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Francisco Veloso - Diretor da Católica-Lisbon School of Business & Economics
25 de Janeiro de 2015 às 20:00

A temperatura no mundo e a retórica em Davos (e Portugal)

O ano de 2014 bateu todos os recordes de temperatura a nível mundial, de acordo com um relatório publicado na semana passada. Desde 1880, ano em que se iniciou um sistema de registo, que não se observavam valores tão elevados.

 

Os registos de 2014 superaram os de 2010, até agora o ano mais quente na história, tendo os 10 anos mais quentes ocorrido todos desde 1997. A conclusão dos cientistas é de que estamos a assistir a aquecimento planetário claro e contínuo, sendo cada vez mais aceite que este processo é consequência da atividade humana, o que coloca riscos profundos de longo prazo para a natureza e para as populações.

Estas observações são alarmantes e simultaneamente frustrantes porque tem existido muito pouco progresso ao longo dos últimos vinte anos de negociações globais destinadas a procurar mitigar o crescimento dos efeitos climáticos. É claro para os cientistas que, dado o efeito de longo prazo que estes efeitos têm, é necessário atuar agora, para que não venham a existir consequências extremamente nefastas ao longo das próximas décadas.

Existem vários sinais de que poderá estar em marcha uma alteração de perspetivas públicas e políticas nestas importantes questões. No ano passado, foram observados níveis de mobilização política em grande escala, como nunca tinha ainda sido visto. Em setembro, nos EUA, país onde tem sido difícil fazer progresso nestas áreas, mais de 300.000 pessoas marcharam em Nova Iorque,  a que se juntaram dezenas de milhares em outras cidades pelo mundo. Recentemente, os presidentes Obama e Xi Ping fizeram um anúncio histórico de que se iriam comprometer com objetivos de redução nas emissões de carbono dos seus respetivos países.  Este acordo deu renovado otimismo para as negociações com vista a alcançar um novo grande acordo climático global, que decorrerá em Paris em dezembro deste ano.

Porventura na esteira deste importante relatório, a questão da sustentabilidade, que costuma ser tema recorrente na cimeira de Davos, ganhou outra visibilidade, tendo mesmo emergido como um dos grandes temas do encontro de 2015. Não deixa de ser irónico ou mesmo hipócrita que 1700 jatos privados (um dos transportes mais poluentes por km que existe) tenham deslocado os dirigentes mundiais que tomaram parte no encontro. No entanto, é absolutamente crítico que líderes empresariais e políticos se convençam da urgência de instituírem e dinamizarem atividades empresariais e políticas sustentáveis, para que possamos vir a assistir a uma inversão significativa da atual tendência de aquecimento global.  Neste sentido, um diálogo aberto e abrangente entre eles é importante. Mas a retórica tem de ser acompanhada por decisões e compromissos claros e sérios a curto prazo, sob pena de ser mais uma das muitas oportunidades perdidas neste domínio. O ano de 2015, nomeadamente os acordos de Paris, serão importantes para avaliar se a ação segue ou não a retórica.

Em Portugal tem existido também uma evolução importante na atenção pública e política relativamente às questões ambientais. O recente pacote de fiscalidade verde foi um marco importante porque, ao tocar de forma direta a generalidade da população, criou uma discussão relativamente alargada e importante sobre a questão da sustentabilidade em geral, e em particular sobre a ideia de que instrumentos políticos, nomeadamente fiscais, podem influenciar as opções das pessoas para que reduzam o seu impacto ambiental. Uma parte da discussão centrou-se sobre a bondade do pacote no seu propósito, nomeadamente na possibilidade de que seria essencialmente (mais) um aumento de impostos (que nos deixa) verde. Podemos criticar várias medidas, e questionar a capacidade de o Governo garantir a neutralidade do pacote no que refere ao impacto fiscal total. No entanto, é uma discussão bem-vinda, porque é importantíssima para o nosso futuro. De facto, o debate das políticas ambientais, nomeadamente de natureza fiscal, deveria ser parte importante do programa de qualquer partido que ambiciona ser Governo, em Portugal, mas também em qualquer outro país. As populações atuais, e as futuras, agradecem!

Diretor da Católica-Lisbon School of Business & Economics

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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