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Miguel Pina e Cunha - Professor
22 de Março de 2013 às 00:01

O ciclo de vida de um líder

A liderança é um processo. Não é um traço, embora seja moldada pelos traços dos líderes. Como todos os processos é sensível ao tempo e às suas influências. Não é possível ser um bom líder recorrendo sempre às mesmas forças. Diferentes fases da vida de liderança exigem diferentes recursos e competências.

Em entrevista recente ao Público, Belmiro de Azevedo apresenta uma reflexão sobre o desenvolvimento de líderes que merece ser alvo de mais reflexão. Eis a sua formulação: 

"O que na curva da experiência pode ser sempre positivo é um indivíduo passar a ser mais sábio, no sentido aristotélico, ser uma pessoa de aconselhamento, de criar movimentos positivos de comportamento. É subir na escala da sabedoria, entusiasmar as pessoas e, em definitivo, abandonar a pretensão de ser um bom técnico."

Esta simples afirmação contém todo um programa de pensamento sobre liderança. Eis um conjunto de notas:

1. A liderança é um processo. Não é um traço, embora seja moldada pelos traços dos líderes. Como todos os processos é sensível ao tempo e às suas influências. Não é possível ser um bom líder recorrendo sempre às mesmas forças. Diferentes fases da vida de liderança exigem diferentes recursos e competências.

2. Quando um líder começa a sua carreira tem de expressar competências técnicas. Mas à medida que vai progredindo estas competências perdem relevo. O líder precisa de revelar outras competências, nomeadamente competências de liderança propriamente ditas, de "criar movimentos positivos de comportamento". Aqui contam competências de liderança na organização.

3. Se o caminho continuar num curso ascendente, precisará a seguir o líder de expressar competências estratégicas, conceptuais. Aí tem de mostrar a capacidade de liderança da organização. O desafio é agora diferente, incluindo a capacidade de descortinar a floresta e não apenas as árvores. Por outro lado, à medida que se sobe, a descrição de funções vai sendo crescentemente desenhada pelo próprio. Trabalhar com a descrição de funções feita por outrem pode ser mais fácil do que quando nos cabe fazer, nós próprios, a descrição e a função.

4. Subir deve implicar progredir também na "escala da sabedoria". Liderar é um exercício de responsabilidade. Implica que saiba o que se sabe e o que não se sabe. Que se faça e se pense no que se faz.

5. Um dos trabalhos do líder sábio consiste em criar outros líderes sábios. "Ser uma pessoa de aconselhamento" ou, se se quiser, um coach. Estimular a sabedoria dos outros, particularmente dos mais novos.

6. Este percurso, conduzido com realismo, culmina de novo na apreciação daquilo que se ganha e na assunção daquilo que se perde: "em definitivo, abandonar a pretensão de ser um bom técnico".

Num certo sentido, esta frase contém a explicação da essência da liderança: uma caminhada de vida orientada para a melhoria pessoal. Ou, se se preferir, um exercício de sabedoria.

Para continuar a desenvolver o assunto:

Cunha, MP & Rego, A (2012). Os quatro núcleos de competências de um líder, disponível para download gratuito em novaforum

* Professor na Nova School of Business and Economics

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