João Carlos Barradas 01 de Dezembro de 2015 às 20:10

A luta pelo poder 

A ideia de desenvolvimento sustentável começou a impor-se tarde demais e era fatal que ante a iminência de catástrofes ecológicas irreparáveis proliferassem alguns equívocos políticos alimentados por um espúrio determinismo ambientalista.

O alegado "pânico ecológico" de Hitler ou a seca como uma das causas da guerra civil na Síria são recentes exemplos de extrapolações politicamente inquinadas e altamente perigosas. 

   

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A seca e o poder dos alauítas

 

A seca de 2007-2010 no Nordeste da Síria, resultante de tendências naturais de longa duração agravadas pela acção humana, provocou o colapso das colheitas cerealíferas e a migração de 1,25 a 1,5 milhões de pessoas para Damasco, Aleppo e Daara, segundo cientistas da Universidade de Columbia.

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A migração, num quadro político e administrativo disfuncional, teria tido "efeito catalisador" no desencadear do conflito em Março de 2011, refere o estudo publicado este ano.

 

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Acontece que a crónica falta de água no Nordeste sunita suscitara planos de irrigação malsucedidos desde os anos 1990.

 

As migrações no Nordeste acompanharam a urbanização a partir da década de 1960 na sequência dos projectos modernizadores autocráticos do regime do Baas e aceleraram em 2009 após cortes a subsídios ao gasóleo e fertilizantes tendo então cerca de 250 mil sunitas abandonado as zonas rurais.

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A revolta arrancou, aliás, a sul, no Hauran, entre Damasco e a fronteira jordana, uma região onde os ganhos da reforma agrária começaram a claudicar na década de 1990 na medida em que os privilégios da minoria alauíta no consumo de recursos escassos, nomeadamente água, se acumulavam em prejuízo da maioria sunita.   

 

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O repúdio sunita pelo domínio alauíta, em conivência com outras minorias como os cristãos, esteve na origem da guerra, justificada inicialmente pela doutrinação dos "Irmãos Muçulmanos" antes de se imporem movimentos jihadistas. 

 

A obsessão de Hitler

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Uma crise global provocada pelas mudanças climáticas pode levar à busca de bodes expiatórios à escala global, afirma, por sua vez, o norte-americano Timothy Snyder, evocando pretensas lições do extermínio nazi dos judeus.

 

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Hitler, fanático do extermínio de judeus poluidores da pureza da raça ariana destinada ao domínio universal, surge na interpretação do historiador de Yale como ditador atormentado pela iminência de uma crise ecológica conducente à fome na Alemanha. 

 

Na ausência de soluções técnicas para incrementar a produção agrícola e pecuária, o Führer teria procurado um "Lebensraum", um espaço vital, nas regiões férteis a leste da Alemanha.

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O massacre dos judeus em invasões que levaram ao colapso de Estados e à anarquia selvática seria, a crer na obra de Snyder "Black Earth. The Holocaust as History and Warning" (2015), um derivado dessa procura do sustento.

 

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Desta bizarra teoria, Snyder conclui estarmos presentemente ameaçados por novos ataques de pânico ante a escassez de recursos essenciais capazes de desencadear massacres em larga escala. 

   

Não há respostas simples

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A escassez de terras agrícolas no Ruanda levou ao conflito ente hutus e tutsis, a desagregação do Estado da Somália face a tribos e clãs agravou a fome, sobretudo entre os camponeses do Sul, provocada pela seca de 2011 no Leste de África, mas as condicionantes políticas predominaram.    

                           

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A imposição de interesses particulares nas estruturas de poder na luta por recursos escassos em regiões abaladas por grandes assimetrias demográficas é um dos principais factores de conflito violento propiciado por bruscas alterações climáticas.

 

A percepção dessas dinâmicas de confrontos de classe, étnicos e religiosos, é frequentemente obscurecida pelo privilegiar do quotidiano e da conjuntura procurando identificar instituições e valores de coesão social ou eventos e tendências susceptíveis de provocar crises e rupturas.

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Bloqueios e desordem

 

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Em 1986, quando o preço do petróleo caiu 69%, a União Soviética carecia de alternativas sociais, políticas e ideológicas para enfrentar a crise de uma economia não-competitiva dependente da exploração de hidrocarbonetos e exportação de armas.

 

Bloqueios institucionais podem agravar situações de dependência degenerando em crises capazes de provocar grandes perdas humanas tal como a desagregação de poderes de Estado ante facções rivais (República Democrática do Congo), o  predomínio do narcotráfico (Guiné-Bissau), ou políticas deliberadamente discriminatórias (muçulmanos rohingya na Birmânia). 

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As assimetrias derivadas de um crescimento demográfico que poderá atingir os 9,6 mil milhões em 2050 auguram turbulência e pressões migratórias convulsivas. 

 

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A dependência de recursos agrícolas, pecuários, piscícolas, marcadamente  susceptíveis a variações climáticas ou a exposição agravada a doenças como malária, cólera, dengue, a carência de terras aráveis, fontes de água potável, são outros elementos a potenciar conflitos pelo poder.

 

O clima é o destino, mas é a luta pelo poder que nos levará ao descalabro ou à sobrevivência como espécie talvez capaz de não se atormentar incessantemente delapidando recursos finitos.

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Jornalista

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