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Luís Marques Mendes 13 de Junho de 2021 às 21:25

Marques Mendes: "As pessoas que saem da TAP são vítimas da guerra entre Costa e Pedro Nuno Santos"

O estado da pandemia, nomeadamente o agravar dos casos e o processo de vacinação; o caso do envio de dados de manifestantes pela Câmara de Lisboa e as polémicas que envolvem o Governo são alguns dos temas analisados por Marques Mendes no habitual comentário da semana.

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O ESTADO DA PANDEMIA

 

  1. A situação da pandemia voltou a gerar preocupação. Há sinais perigosos:

    a) Primeiro: dentro da EU. Portugal está em contraciclo. A União Europeia está a melhorar. Portugal está a piorar.
    b) Segundo: cá dentro. Há 5 semanas consecutivas que o número de novos casos está a aumentar. Uma subida contínua e constante.
    c) Terceiro: em Lisboa. Há 5 semanas consecutivas que a situação é crítica. Lisboa está próximo da zona de risco (240 casos por 100 mil habitantes).
    d) Quarto: o número de doentes internados está a aumentar há 3 semanas consecutivas. Não é motivo de alarme. Mas suscita preocupação.

 Conclusões a tirar:

  • Pandemia: a situação está a piorar. Não é um drama. Mas é um problema sério. Neste quadro, acções como a da IL de ontem não são bons exemplos. A IL pode discordar da proibição de arraiais mas devia respeitar. Não se devia servir do privilégio de ser um partido político.
  • Matriz de Risco – Esta situação reforça a urgência de actualizar a Matriz de Risco. A Ordem dos Médicos apresentou um novo modelo que combina as quatro realidades fundamentais: incidência, gravidade da doença, vacinação e variantes do vírus. Os especialistas elogiaram. Fontes próximas da DGS disseram ao Expresso que não é possível avançar porque não há informação suficiente. Isto é de gargalhada. Ao fim de ano e meio de pandemia ainda não há informação suficiente?

  

 

A VACINAÇÃO

 

  1. Comecemos pelo estado da arte:

    a) A vacinação prossegue em bom ritmo. Já foram administradas 6,9 milhões de doses; já há 4,5 milhões de pessoas com, pelo menos, uma dose; já há 2,6 milhões de pessoas com a vacinação completa.

    b) Por faixas etárias a evolução é igualmente positiva – 98% de vacinação nos mais de 80 anos; 99% entre os 70 e 80; 93% entre os 60 e 70; 69% entre os 50 e 60 anos.

    c) Óbitos nos lares: no mês de Março, quando ainda não estava concluída a vacinação nos lares, ainda houve 166 óbitos; no mês de Abril já houve apenas cinco; no mês de Maio apenas três. São os benefícios da vacinação.

 

  1. Pistas para o futuro:
  • Prioridade à vacinação dos jovens. Até agora a prioridade da vacinação eram os idosos. E bem. Agora a prioridade devia ser vacinar os jovens acima dos 18 anos. Disse-o aqui na semana passada. Vi alguns especialistas a dizerem o mesmo. Se os jovens vão para ferias sem vacinação, isso vai ser um problema sério.
  • Certificado Digital CovidÉ um passaporte sanitário na UE. Facilita viagens. Uma excelente ideia. Mas se é uma boa ideia, por que não criar também um Certificado Digital Covid cá dentro? A ideia não é minha. É do especialista Filipe Froes no DN de hoje. Uma excelente ideia. Permitia que quem tivesse esse Certificado pudesse aceder a bares, discotecas, grandes eventos, competições desportivas. Bom para a saúde e a economia. Por que é que o Governo não ensaia essa ideia?
  • Impacto da vacinaçãoHá pessoas vacinadas que ficam novamente infetadas e outras que chegam mesmo a ser internadas. Será que isto é efeito das novas variantes? Será que isto justifica reavaliar o programa de vacinação, reduzindo o tempo entre a primeira e a segunda dose? A DGS está a estudar o assunto. Boa notícia.

MEDINA E OS RUSSOS

 

  1. O que sucedeu na Câmara de Lisboa é gravíssimo. Da direita à esquerda já toda a gente o reconheceu. Vejamos:       

    a) Primeiro: este caso não é um erro burocrático. É uma grosseira violação da lei de protecção de dados. Uma ilegalidade. A partir de 2018 não oferece uma dúvida. Entrou em vigor o Regulamento Europeu de Protecção de Dados. Impôs a proibição de partilhar dados pessoais sem o consentimento dos visados. Mas, atenção: já antes era igualmente ilegal. Havia uma lei de 1998 ( a lei 67/98) que impunha semelhante proibição. Que a principal Câmara do País não saiba isto é grave;     

    b)
    Segundo: o que sucedeu não é culpa da lei de 1974 sobre o direito à manifestação. Essa é outra mentira pegada. Uma desonestidade intelectual. Essa lei pode ser antiga e estar desactualizada mas não obriga a Câmara a fornecer quaisquer dados pessoais a terceiras entidades.

    c)Terceiro: a Câmara Municipal diz no seu site que cumpre a legislação sobre protecção de dados. Depois, na prática, faz o contrário. Parece uma Câmara em autogestão em que o Presidente não controla o que lá se passa.

  2. O mais grave de tudo isto é que podem estar em causa direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos. Pessoas que podem ficar sujeitas a ameaças, chantagens e riscos para a sua segurança. Apesar disso, corre-se o risco de não acontecer nada. De a culpa voltar a morrer solteira. De ninguém ser responsabilizado. Nem um director de departamento, um director de serviços, um vereador ou o Presidente. Esperam-se os resultados do inquérito para ver. Mas se assim for é caso para dizer: é desta forma que crescem os populismos.

  3. Já toda a gente se pronunciou sobre este assunto. Toda a gente menos o PM. Há quem diga que foge a falar porque era presidente da CM quando esta prática começou. Não acredito. Mas que o silêncio não ajuda, lá isso é verdade.

 

A DEGRADAÇÃO NO GOVERNO

 

  1. O PS pode estar em alta nas sondagens. Mas a degradação dentro do Governo é enorme. Cheira a fim de ciclo. Esta semana os sinais de arrogância, divisão e desorientação foram vários.

    a) Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Um caso típico de arrogância política. Não está em causa a escolha de Adão e Silva. Já aqui tinha saudado a escolha. Estão em causa duas questões inqualificáveis:

    Primeiro, a arrogância. A arrogância do Governo ao não ter articulado esta decisão com todos os partidos. O 25 de Abril é de todos. Não é coutada de alguns. O Governo tinha obrigação de falar com todos os partidos. Em especial, com o PSD, PCP e CDS, partidos fundadores da nossa democracia. Esta atitude arrogante de querer ser o "dono disto tudo" faz com que estas comemorações estejam inquinados à partida.

    Segundo, o exagero. O exagero de umas comemorações que vão demorar tempo de mais. Deviam terminar em Dezembro de 2024. O exagero de criar uma estrutura organizativa que, na prática, vai ser um novo ministério. Já temos Ministérios que cheguem. Tudo isto vai gerar permanentes suspeições políticas e partidárias.

    b) A nomeação de Ana Paula Vitorino para a Entidade Reguladora dos Transportes. Outro exemplo de arrogância no poder. Não está em causa a sua competência. Muito menos ser casada com quem é. Mas está em causa a sua independência. É uma ex-Ministra. Uma deputada do PS. É tudo menos independente. A questão não é pessoal. É de princípio.

  2. Novas divisões dentro do Governo. As guerras entre o PM e o Ministro Pedro Nuno Santos. Há cerca de seis meses, este Ministro teve uma derrota pesada. Queria levar o dossier da TAP à AR e foi desautorizado pelo PM. Esta semana teve uma nova derrota. Pedro Nuno Santos queria reconduzir a Administração da TAP. Até convidou o seu presidente. António Costa vetou a proposta do ministro e escolheu outras pessoas. É mais uma desautorização do Ministro. Ele tutela a TAP mas não escolhe os administradores. Conclusão: as pessoas que saem da TAP são vítimas da guerra entre o PM e o ministro. O Governo é vítima da guerra da sucessão no PS. Só por sorte é que isto acaba bem.

PS SEM CANDIDATO NO PORTO

 

  1. O que politicamente se passa no Porto é fácil de explicar: Rui Moreira tem a reeleição assegurada, é praticamente impossível derrotá-lo, e por isso as principais figuras do PS e do PSD não se querem sujeitar a uma derrota.

  2. O que se passa no PS em relação ao Porto já é mais complicado. É novamente a guerra da sucessão no PS e a perda de autoridade de António Costa.
  • Durante meses o PS não tinha candidato. Só tinha candidatos a candidato.
  • Esta semana passou a ter um candidato durante 24 horas. Aceitou num dia e desistiu no dia seguinte.
  • Eduardo Pinheiro tinha sido escolhido pelo líder, António Costa. E desistiu porque foi contestado pela estrutura concelhia do Porto. Ou seja: os militantes do PS/Porto desautorizaram o líder.

 

  1. Tudo isto é humilhante para o PS.

    a) Primeiro: situações destas costumam acontecer nos pequenos partidos. Não são normais nos grandes partidos.

    b) Segundo: António Costa está a perder autoridade. No governo e no partido.

    c)Terceiro: a ideia de que António Costa é um líder a prazo reduz-lhe a autoridade; a ideia de que a sua sucessão já começou retira-lhe força; o facto de adiar uma remodelação que já devia ter feito faz com que se gere uma sensação de fragilidade. Conclusão: a sua sucessão é um berbicacho.
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