fracturantes"? Quantas dessas pessoas se sentem fatalmente desconsideradas pelo PSD e pelo CDS? Quantas darão o seu voto a Santana Lopes, que nunca vimos propriamente na linha da frente nessas matérias?

 

Mas mais importante do que isso: que futuro há para uma direita que, em vez de crescer falando para a maioria dos novos deserdados do Estado e da economia, se limitar a recolher, cabisbaixa, para junto de uma minoria dos indefectíveis de sempre? Um albergue de deserdados ideológicos, reais ou imagináveis, não salvará a carreira política de Santana Lopes. E muito menos salvará a direita.

 

Advogado

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